Maria Helena Costa
Há uma publicação no Instagram, de Maurilo Borges, que
deveria ser de leitura obrigatória para pais cristãos. Não porque traga uma
novidade teológica, mas porque diz, com uma clareza incómoda, o que muitos de
nós já sentimos em casa e ainda recusamos nomear: os nossos filhos são atacados
todos os dias por ideologias hostis à fé cristã. Marxismo clássico.
Cientificismo. Relativismo pós-moderno. Desconstrução do sexo e da família.
Pressão para privatizar a fé. Naturalismo que reduz o ser humano a um acidente
biológico sem propósito.
O mais grave não é a
existência desses ataques. O mais grave é a forma como nós, pais cristãos,
ainda entregamos as crianças à escola com a instrução tácita — e às vezes
explícita — de “aprenderem tudo o que o professor ensinar”. Como se o ensino
fosse neutro. Como se a sala de aula se resumisse à ortografia, à tabuada e ao
teorema de Pitágoras. Como se a antropologia, a moral, a origem do homem, o
sentido do corpo e a definição de família pudessem ser ensinadas sem um deus no
centro — o Deus da Escritura ou outro qualquer.
Eu própria perdi o meu filho
para essas ideologias sem dar por isso.
Não foi de um dia para o
outro. Não houve um ultimato dramático à mesa. Foi uma erosão. Perguntas que
começaram a surgir com outro tom. Um constrangimento crescente em relação às
verdades bíblicas. Um olhar de superioridade moral quando falávamos de pecados
que a cultura já rebatizou de “identidade”. Uma fé que, de tal forma “privada”,
deixou de ter o direito de se pronunciar sobre o corpo, o sexo, a verdade e o
bem. Quando dei por mim, já não estava a catequizar um filho da aliança. Estava
a negociar com alguém que tinha aprendido, noutro púlpito, que as convicções
cristãs firmes são autoritárias, intolerantes ou simplesmente atrasadas.
Não escrevo isto do alto de uma parentalidade irrepreensível. Não há pais perfeitos. A tradição cristã nunca nos permitiu essa ilusão. Somos pecadores a criar pecadores, dependentes da mesma graça que pregamos. Errámos no tom, no tempo, na presunção de que o culto dominical e a oração à mesa bastariam contra um currículo que forma a imaginação moral cinco dias por semana. Mas o reconhecimento da nossa falibilidade não pode servir de desculpa para continuarmos a dormir.
O mito que nos desarmou
A ideia de que a escola
pública é ideologicamente neutra é, talvez, a superstição mais bem-sucedida do
nosso tempo. Convenceu inclusive muitos crentes. Afinal, “é só a escola”. A fé
fica para casa e para a igreja. O Estado ensina factos; a família ensina
valores.
Só que não existem factos sem
enquadramento. Toda a educação responde, mesmo quando finge que não, a
perguntas teológicas: Quem é o homem? De onde veio? Para que existe? O que é o
bem? Quem tem autoridade para o definir? O que é um corpo? O que é uma família?
O sofrimento é obra do acaso ou há redenção?
A publicação que mencionei
descreve com precisão o conflito. O marxismo clássico trata a religião como o
“ópio do povo” e a moral como uma construção de classe — contra a doutrina de
que a moral emana do carácter de Deus e de que a redenção é espiritual, não
meramente económica. O cientificismo reduz a verdade ao que cabe no laboratório
e descarta o milagre, a alma, a criação e a ressurreição como estágios
inferiores do intelecto. O pós-modernismo declara que não há factos, apenas
interpretações, e classifica a verdade cristã como dogmática. A antropologia
dominante desfaz a distinção “homem e mulher os criou” (Génesis 1:27) e rejeita
o matrimónio heterossexual monogâmico como modelo. A fé é empurrada para o
quarto: pode existir, desde que não se manifeste na universidade nem na escola.
E o naturalismo estrito, mesmo quando alguns cristãos aceitam mecanismos
biológicos sob a providência de Deus, nega qualquer propósito e reduz a pessoa
a um acidente sem o valor intrínseco conferido pelo Criador.
Nada disto é “neutro”. É uma
catequese. Apenas não usa o Catecismo de Westminster.
Em Portugal, este processo não
é abstracto. Passa pela disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, por guiões e
linguagens sobre género, por um ambiente cultural em que questionar certas
premissas é tratado como falta de empatia — ou pior. Pais cristãos que ainda
acreditam que “isso não acontece na escola do meu filho” costumam descobrir
tarde demais que aconteceu em doses pequenas, repetidas, afectivas, com a
autoridade de quem atribui as notas.
E depois admiramo-nos de que, após alguns anos, os filhos “não queiram saber da fé” e rejeitem o ensino bíblico que receberam. Não rejeitam apenas um conjunto de histórias da Escola Dominical. Rejeitam uma visão do mundo que nunca lhes foi transmitida com a mesma densidade, a mesma linguagem contemporânea e a mesma honestidade intelectual com que a outra lhes foi apresentada.
O que a fé cristã já nos
tinha dito
Nós, cristãos, não deveríamos
ter sido apanhados de surpresa. A Escritura nunca entregou a formação dos
filhos ao império de turno.
“Estas palavras que hoje te
ordeno estarão no teu coração; tu as repetirás a teus filhos, e delas falarás
sentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te”
(Deuteronómio 6:6-7).
A educação dos filhos que Deus
nos dá não é um extra devocional. É uma cosmovisão que atravessa a mesa, o
caminho, o sono e o trabalho.
Não podemos continuar a olhar
para a infância como um tempo para adiar a doutrina. A ignorância não é mãe da
piedade. Não há um centímetro quadrado da criação sobre o qual Cristo não diga
“É meu”. Se isso é verdade, então a biologia, a história, a literatura, a
educação sexual e a “cidadania” também estão sob o senhorio de Cristo — ou sob
o senhorio de outro.
A nossa falha não foi, em
primeiro lugar, falta de zelo. Foi, muitas vezes, uma fé doméstica piedosa, mas
intelectualmente magra. Ensinámos os filhos a serem educados, obedientes e
“bons alunos”. Dificilmente os ensinámos a discernir premissas. Raramente os
preparámos para o momento em que um professor simpático, competente e
moralmente seguro de si lhes diz, com toda a naturalidade, que a Bíblia é um
texto da sua cultura privada, que o sexo é sentido e não dado, e que a verdade
absoluta é uma forma de violência.
Um filho pode memorizar o Catecismo e, ainda assim, perder a guerra se a escola o ensinar a sentir vergonha daqueles artigos.
Como preparar os filhos —
sem a ilusão do controlo total
Não há fórmula que substitua o
Espírito Santo, nem método parental que anule o coração. Isso também é doutrina
bíblica: os meios importam, mas a regeneração não é fabricada em casa.
Precisamente por isso, os meios importam. Deus usa ordinariamente pais acordados,
igrejas que catequizam de verdade e lares onde a fé se discute com ar fresco, e
não apenas se declara.
Algumas pistas concretas,
testadas no desgaste do dia-a-dia e não numa teoria de Instagram:
1. Acabar com a ordem
de “aprender tudo o que o professor disser”.
O respeito pela autoridade escolar não significa credulidade. Ensine o seu
filho a distinguir matéria verificável de interpretação moral. Pode aprender a
data da Revolução Francesa e, no mesmo dia, recusar a premissa de que toda a
hierarquia é opressão. Pode estudar a evolução como um modelo científico em
debate e recusar o salto filosófico de que não há Criador nem propósito.
Diga-lhe explicitamente: o professor não é o magistério da Igreja.
2. Fazer o “debriefing”
todos os dias
Dez minutos depois da escola valem mais do que um sermão de emergência aos
16 anos. “O que é que hoje ouviste sobre o que é ser pessoa? Sobre rapazes e
raparigas? Sobre família? Sobre religião?” Não interrogar como um inquisidor.
Conversar como quem leva a sério a alma do filho. Se não perguntarmos, outro
universo narrativo responderá por nós.
3. Catequizar para o
século XXI, não apenas para o século XVII.
O Catecismo, o Credo, o Decálogo e o Pai-Nosso continuam a ser a ossatura.
Mas é preciso traduzir. O que significa “criado à imagem de Deus” quando a
cultura diz que o “eu” se constrói? O que é o pecado quando a cultura chama
“autenticidade” à desobediência? O que é o casamento quando a instituição é
redefinida por decreto afectivo? Uma criança de 10 anos já recebe estas
mensagens. Esperar pela adolescência é chegar depois da batalha.
4. Ensinar a diferença
entre compaixão e concordância.
Muitos filhos não abandonam Cristo porque leram Nietzsche. Abandonam porque
associaram a fé à crueldade. Precisam de ver em nós o ódio ao pecado e a
dignidade para com a pessoa. Precisam de ouvir que um colega que sofre de
confusão não é um inimigo a humilhar — e que amar essa pessoa não exige mentir
sobre o corpo que Deus fez. Sem esta distinção, a escola ganha pelo apelo à
emoção.
5. Ler a Escritura
como um livro que interpreta o mundo, e não como um livro de máximas.
Génesis 1–3 não é apenas “a história da criação”. É antropologia,
sexualidade, trabalho, o mal e a promessa. Os Evangelhos não dizem apenas
“Jesus ama-te”. São o reino contra outros reinos. Romanos 1 não é um texto para
citar numa guerra cultural; é o diagnóstico da troca da verdade pela mentira.
Os filhos precisam de ver que a Bíblia tem mais densidade do que o vídeo viral
da moda.
6. Conhecer o
currículo de Cidadania e os materiais que entram em casa pelo telemóvel.
A escola já não é o único catequista. O TikTok, as séries e os grupos de
WhatsApp fazem o trabalho nocturno. Os pais que não sabem o que o filho consome
digitalmente estão a discutir o século XX. Não se trata de pânico. Trata-se de
pastoreio.
7. Não terceirizar a
formação para que “a igreja trate disso”.
A igreja é essencial, mas não é suficiente se o lar contradiz ou silencia o
que se ouviu no domingo. Os filhos cheiram a hipocrisia com uma precisão
teológica que muitos adultos já perderam. Uma fé cristã que só existe no culto
é exactamente o tipo de fé que a escola ensina a privatizar.
8. Procurar companhia.
As famílias isoladas cansam-se e cedem. Uma igreja que leve a sério a
aliança, pais que leiam juntos, grupos onde se possa confessar o medo sem ser
tratado como fanático — isto não é um acessório. É um meio de perseverança.
Onde for possível, considerar uma escola cristã sólida ou o ensino doméstico
não é uma fuga do mundo; pode ser uma obediência prudente. Onde não for
possível, a vigilância no ensino público torna-se ainda mais urgente.
9. Orar como quem sabe
que pode perder — e como quem sabe que Deus regenera.
Alguns de nós já perdemos um filho para estas águas, pelo menos por agora.
Isso não anula a promessa, nem transforma o luto em cinismo. Continuamos a
orar, a deixar a porta aberta, a recusar tanto o “está tudo bem” mentiroso como
o “está tudo perdido” fatalista. A soberania de Deus não nos dispensa de agir,
mas a nossa acção não Lhe toma o lugar.
Um apelo, não um tribunal
Se está a ler isto e o seu
filho ainda é pequeno, não desperdice a janela de oportunidade. Se já é
adolescente, não desista da conversa por medo do conflito. O silêncio também
educa — educa para a ideia de que a fé não sobrevive ao contacto com o mundo real.
Se, como eu, já olha para trás
e vê o seu filho afastado, este texto não é uma sentença. É um aviso aos que
ainda podem agir e uma intercessão por aqueles que chegaram tarde à evidência.
Deus não precisa de pais perfeitos. Precisa de pais acordados.
Deixemos de mandar as crianças
para a escola como quem manda o pão para o forno: “vai, e volta pronto”. Elas
voltam formadas. A pergunta é: formadas por quem?
A escola não é neutra. A nossa
omissão também não.
Título, Imagem e Texto: Maria
Helena Costa, ContraCultura,
5-9-2026


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