Aparecido Raimundo de Souza
Marciano Verdinho das Antenas Largas
veio vindo, veio vindo, sem pedir licença chegou como sempre, de mansinho e
parou do meu lado na fila do pão de queijo e já começou a falar, sem nem olhar
direito para mim, como se a conversa tivesse começado três dias antes e nós só
estivéssemos continuando:
— Carlos, você sabia que esse pão de
queijo aqui não é pão de queijo original? Na verdade, o pão de queijo autêntico
é o de Minas, aquele que tem que ter polvilho azedo. Os caras que trabalham lá
dentro, no fabrico, só usam polvilho doce. Eu testei na semana passada, levei
para a minha tia que mora em Timóteo, a terra do Agnaldo Timóteo e ela disse
que é só uma massa de queijo com gás. Parece que a coisa vai explodir na boca
se você der uma dentada mais demorada e, se duvidar, esse gesto impensado poderá
levar seus dentes logo na primeira mastigada...
Eu comecei a fazer o que todo mundo na
cidade colocou em prática quando o Marciano surge do nada. O “Aham automático”.
— Aham... Aham... Que legal... Aham... Aham...
Meu pescoço já acenava sozinho, meu
sorriso se fazia fixo no rosto, o tipo de sorriso que depois de cinco minutos
começa a doer na bochecha, como se a gente estivesse segurando uma risada de
uma piada muito ruim.
Eu olhei para o celular. Ele me olhou
de volta. Nenhuma mensagem. Fingi que lia uma merda qualquer muito importante.
Ele nem percebeu. Continuou firme e forte:
— Falando em Minas, eu fui lá em 2019, sabe? Já te falei. Peguei a estrada BR-381, saí de Curitiba no Paraná às cinco da manhã, parei para abastecer em um posto de gasolina em Ponta Grossa, o diesel estava três reais e dezoito centavos na época, hoje está seis e setenta, você acredita? E no caminho eu furei um pneu. Não um pneu, dois. Dois pneus. Do lado esquerdo. Na chuva. Eu troquei os dois sozinho, molhado até os ossos, levei uma hora e quinze minutos, fiz a gentileza de cronometrar, porque eu sempre cronometro essas coisas, você deve sabe como é estou certo? Eu sabia dessa história dos dois pneus na chuva. Já tinha ouvido ela umas trocentas vezes. Uma vez no natal, uma vez no aniversário do Zé do Pinguelo Murcho a outra no açougue do Nicanor, uma vez no consultório do Dr. Proxeneta, meu dentista, enquanto aguardava a vez na sala de espera. O Marciano Verdinho das Antenas Largas seguia pela vida contando as mesmas histórias para todo mundo, todo mês, com os mesmos números, as mesmas pausas no momento dos pneus furarem, e para completar o quadro lúgubre, a surrada e idêntica cara de total sofrimento que ele faz todo dia, como se tivesse acontecido ontem. Encurralado, tentei a primeira fuga.
— Nossa, que louco, Marciano — disse
eu, pegando os pães de queijo que a atendente finalmente me entregou. — Paguei
no caixa e enquanto esperava o troco, mandei bala;
— Bom, meu amigo, eu tenho que ir.
Lembrei de um compromisso muito importante…
Ele nem piscou. Segurou o meu braço
devagar, com a mão quente e macia de quem come muita paçoquinha, e continuou,
como se eu não tivesse falado nada:
— Compromisso uma ova, cara. Você
sempre tem um compromisso. Escuta o resto. Depois que eu troquei os pneus, eu
cheguei na casa da minha tia às dezoito horas e vinte minutos. Ela tinha feito
feijão tropeiro, eu comi três pratos, três, você não acredita, eu normalmente
como dois, mas naquele dia eu estava com tanta fome que… seria capaz de comer
duas mulheres com suas bocetas, bocas e bundas sem tirar o possante de
dentro...
Tentei, desesperado, a segunda fuga.
Olhei para o lado, gritei um “OI!” bem alto para uma moça que eu nunca tinha
visto na vida, que passou andando na calçada oposta. A garota olhou para mim
confusa, acenou meio sem jeito e seguiu andando. O Marciano Verdinho das
Antenas Largas, nem virou a cabeça.
— Pois é, três pratos. E a minha tia
ainda quis me dar um pote para eu levar para casa. Eu aceitei, claro, porque o
feijão dela é o melhor do mundo, não tem igual, eu já tentei colocar em pratica
a bendita receita “umas pares de vezes”, mas acredite, nunca deu certo. Eu acho
que ela coloca um pouco de canela de jumento. Ela nega, mas eu sei que coloca,
eu conheço o gosto de canela… você conhece o gosto da canela de jumento?
Meu cérebro começou a ter pensamentos
pecaminosos que eu não tenho orgulho. O mais leve deles, desejei que um ladrão
armado entrasse na padaria e roubasse os pães de queijo da minha mão. Eu
implorei ardentemente à Cristo que fizesse desabar um pedacinho do teto, bem
pequeno, só o suficiente para me dar um pretexto de sair correndo. Eu desejei
mais. Ser atropelado por uma dessas bicicletas elétricas. Devagar, quase
parando, só para eu cair, fingir que me machuquei um pouco, e ter a porra da
desculpa esfarrapada na ponta da língua para ir à farmácia do Pereira. Qualquer
coisa. Qualquer destino, menos ficar ali mais cinco minutos ouvindo sobre a
canela de jumento no feijão tropeiro da tia do Marciano Verdinho.
— E o primo dela — ele continuou, e eu
senti um suor frio descer pela minha espinha, porque eu sabia onde ia dar — o
primo dela, que mora em Belo Horizonte, o sujeito ganhou na loteria uma vez.
Doze milhões de reais. Doze. Mas o panaca perdeu o caralho do bilhete. Perdeu.
No ônibus. Imaginou? Doze milhões!…
Eu vi nessa deixa a minha chance. O
sinal abriu. Eu dei um passo para trás, sorri o sorriso mais falso tipo as
histórias e falcatruas do Lula querendo continuar mamando nos colhões da
presidência e disse rápido, quase sem respirar:
— Nossa, que incrível, Marciano
Verdinho, mas realmente eu tenho que ir, a minha mãe está esperando eu levar os
pães, ela tem pressa, a gente vai almoçar na casa de um tio meu, foi muito
legal te ver, até mais!
Eu virei e saí andando rápido. Parecia
um rato assustado fugindo de um gato. Não corri, porque não queria parecer
grosso, mas andei naquela velocidade de quem está quase correndo, o passo
afervorado, o coração batendo forte querendo sair como uma cagada de dor de
barriga inesperada batendo na porta do olho do cu, os pães de queijo queimando
a palma da minha mão dentro do saquinho. Quando eu cheguei na outra banda da
calçada, estanquei, respirei fundo, olhei para o céu e agradeci. Livre.
Finalmente liberto. Eu tinha escapado.
Foi quando ouvi o grito, do outro lado
da rua, tão alto e troante que todo mundo que estava na porta da padaria virou
a cabeça:
— EI! ESPERA! EU ESQUECI DE CONTAR O
RESTO DA HISTÓRIA DO PRIMO! DEPOIS QUE ELE PERDEU O BILHETE, O INFELIZ…
Eu não ouvi o resto. Saí andando mais
rápido ainda, virei a esquina, entrei no corredor de casa, e só parei quando eu
tive certeza que ele não tinha vindo em meu encalço. Fiquei ali, encostado na
parede, respirando ofegante, os pães de queijo ainda quentes, e pensei: o pior
do sujeito chato não é o que ele fala. Não é a história repetida, tampouco não
é a opinião sobre tudo. De roldão não é o fato de ele saber o preço do diesel
em 2019. O pior, o que mata, é que ele é bom. Ele não faz por mal. Ele não quer
incomodar. Ele acha, de verdade, que a gente está pra lá de interessado. Que a
gente quer saber da canela no feijão, dos dois pneus na chuva, do primo que
perdeu doze milhões. Ele acha que somos amigos. Que aquela conversa é o melhor
momento do dia dele. E por isso a gente não pode dizer: “Cala a boca, Marciano.
Eu não ligo. Ninguém liga.” Ninguém pode. Ninguém pode, porque ele me dá sempre
que nos encontramos, um pote de doce de goiabada que a mulher dele fez. Porque
ele pergunta da minha cirurgia da próstata, um ano depois, quando ninguém mais
lembrava e ele queria saber se eu continuava bom de cama ou se na hora da foda
com a minha namorada, meu pau negava fogo. Porque ele é, no fundo, só um cara
que não tem ninguém para ouvir as suas repetências.
E ontem, eu estava reclamando do
Marciano da Anteninha Larga para o meu amigo Júnior, num bar. Contei tudo. A
história do pão de queijo, dos pneus, do grito que dei para a graciosa que
passava do outro lado da rua. Contei por quarenta minutos. Quarenta. Quando eu
finalmente parei, bebi um gole de cerveja, e olhei para o Júnior. Ele estava
olhando para o relógio. Mexendo no celular. O mesmo sorriso dorido na bochecha
que eu sempre faço quando me encontro inopinadamente com o Marciano. E ele
disse, devagar, sem me olhar direito:
— Nossa, que louco, amigo Carlos. Bem,
eu tenho que ir. Um compromisso inadiável...
Eu fiquei ali parado, com o copo de
cerveja na mão. E entendi tudo. O Marciano da Anteninha Larga não é uma
exceção. Ele é o espelho. Todo mundo tem um Marciano na vida. Todo mundo foge
de um Carlos com seus pães de queijo. E todo mundo, em algum momento, para
alguém, é o Marciano travestido de Carlos.
Hoje de manhã eu o vi de novo na
padaria. Ele veio na minha direção. Eu não fugi. Parei. Dei um sorriso de
verdade, não o que dói. E ele abriu a boca:
— Você sabia que esse café aqui… na
verdade, o café bom é o do Cerrado Mineiro? Você sabia esse aqui é só uma
mistura com café da África. Eu testei semana passada…
Eu fiz como sempre, o “aham”. O aham
automático. E deixei ele falar...
Porque um dia, eu vou ser o velho que
conta as mesmas histórias sete vezes sete. Que segura o braço do cara na fila
do pão. Que grita do outro lado da rua o final da história do primo. E eu
espero, de todo meu coração, que alguém tenha paciência de fazer o “aham” para
mim...
Mesmo que o sorriso, puta que pariu,
mesmo que o sorriso esteja doendo forte nas curvas do meu rosto com cara do
mais perfeito imbecil.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de
Souza, de Nova Venécia, ES, 28-7-2026
Avesso
Drama de um ato só
Simplesmente Renato Machado
Só vou gostar de quem gosta de mim
Ela se tornou o meu elo de ligação feito de amor e pura magia

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