Aparecido Raimundo de Souza
Requento o café da garrafa, misturo ao
leite e faço um “engana barriga” como mamãe costumava dizer quanto papai
chegava tarde do serviço com uma baita de uma fome. Enquanto cuido da barriga,
entra pela janela aberta um vento ameno e nessa hora, me vem à lembrança o
tempo de papai e mamãe. Eles se sentavam na mesa onde estou agora, e papai em
silêncio, falava um pouco do seu trabalho e mamãe emendava tagarelando de como
transcorreu o seu dia, o que fez, e depois de uma conversa de quase uma hora,
se recolhiam para o quarto e minutos depois, papai roncava alto e em bom som.
Nunca consegui colocar na cabeça como a
mamãe conseguia dormir com papai parecendo uma betoneira ao lado dela. Enquanto
lavo as poucas louças sujas, (não gosto de deixar nada em cima da mesa, menos
ainda nos cafundós da pia. Um vento ameno entra pela janela da lavanderia, se
espalha e me traz um questionamento do qual nunca consegui me livrar, tampouco
esquecer. E pior, saber verdadeiramente o que responderia a mim mesmo. Parece
tarefa fácil, mas voltar no tempo... se pudesse voltar no “ontem”, ou melhor dito,
no meu tempo que passou e se foi faz bom período o que eu faria?
As pessoas do meu convívio sempre respondem essa pergunta com coisas grandes. Voltariam passos atrás, para não ter casado com fulana, para ter aceitado aquele emprego, para não ter comprado um carro de segunda mão, talvez, se tivesse esperado um pouco mais, daria entrada num novo. Eu não. Se eu tivesse só uma viagem, ou somente uma chance de apertar o botão de voltar, de retroceder, não mudaria nada de importante. Não almejaria ganhar na loteria; não lutaria para ter cargo importante; ser igual como esses políticos sujos; que só fazem merda; mesmo modos de ministros que se acham os deuses intocáveis.
Em trilho igual, não queria ser
presidente de porra nenhuma, governador, senador... desejaria apenas ser um
lixeiro, um gari, um vendedor ambulante, mas que me desse o direito sagrado de
ir e vir, de poder sair à rua, cabeça erguida, tomar um café na padaria da
esquina, ir a um cinema com os meus filhos, sem ter medo de tomar um tiro na
cara, ou ser assassinado. “A liberdade do simples — ensinava papai — não carece de um bando de picas voadoras
enterradas no olho da sua bunda ou vigiando os seus traseiros sujos e
fedorentos”.
E completava: “A liberdade do simples
não tem preço, ao passo que a liberdade do que se acha o tal, é uma liberdade
truncada, suja negra, imunda, e quem dela acha que faz uso, não desfruta da
tranquilidade e da paz dos fracos. O conhecido “poderoso” anda sempre de olhos
arregalados, esbugalhados, temerosos, com medo de, na próxima esquina encontrar
uma bala perdida”. Pois bem! Apesar de
não ser um “poderoso”, não consegui evitar a despedida que partiu meu peito em dois.
Não desfaria o erro que me fez aprender a andar de novo. Não apagaria nenhuma
lágrima, nenhuma noite em claro, nenhuma vergonha, nenhuma derrota.
Porque tudo isso — até o que doeu nas
ripas do osso — é o que me fez ser quem eu sou hoje. Se eu tirasse um pedaço
sequer, eu desmancharia todo o resto. Eu deixaria de ser “eu”. O que eu faria,
de verdade, é muito menor. E muito maior, ao mesmo tempo. Eu voltaria para a
cozinha da minha mãe, num começo de sábado e a ajudaria a preparar o “rango” de
papai. Eu tinha dez anos, e o cheiro de pão de queijo ainda feito na parte da
tarde, aí pelas duas da tarde, invadia toda a casa. Mamãe de avental
branquinho, mexia a forma com uma colher de pau, e repetia a mesma história do
gato que subiu no pé de goiaba — a história que eu já sabia de cor. Houve um
dia que eu estava com pressa.
Os amigos da pelada no campinho perto
da igreja estavam na porta, me chamando para jogar bola. Peguei dois pães de
queijo, comi um em pé, bebi um gole de suco, beijei a bochecha dela rápido e
saí correndo, sem nem olhar para trás. Se eu voltasse, eu não sairia. Eu
sentaria naquele banquinho de madeira perto do fogão. Comeria mais uns pães de
queijo. Ouviria a história do gato mais umas trezentas vezes, como se fosse a
primeira. Passaria a mão no avental dela, que cheirava a manteiga e sabão em
pó. Ficaria lá mais vinte minutos. Só isso. Vinte minutos que eu joguei fora
por pressa de ser criança em outro lugar, é que hoje eu daria tudo o que tenho
para ter os meus sonhos de volta...
Eu voltaria para a pracinha do bairro,
uma noite de outono de mil novecentos e lá vai pedradas. Eu estava lá com o
primeiro amor, a gente tomava guaraná em lata, o vento levava as folhas secas
pelo chão, quando ela me contou que ia se mudar para outra cidade no dia
seguinte. Na hora eu estava olhando para o infinito, pensando no teste de
matemática de segunda-feira, com a cabeça em mil lugares menos ali. Eu disse
“ah, que pena”, dei um abraço rápido na minha namorada e me fui embora. Hoje eu
não me lembro de quase nada. Não me lembro nem o que aconteceu no dia seguinte,
quando acordei.
Mas eu não me olvido da luz amarela do
poste no rosto dele, do som da latinha batendo no banco, da forma que ele ria
quando falava do meu avô. Se eu voltasse, eu guardaria o celular no bolso.
Olharia para ele o tempo todo. Ouviria cada palavra. Ficaria mais quinze
minutos. Só isso. Quinze minutos que eu deixei escapar sem notar, e que hoje é
tudo o que eu queria poder guardar melhor de meu velho pai. Eu voltaria para a
garagem da minha casa, um domingo de não recordo o ano. Papai estava
consertando a bicicleta dele, as mãos cheias de graxa, o suor na testa, e
recordo que me chamou três vezes para me ensinar a regular o freio. Eu não fui
estava irritado. Queria terminar um jogo
no velho computador, achei o conselho dele chato, demorado, desnecessário.
Disse que “depois eu aprenderia”, subi as escadas e deixei ele lá sozinho. Hoje
ele já não mora mais aqui. A bicicleta foi doada. Toda vez que eu tenho que consertar alguma
coisa e não sei, eu ouço a voz dele na cabeça, explicando devagar, como se eu
tivesse toda a paciência do mundo. Se eu voltasse, eu desligaria o velho e
desusado computador. Desceria a escada. Pegaria a chave de boca. Sujaria a mão
de graxa também. Ouviria cada explicação, mesmo que eu já soubesse. Ficaria lá
até papai terminar. Só isso.
Eu voltaria então para uma tarde de
terça-feira de um ano antes dele partir. A mãe ligou três vezes. Eu estava em
uma reunião idiota no trabalho, cheio de coisas para fazer, respondi com uma
mensagem: “estou ocupado, depois ligo para a senhora”. Depois eu liguei, sim —
três dias depois. Ela disse que estava tudo bem, que tinha sido só uma saudade,
“que eu não precisava se preocupar”. Se eu voltasse nesse tempo ido, eu sairia
da reunião. Pediria licença, não importava o que o chefe iria pensar. Atenderia
na primeira vez. Ficaria ouvindo ela falar do preço do tomate, da vizinha que
brigou com o marido, do gato que dormiu no travesseiro dela de noite.
Ficaria lá, no telefone orelhão, até
ela dizer que já era hora de dormir. Sem pressa de desligar. Sem pensar nas
coisas que eu tinha para fazer. Só isso. A gente passa a vida toda com pressa.
Pressa de crescer, pressa de chegar, pressa de realizar, pressa de ir para o
próximo passo, o próximo mês, o próximo ano. E deixamos o tempo passar sem
olhar direito. Pensamos que os grandes momentos são os que ficam — o casamento,
a formatura dos filhos, a viagem dos sonhos. Mas não. O que fica, o que
realmente faz falta hoje, no meu dia a dia, quando já não se pode mais ter, são
os pequenos momentos felizes que deixamos de viver.
Vinte minutos na cozinha da minha mãe,
os quinze minutos na pracinha. O domingo na garagem com meu papito, a ligação
da mãe que a gente adiou. A tristeza de não poder voltar não é por causa das
coisas que deram errado. É por causa das coisas que deram certo, e que eu não
aproveitei direito porque, meu Deus, eu estava olhando para outro lugar. Eu não
posso voltar. Ninguém pode. Mas hoje tantos anos depois, eu aprendi uma coisa
que eu não sabia aos dez, aos dezoito, aos vinte e cinco anos: o tempo não está
mais lá atrás, esperando a gente voltar. Ele está aqui, se faz no agora, se
agiganta nesse exato momento em que você, meu caro leitor e amigo está lendo
esse texto, no copo de café que você esqueceu na mesa, na voz da pessoa que
está do seu lado, no cheiro de chuva que entra pela janela.
Daqui a dez anos, esse momento comum,
sem nenhuma importância aparente, vai ser o que você vai implorar para poder
voltar. O que você vai querer é só ficar mais um pouco. Mais quinze minutos.
Mais vinte. Sem pressa. Em dias de agora, sem celular na mão. Sem a cabeça no
amanhã que nunca chega. Eu apaguei a luz do fogão. Lavei as louças do café que
tomei, acondicionei no lugar o que havia tirado da geladeira. Passei a mão no
celular. Liguei para a minha mãe. Ela
atendeu na terceira chamada, sonolenta, perguntando se tinha acontecido alguma
coisa.
— Não, minha princesa — disse eu. —
Nada. Só queria ouvir a sua voz.
E fiquei lá. Calado, ouvindo ela falar
do gato, do tomate, da vizinha. Sem olhar o relógio. Sem pensar no trabalho
dentro de poucas horas. Só ficando com a voz dela, com a voz de papai, ouvindo
seus roncos, como se ambos estivessem ainda vivos e como se eu nunca houvesse
me afastado em nenhum momento do lado deles.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de
Souza, de Conceição do Castelo, Espírito Santo, 31-7-2026
O chato de galochas
Avesso
Drama de um ato só
Simplesmente Renato Machado

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-