sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A negação é a verdadeira emergência da Europa


Afonso Belisário

Parece ainda existir uma profunda relutância em toda a Europa em aceitar e encarar o facto incontestável de que o continente corre o risco daquilo que a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, publicada em dezembro de 2025, descreve como “erosão civilizacional”, uma palavra e um conceito assustadores na sua gravidade. As duas áreas políticas geralmente destacadas quando existem tentativas sérias de lidar com este assunto são a imigração e as consequências da obsessão do velho continente com as alterações climáticas.

Tem-se revelado muito difícil persuadir os dirigentes políticos europeus a compreender que o grande número de refugiados do Médio Oriente e de África que invadiram a Europa não pode ser considerado imigrante. Mesmo sem invocar a sua presença ilegal, assemelham-se mais a multidões de pessoas desesperadas, sem sentido de nacionalidade, sem ambição de assimilarem a cultura dominante dos locais de destino, e focadas em alcançar uma vida mais próspera, conservar as suas próprias culturas e impô-las aos seus novos anfitriões. Assemelham-se mais às massas que avançaram para oeste na Baixa Idade Média em direção à Europa Ocidental, fugindo dos bárbaros selvagens das estepes asiáticas e sem qualquer intenção de se unirem ao Império Romano.

Mas os bárbaros trouxeram consigo religiões tão primitivas que rapidamente adoptaram o cristianismo, o que contribuiu muito para a sua estreita associação com os habitantes locais, que gradualmente evoluíram para as grandes nações da Europa. As atuais vagas migratórias são maioritariamente muçulmanas, ferozmente sectárias e demonstram uma propensão muito maior para proliferar num estado segregado e frequentemente antagónico do que para se assimilarem às sociedades de acolhimento.

Aparentemente, o número de imigrantes ilegais que penetram na União Europeia está finalmente a ser controlado, mas a tarefa de cultivar neles qualquer sentido genuíno de pertença às suas novas nacionalidades tem-se revelado extraordinariamente difícil. A Frontex, Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira, registou quase 178.000 travessias irregulares das fronteiras da UE em 2025, uma queda de 26% em relação ao ano anterior e o menor total anual desde 2021.

Se analisarmos as taxas de natalidade dos europeus nativos, a cada dia mais deprimidas, e as taxas de natalidade das populações migrantes, que refletem uma forma completamente diferente de ver a vida e o papel da família, percebemos que a batalha contra a substituição demográfica pode até já estar perdida, numa projeção a 20 ou 30 anos e mesmo considerando a premissa bastante discutível que as políticas de imigração na Europa vão passar a ser mais restritivas a curto prazo.

Por outro lado, as consequências da lamentável capitulação da Europa aos argumentos extremistas dos acólitos do aquecimento global têm sido devastadoras para o crescimento económico e tornaram o continente duplamente vulnerável à migração inesperada, para além de desmoralizarem toda a Europa com o pesado fardo da estagnação económica.

Há mais de 50 anos que a Europa está constantemente atrasada em relação aos Estados Unidos e à China em termos económicos. Em 1980, os nove países da Comunidade Económica Europeia detinham 27% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, contra 25% dos Estados Unidos. Hoje, estes mesmos nove países, mais a Alemanha de Leste, detêm 15,5%, enquanto os Estados Unidos estão nos 26%. Todo o optimismo, embora manchado pela arrogância algo decadente da Europa em relação ao resto do mundo, com que foi lançado o grande projeto europeu, deu lugar a uma visão sombria do futuro por parte das populações europeias nativas, apesar do discurso alienado das suas elites.

Foi sobretudo na Europa que a esquerda internacional, derrotada no final da Guerra Fria, embarcou na onda da conservação ambiental, assumiu o controlo da mesma e transformou o assunto num aríete contra o capitalismo em nome da salvação do planeta. Como resultado desta loucura quixotesca, a indústria foi sufocada, a produção de gás e eletricidade restringida e a loucura das energias renováveis ​​foi coercivamente adoptada. O resultado é que o gás natural na Europa é três a cinco vezes mais caro do que nos Estados Unidos e a eletricidade é duas a três vezes mais cara do que nos EUA, de acordo com o relatório de competitividade elaborado em 2024 pelo ex-presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi.

E o ambiente, propriamente dito, ganhou alguma coisa com isso? Os resultados não são animadores. 

E a economia? O investimento internacional na Europa diminuiu e nove das dez maiores empresas de alta tecnologia do mundo são americanas, e a outra é de Taiwan. A receita fiscal dos Estados na UE representa cerca de 40% do PIB total, em comparação com 25% nos Estados Unidos.

Embora as ondas de calor tenham matado entre 35.000 e 50.000 pessoas na Europa em 2003 e 30.000 este ano, o uso de ar condicionado é ainda desencorajado, e até castigado, pelas autoridades de grande parte dos países europeus por ser considerado um grande consumidor de energia. As taxas de natalidade caíram a pique, as sociedades paralelas do Islão estão a proliferar e, no momento de maior desafio à civilização europeia desde a Segunda Guerra Mundial, os partidos e movimentos políticos que defendem esta civilização são desprezados pelas elites, que insistem na “culpa branca” que é fabricada nas academias e nas redacções ocidentais.

A Europa Central e Ocidental não corre o risco de ser invadida militarmente, ao contrário do que sugerem os seus líderes políticos, mas pode entrar em colapso total a partir de dentro. Milagres de renascimento ocorreram de tempos a tempos ao longo da história europeia. Outro milagre desse género é não só necessário como urgente. A Itália parece estar na linha da frente, transformando uma antiga aversão aos partidos políticos de direita em governos eficazes, embora as hesitações de Meloni entre o populismo e o globalismo sejam frequentes. Na Alemanha, no Reino Unido e em França, partidos de direita outrora considerados intocáveis lideram agora as sondagens, embora vitórias eleitorais não signifiquem necessariamente o acesso ao poder, como vimos recentemente acontecer nos Países Baixos, na Roménia e na Aústria.

Há, porém, que ter fé na hipótese de que os marginalizados de outrora possam eventualmente ser chamados a salvar as nacionalidades mais influentes do velho continente.

É isso ou a queda, definitiva.

Título, Imagens e Texto: Afonso Belisário, ContraCultura, 4-9-2026

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