sexta-feira, 31 de julho de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Se eu pudesse voltar no meu tempo

Aparecido Raimundo de Souza

AQUI ESTOU no conforto da minha cozinha, exatamente quando o relógio marca uma e quarenta e cinco desta manhã de sábado.  Antes de sair hoje cedo, para o trabalho, como sempre faço, todos os dias, deixei um café pronto na garrafa térmica para quando voltasse da rua, sentasse e fizesse um lanche rápido para não jantar (seria pesado em vista do adiantado dos ponteiros) e obviamente o melhor de tudo, não iria dormir de barriga vazia. Tenho sempre em estoque uns dois ou três pacotes de bisnaguinhas da Plusvita na dispensa, na geladeira, leite, queijo em fatias, geleia, manteiga e marmelada.

Requento o café da garrafa, misturo ao leite e faço um “engana barriga” como mamãe costumava dizer quanto papai chegava tarde do serviço com uma baita de uma fome. Enquanto cuido da barriga, entra pela janela aberta um vento ameno e nessa hora, me vem à lembrança o tempo de papai e mamãe. Eles se sentavam na mesa onde estou agora, e papai em silêncio, falava um pouco do seu trabalho e mamãe emendava tagarelando de como transcorreu o seu dia, o que fez, e depois de uma conversa de quase uma hora, se recolhiam para o quarto e minutos depois, papai roncava alto e em bom som.

Nunca consegui colocar na cabeça como a mamãe conseguia dormir com papai parecendo uma betoneira ao lado dela. Enquanto lavo as poucas louças sujas, (não gosto de deixar nada em cima da mesa, menos ainda nos cafundós da pia. Um vento ameno entra pela janela da lavanderia, se espalha e me traz um questionamento do qual nunca consegui me livrar, tampouco esquecer. E pior, saber verdadeiramente o que responderia a mim mesmo. Parece tarefa fácil, mas voltar no tempo... se pudesse voltar no “ontem”, ou melhor dito, no meu tempo que passou e se foi faz bom período o que eu faria?

As pessoas do meu convívio sempre respondem essa pergunta com coisas grandes. Voltariam passos atrás, para não ter casado com fulana, para ter aceitado aquele emprego, para não ter comprado um carro de segunda mão, talvez, se tivesse esperado um pouco mais, daria entrada num novo.  Eu não. Se eu tivesse só uma viagem, ou somente uma chance de apertar o botão de voltar, de retroceder, não mudaria nada de importante. Não almejaria ganhar na loteria; não lutaria para ter cargo importante; ser igual como esses políticos sujos; que só fazem merda; mesmo modos de ministros que se acham os deuses intocáveis.

Em trilho igual, não queria ser presidente de porra nenhuma, governador, senador... desejaria apenas ser um lixeiro, um gari, um vendedor ambulante, mas que me desse o direito sagrado de ir e vir, de poder sair à rua, cabeça erguida, tomar um café na padaria da esquina, ir a um cinema com os meus filhos, sem ter medo de tomar um tiro na cara, ou ser assassinado. “A liberdade do simples — ensinava papai —  não carece de um bando de picas voadoras enterradas no olho da sua bunda ou vigiando os seus traseiros sujos e fedorentos”. 

E completava: “A liberdade do simples não tem preço, ao passo que a liberdade do que se acha o tal, é uma liberdade truncada, suja negra, imunda, e quem dela acha que faz uso, não desfruta da tranquilidade e da paz dos fracos. O conhecido “poderoso” anda sempre de olhos arregalados, esbugalhados, temerosos, com medo de, na próxima esquina encontrar uma bala perdida”.  Pois bem! Apesar de não ser um “poderoso”, não consegui evitar a despedida que partiu meu peito em dois. Não desfaria o erro que me fez aprender a andar de novo. Não apagaria nenhuma lágrima, nenhuma noite em claro, nenhuma vergonha, nenhuma derrota.

Porque tudo isso — até o que doeu nas ripas do osso — é o que me fez ser quem eu sou hoje. Se eu tirasse um pedaço sequer, eu desmancharia todo o resto. Eu deixaria de ser “eu”. O que eu faria, de verdade, é muito menor. E muito maior, ao mesmo tempo. Eu voltaria para a cozinha da minha mãe, num começo de sábado e a ajudaria a preparar o “rango” de papai. Eu tinha dez anos, e o cheiro de pão de queijo ainda feito na parte da tarde, aí pelas duas da tarde, invadia toda a casa. Mamãe de avental branquinho, mexia a forma com uma colher de pau, e repetia a mesma história do gato que subiu no pé de goiaba — a história que eu já sabia de cor. Houve um dia que eu estava com pressa.

Os amigos da pelada no campinho perto da igreja estavam na porta, me chamando para jogar bola. Peguei dois pães de queijo, comi um em pé, bebi um gole de suco, beijei a bochecha dela rápido e saí correndo, sem nem olhar para trás. Se eu voltasse, eu não sairia. Eu sentaria naquele banquinho de madeira perto do fogão. Comeria mais uns pães de queijo. Ouviria a história do gato mais umas trezentas vezes, como se fosse a primeira. Passaria a mão no avental dela, que cheirava a manteiga e sabão em pó. Ficaria lá mais vinte minutos. Só isso. Vinte minutos que eu joguei fora por pressa de ser criança em outro lugar, é que hoje eu daria tudo o que tenho para ter os meus sonhos de volta...

Eu voltaria para a pracinha do bairro, uma noite de outono de mil novecentos e lá vai pedradas. Eu estava lá com o primeiro amor, a gente tomava guaraná em lata, o vento levava as folhas secas pelo chão, quando ela me contou que ia se mudar para outra cidade no dia seguinte. Na hora eu estava olhando para o infinito, pensando no teste de matemática de segunda-feira, com a cabeça em mil lugares menos ali. Eu disse “ah, que pena”, dei um abraço rápido na minha namorada e me fui embora. Hoje eu não me lembro de quase nada. Não me lembro nem o que aconteceu no dia seguinte, quando acordei.

Mas eu não me olvido da luz amarela do poste no rosto dele, do som da latinha batendo no banco, da forma que ele ria quando falava do meu avô. Se eu voltasse, eu guardaria o celular no bolso. Olharia para ele o tempo todo. Ouviria cada palavra. Ficaria mais quinze minutos. Só isso. Quinze minutos que eu deixei escapar sem notar, e que hoje é tudo o que eu queria poder guardar melhor de meu velho pai. Eu voltaria para a garagem da minha casa, um domingo de não recordo o ano. Papai estava consertando a bicicleta dele, as mãos cheias de graxa, o suor na testa, e recordo que me chamou três vezes para me ensinar a regular o freio. Eu não fui estava irritado.  Queria terminar um jogo no velho computador, achei o conselho dele chato, demorado, desnecessário. Disse que “depois eu aprenderia”, subi as escadas e deixei ele lá sozinho. Hoje ele já não mora mais aqui. A bicicleta foi doada.  Toda vez que eu tenho que consertar alguma coisa e não sei, eu ouço a voz dele na cabeça, explicando devagar, como se eu tivesse toda a paciência do mundo. Se eu voltasse, eu desligaria o velho e desusado computador. Desceria a escada. Pegaria a chave de boca. Sujaria a mão de graxa também. Ouviria cada explicação, mesmo que eu já soubesse. Ficaria lá até papai terminar. Só isso.

Eu voltaria então para uma tarde de terça-feira de um ano antes dele partir. A mãe ligou três vezes. Eu estava em uma reunião idiota no trabalho, cheio de coisas para fazer, respondi com uma mensagem: “estou ocupado, depois ligo para a senhora”. Depois eu liguei, sim — três dias depois. Ela disse que estava tudo bem, que tinha sido só uma saudade, “que eu não precisava se preocupar”. Se eu voltasse nesse tempo ido, eu sairia da reunião. Pediria licença, não importava o que o chefe iria pensar. Atenderia na primeira vez. Ficaria ouvindo ela falar do preço do tomate, da vizinha que brigou com o marido, do gato que dormiu no travesseiro dela de noite.

Ficaria lá, no telefone orelhão, até ela dizer que já era hora de dormir. Sem pressa de desligar. Sem pensar nas coisas que eu tinha para fazer. Só isso. A gente passa a vida toda com pressa. Pressa de crescer, pressa de chegar, pressa de realizar, pressa de ir para o próximo passo, o próximo mês, o próximo ano. E deixamos o tempo passar sem olhar direito. Pensamos que os grandes momentos são os que ficam — o casamento, a formatura dos filhos, a viagem dos sonhos. Mas não. O que fica, o que realmente faz falta hoje, no meu dia a dia, quando já não se pode mais ter, são os pequenos momentos felizes que deixamos de viver.

Vinte minutos na cozinha da minha mãe, os quinze minutos na pracinha. O domingo na garagem com meu papito, a ligação da mãe que a gente adiou. A tristeza de não poder voltar não é por causa das coisas que deram errado. É por causa das coisas que deram certo, e que eu não aproveitei direito porque, meu Deus, eu estava olhando para outro lugar. Eu não posso voltar. Ninguém pode. Mas hoje tantos anos depois, eu aprendi uma coisa que eu não sabia aos dez, aos dezoito, aos vinte e cinco anos: o tempo não está mais lá atrás, esperando a gente voltar. Ele está aqui, se faz no agora, se agiganta nesse exato momento em que você, meu caro leitor e amigo está lendo esse texto, no copo de café que você esqueceu na mesa, na voz da pessoa que está do seu lado, no cheiro de chuva que entra pela janela.

Daqui a dez anos, esse momento comum, sem nenhuma importância aparente, vai ser o que você vai implorar para poder voltar. O que você vai querer é só ficar mais um pouco. Mais quinze minutos. Mais vinte. Sem pressa. Em dias de agora, sem celular na mão. Sem a cabeça no amanhã que nunca chega. Eu apaguei a luz do fogão. Lavei as louças do café que tomei, acondicionei no lugar o que havia tirado da geladeira. Passei a mão no celular.  Liguei para a minha mãe. Ela atendeu na terceira chamada, sonolenta, perguntando se tinha acontecido alguma coisa.

— Não, minha princesa — disse eu. — Nada. Só queria ouvir a sua voz.

E fiquei lá. Calado, ouvindo ela falar do gato, do tomate, da vizinha. Sem olhar o relógio. Sem pensar no trabalho dentro de poucas horas. Só ficando com a voz dela, com a voz de papai, ouvindo seus roncos, como se ambos estivessem ainda vivos e como se eu nunca houvesse me afastado em nenhum momento do lado deles.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Conceição do Castelo, Espírito Santo, 31-7-2026

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