sábado, 5 de setembro de 2026

Feira de São Cristóvão celebra 81 anos de tradição nordestina no Rio

Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas celebra mais de oito décadas reunindo música e gastronomia


Rodrigo T. Ribeiro

Quem entra na Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, dificilmente consegue ficar indiferente. Basta caminhar alguns metros para ouvir o som do forró, sentir o cheiro da comida nordestina, encontrar sotaques diferentes, ver famílias reunidas e perceber que aquele espaço é muito mais do que um centro de compras ou gastronomia. É território de memória, identidade, música e celebração.

A Feira de São Cristóvão completa 81 anos mantendo viva uma tradição que atravessou gerações e ajudou a transformar a cultura nordestina em parte inseparável da identidade carioca. É um pedaço do Nordeste no coração do Rio, onde tradição e renovação caminham lado a lado.

Para marcar a data, os feirantes prepararam uma homenagem especial: um bolo de nove metros, feito com carinho para celebrar o aniversário e ser compartilhado com pessoas importantes para a história da Feira. A iniciativa traduz também uma relação construída ao longo de décadas entre os comerciantes, os cariocas e os turistas que visitam o espaço.

Uma história construída com muita luta

A trajetória da Feira é feita de muitas histórias individuais que, juntas, ajudam a contar a história coletiva da comunidade nordestina no Rio.


Uma dessas personagens é Maria da Guia, diretora de marketing da Feira de São Cristóvão e feirante que conhece de perto os diferentes momentos dessa história. Ela chegou ao local em 1977, quando ainda era preciso puxar lona e enfrentar as dificuldades da feira instalada ao ar livre.

“Eu sou feirante. Eu cheguei aqui em 1977. Puxei muita lona lá fora com muito orgulho, com muita honra pra deixar a feira junto com o que está hoje”, conta.

A lembrança de quem viveu essa transformação ganha ainda mais força quando Maria da Guia fala sobre a relação afetiva que construiu com o lugar.

“É um amor incrível, é um amor que não tem tamanho que eu tenho com essa Feira de São Cristóvão. Eu costumo dizer, Rodrigo, que a nossa Feira de São Cristóvão, eu me dou mais à Feira do que à minha casa, porque é aqui onde eu criei meus filhos.”

A história pessoal dela se mistura à história da própria Feira. Natural da Paraíba, Maria da Guia lembra que enfrentou uma longa viagem para chegar ao Rio e construir uma vida nova.

“Não foi à toa que eu viajei três dias com três noites dentro de um ônibus, que na época era pau de arara, mas quando eu vim pra cá já tinha ônibus, e fiquei lá fora puxando lona.”

Hoje, no cargo de diretora de marketing, ela afirma sentir orgulho de representar suas raízes.

“Representando o meu Nordeste, o meu povo lá da Paraíba, não só o Nordeste, o mundo e o Brasil todo amam essa Feira de São Cristóvão.”


De mãe para filho, uma receita que atravessa gerações

Na gastronomia, a tradição também passa de geração em geração.

No Conexão Mandacaru Restaurante, Josélia Maria dos Santos Xavier comanda a cozinha e mantém há 22 anos uma história construída em família. Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, ela trouxe para o Rio os sabores aprendidos dentro de casa.

“Eu tô com 22 anos de Feira, só na gastronomia nordestina. É uma coisa familiar, a família toda abraçou.”

E a receita não nasceu apenas nos restaurantes. Ela veio das lembranças de infância e dos ensinamentos da avó.

“É de vó pra mãe, mãe pra filho. A gente aproveitou aquele temperinho da vovó do Nordeste e trouxemos aqui pra nossa gastronomia aqui na Feira de São Cristóvão.”

Josélia criou os filhos praticamente dentro da rotina da cozinha. Hoje, eles cresceram, estudaram e seguem ajudando no negócio da família.

“Desde pequenininhos eles entram. Tenho dois filhos, uma menina e um menino. Formei, são todos formados, um é advogado, outro é dentista. E continuam trabalhando comigo.”

Ao lado dela está João Victor, de 28 anos, responsável pela área financeira do restaurante. A história dele é praticamente inseparável da Feira.

“Eu estou aqui desde criança. Eu comecei aqui, a gente só ficava jogando bola aqui, tomando esporro de seguranças na época. Jogando, brincando aqui na rua pra caramba.”

Antes de cuidar das finanças, João Victor passou por praticamente todas as funções do negócio.

“Depois comecei a ajudar aqui e eu já lavava, já sequei pratos, já sequei talheres. Aí hoje eu tô ajudando aqui nas finanças.”

A história de mãe e filho resume uma das principais características da Feira: a capacidade de transformar trabalho em patrimônio familiar.

Para Josélia, família significa união, e esse é também um dos segredos para manter um negócio vivo durante tantos anos.

“Família é união, né? Quando a gente tem uma família unida, uma família que chega junto, que trabalha junto, que soma junto. Isso é tudo de bom.”

Para o futuro da Feira, ela deseja crescimento sem perda de identidade.

“Eu desejo mudanças muito, muito boas. Que a nossa Feira cresça cada vez mais dentro da nossa cultura, que é a cultura nordestina, que a gente preserve cada vez mais e que os clientes venham pra conhecer a nossa cultura.”

E ela sabe que o público é fundamental para manter essa história de pé.

“Nós dependemos disso aí, o público é o que nos fortalece aqui dentro do pavilhão. Então eu quero muito que esse público venha conhecer a nossa cultura.”


Quando o Nordeste sobe ao palco

Se existe uma linguagem capaz de reunir diferentes gerações dentro da Feira, ela é a música.

A cantora Flávia Baião conhece bem essa conexão. Nordestina de origem familiar, com raízes no Maranhão e no Piauí, ela leva ao palco não apenas música, mas identidade.

“O que não pode faltar quando você comanda festa em algum palco da Feira de São Cristóvão? Alegria. Alegria, comprometimento, verdade na nossa cultura, falar do que a gente entende, do que a gente vive.”

E há uma música que, segundo ela, é praticamente obrigatória.

“De fato, ‘Asa Branca’. Essa é a música principal. Todos se emocionam.”

A canção eternizada por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, continua atravessando gerações e encontrando novos públicos dentro da Feira.

Mas a programação musical não para no baião. Forró, frevo e diferentes vertentes da música nordestina fazem parte da experiência de quem visita o espaço.

“Frevo, forró, aqui é forró romântico, Calcinha Preta, Mastruz com Leite e aí vai, tudo.”

É essa mistura que faz com que a Feira não seja apenas um lugar para preservar o passado, mas também um espaço onde a cultura continua sendo produzida no presente.

E Flávia resume o espírito do lugar em uma frase que poderia ser o convite para os 81 anos:

“A Feira de São Cristóvão é lugar de gente feliz. Vem ser feliz na Feira de São Cristóvão.”

Encontro de gerações

A força da Feira também está na capacidade de reunir públicos diferentes.

Se de um lado estão os feirantes que chegaram há décadas e ajudaram a construir o espaço, do outro estão os jovens que transformaram a Feira em ponto de encontro, diversão e descoberta.

Além dos restaurantes, barracas, apresentações musicais e manifestações culturais, o karaokê é uma das atrações que aproximam a juventude, criando um ambiente descontraído em que amigos se encontram, cantam e celebram juntos.

É justamente essa capacidade de juntar avós, pais, filhos e netos que ajuda a explicar a longevidade da Feira.

A tradição não precisa ficar parada no tempo. Ela pode ganhar novos ritmos, novos frequentadores e novas formas de diversão sem deixar de ser nordestina.

O sabor que mantém a memória viva

A gastronomia é outro capítulo fundamental dessa história.

Maria da Guia não hesita quando é convidada a falar sobre o que o visitante precisa experimentar.

“Essa buchada de bode, o sarapatel, o baião de dois, a carne de sol, a macaxeira, que são as comidas tradicionais do Nordeste.”

E ainda tem o cuscuz.

“O cuscuz é o principal, aquela farofinha de cuscuz, um feijão de corda. E a gente come com galinha caipira.”

São pratos que carregam mais do que sabor. Eles remetem à infância, às famílias, às cozinhas das mães e avós e às lembranças de quem deixou o Nordeste para construir uma nova vida no Rio.

Na barraca Tapioca da Sônia, a receita para uma boa tapioca parece simples, mas envolve ingredientes que vão muito além da cozinha.

Ivany do Carmo Rubinho trabalha há 15 anos na Feira e revela o segredo:

“Amor. Amor. O que mais? Uma boa goma. E alegria, bom recheio. É isso, é tudo fresquinho. Qualidade.”

Depois de 15 anos trabalhando no local, ela define a importância da Feira de maneira ainda mais afetiva:

“A Feira é uma mãe pra gente.”

São 81 anos sem perder a alegria

A Feira de São Cristóvão chegou aos 81 anos porque conseguiu fazer algo que poucos espaços culturais conseguem: preservar suas raízes sem deixar de acompanhar o tempo.

Ali estão os nordestinos que chegaram ao Rio em busca de oportunidades, os filhos que cresceram entre barracas e restaurantes, os netos que hoje descobrem as músicas e os sabores de seus antepassados, os cariocas que adotaram aquela cultura como parte da própria cidade e os turistas que chegam para conhecer um dos lugares mais autênticos do Rio.

É uma feira que se ouve, se dança, se come e se vive.

O forró divide espaço com o frevo e o maracatu. O baião encontra o forró romântico. A velha guarda divide a pista com a juventude. O restaurante familiar passa de mãe para filho. O cantor sobe ao palco. O visitante experimenta uma tapioca. O karaokê reúne os amigos. E, no meio de tudo isso, a cultura nordestina continua pulsando.

Aos 81 anos, a Feira de São Cristóvão não é apenas uma lembrança do Nordeste que chegou ao Rio.

É o Nordeste vivo, alegre e em permanente transformação dentro da cidade.

E talvez seja justamente por isso que Maria da Guia consiga resumir em sentimento aquilo que décadas de história tentam explicar: o amor pela Feira não tem tamanho.

Porque quem conhece a Feira de São Cristóvão sabe: ali, tradição não é coisa do passado. Tradição é festa, é família, é comida, é música e continua acontecendo agora.

Título, Texto e Imagens: Rodrigo T. Ribeiro, O Dia, 4-9-2026, 14h39

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