Afonso Belisário
Parece ainda existir uma
profunda relutância em toda a Europa em aceitar e encarar o facto incontestável
de que o continente corre o risco daquilo que a Estratégia de Segurança
Nacional dos Estados Unidos, publicada em dezembro de 2025, descreve como
“erosão civilizacional”, uma palavra e um conceito assustadores na sua
gravidade. As duas áreas políticas geralmente destacadas quando existem
tentativas sérias de lidar com este assunto são a imigração e as consequências
da obsessão do velho continente com as alterações climáticas.
Tem-se revelado muito difícil
persuadir os dirigentes políticos europeus a compreender que o grande número de
refugiados do Médio Oriente e de África que invadiram a Europa não pode ser
considerado imigrante. Mesmo sem invocar a sua presença ilegal, assemelham-se
mais a multidões de pessoas desesperadas, sem sentido de nacionalidade, sem
ambição de assimilarem a cultura dominante dos locais de destino, e focadas em
alcançar uma vida mais próspera, conservar as suas próprias culturas e impô-las
aos seus novos anfitriões. Assemelham-se mais às massas que avançaram para
oeste na Baixa Idade Média em direção à Europa Ocidental, fugindo dos bárbaros
selvagens das estepes asiáticas e sem qualquer intenção de se unirem ao Império
Romano.
Mas os bárbaros trouxeram consigo religiões tão primitivas que rapidamente adoptaram o cristianismo, o que contribuiu muito para a sua estreita associação com os habitantes locais, que gradualmente evoluíram para as grandes nações da Europa. As atuais vagas migratórias são maioritariamente muçulmanas, ferozmente sectárias e demonstram uma propensão muito maior para proliferar num estado segregado e frequentemente antagónico do que para se assimilarem às sociedades de acolhimento.
Aparentemente, o número de
imigrantes ilegais que penetram na União Europeia está finalmente a ser
controlado, mas a tarefa de cultivar neles qualquer sentido genuíno de pertença
às suas novas nacionalidades tem-se revelado extraordinariamente difícil. A
Frontex, Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira, registou quase 178.000 travessias irregulares das
fronteiras da UE em 2025, uma queda de 26% em relação ao ano anterior e o menor
total anual desde 2021.
Se analisarmos as taxas de
natalidade dos europeus nativos, a cada dia mais deprimidas, e as taxas de
natalidade das populações migrantes, que refletem uma forma completamente
diferente de ver a vida e o papel da família, percebemos que a batalha contra a
substituição demográfica pode até já estar perdida, numa projeção a 20 ou 30
anos e mesmo considerando a premissa bastante discutível que as políticas de
imigração na Europa vão passar a ser mais restritivas a curto prazo.
Por outro lado, as
consequências da lamentável capitulação da Europa aos argumentos extremistas
dos acólitos do aquecimento global têm sido devastadoras para o crescimento
económico e tornaram o continente duplamente vulnerável à migração inesperada,
para além de desmoralizarem toda a Europa com o pesado fardo da estagnação
económica.
Há mais de 50 anos que a
Europa está constantemente atrasada em relação aos Estados Unidos e à China em
termos económicos. Em 1980, os nove países da Comunidade Económica Europeia
detinham 27% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, contra 25% dos Estados
Unidos. Hoje, estes mesmos nove países, mais a Alemanha de Leste, detêm 15,5%,
enquanto os Estados Unidos estão nos 26%. Todo o optimismo, embora manchado
pela arrogância algo decadente da Europa em relação ao resto do mundo, com que
foi lançado o grande projeto europeu, deu lugar a uma visão sombria do futuro
por parte das populações europeias nativas, apesar do discurso alienado das
suas elites.
Foi sobretudo na Europa que a
esquerda internacional, derrotada no final da Guerra Fria, embarcou na onda da
conservação ambiental, assumiu o controlo da mesma e transformou o assunto num
aríete contra o capitalismo em nome da salvação do planeta. Como resultado
desta loucura quixotesca, a indústria foi sufocada, a produção de gás e eletricidade
restringida e a loucura das energias renováveis foi
coercivamente adoptada. O resultado é que o gás natural na Europa é três a cinco vezes mais caro do que nos Estados Unidos e a eletricidade
é duas a três vezes mais cara do que nos EUA, de acordo com o relatório de
competitividade elaborado em 2024 pelo ex-presidente do Banco Central Europeu,
Mario Draghi.
E o ambiente, propriamente dito, ganhou alguma coisa com isso? Os resultados não são animadores.
E a economia? O investimento internacional na Europa diminuiu e nove das dez maiores empresas de alta tecnologia do mundo são americanas, e a outra é de Taiwan. A receita fiscal dos Estados na UE representa cerca de 40% do PIB total, em comparação com 25% nos Estados Unidos.
Embora as ondas de calor
tenham matado entre 35.000 e 50.000 pessoas na Europa em 2003 e 30.000 este ano, o uso de ar condicionado é ainda
desencorajado, e até castigado, pelas autoridades de grande parte dos
países europeus por ser considerado um grande consumidor de energia. As taxas
de natalidade caíram a pique, as sociedades paralelas do Islão estão a
proliferar e, no momento de maior desafio à civilização europeia desde a
Segunda Guerra Mundial, os partidos e movimentos políticos que defendem esta
civilização são desprezados pelas elites, que insistem na “culpa branca” que é
fabricada nas academias e nas redacções ocidentais.
A Europa Central e Ocidental
não corre o risco de ser invadida militarmente, ao contrário do que sugerem os
seus líderes políticos, mas pode entrar em colapso total a partir de dentro.
Milagres de renascimento ocorreram de tempos a tempos ao longo da história
europeia. Outro milagre desse género é não só necessário como urgente. A Itália
parece estar na linha da frente, transformando uma antiga aversão aos partidos
políticos de direita em governos eficazes, embora as hesitações de Meloni entre
o populismo e o globalismo sejam frequentes. Na Alemanha, no Reino Unido e em
França, partidos de direita outrora considerados intocáveis lideram agora as
sondagens, embora vitórias eleitorais não signifiquem necessariamente o acesso
ao poder, como vimos recentemente acontecer nos Países Baixos, na Roménia e
na Aústria.
Há, porém, que ter fé na
hipótese de que os marginalizados de outrora possam eventualmente ser chamados
a salvar as nacionalidades mais influentes do velho continente.
É isso ou a queda, definitiva.
Título, Imagens e Texto: Afonso
Belisário, ContraCultura,
4-9-2026


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