Cora Rónai
E aí o dono da loja vira para
a cliente e diz:
“Não trabalho mais com negro!”
O mundo desaba.
Oops — não foi isso.
“Não trabalho mais com bicha!”
As faixas da manifestação já
estão sendo pintadas.
Oops — também não foi isso.
“Não trabalho mais com
mulher!”
Mexeu com uma, mexeu com
todas.
Oops — não foi isso.
“Não trabalho mais com judeu!”
Ah. OK.
-- Desculpe, mas não vi
antissemitismo nenhum nesse caso -- escreve uma seguidora no Facebook. -- Eu,
por exemplo, não trabalho mais com americanos. Isso há mais de 20 anos. Evito
judeus e árabes por conta da barganha com o preço. E vou te dizer uma coisa,
judeu como cliente, é chato demais. Tá sempre achando pêlo em ovo para
conseguir desconto. Isso é cultural. E se encher com esse traço cultural e má
educação não é antissemitismo. Isso é ser humano. O educado de berço não
reclama, não desabona o produto. Se não está a contento, não compra e fim. Vai
procurar em outro lugar.
Este não foi um comentário
isolado. Escolhi, entre muitos, porque não veio de uma pessoa raivosa, porque
pode ser publicado e porque nem teve a pretensão de se disfarçar em indignação
com a guerra. É o velho preconceito de sempre, agora apresentado como experiência
pessoal, quase como dica de convivência.
O mais perturbador nem é que
alguém escreva isso; é que escreva com tanta tranquilidade, como quem diz algo
trivial.
O antissemitismo saiu do
bueiro, tomou um banho de ideologia, perfumou-se e voltou a circular como
opinião respeitável.
É difícil apagar uma ideia quando ela foi repetida durante dois mil anos pela máquina de propaganda mais poderosa que já existiu no planeta.
Para complicar ainda teve o
outro caso lá, o do bar da Lapa, que exibiu placa dizendo que cidadãos de
Israel e dos Estados Unidos não são bem-vindos. As águas estão tão turvas que
mesmo gente que deveria saber das coisas está confundindo as bolas: o bar não
foi antissemita, foi xenófobo; uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra
coisa. As duas são crime e são igualmente condenáveis moralmente, mas são
diferentes.
O antissemitismo é chique e é
modinha, mas pode afetar os negócios de quem tem vasta clientela judaica; nisso
é que dá ser ainda mais burro do que antissemita.
A xenofobia, no entanto,
sempre foi excelente negócio, em todas as partes do mundo, em todas as épocas.
O bar levou multa de R$ 9,5 mil, mas ganhou uma quantidade enorme de seguidores
no Instagram, muitos fãs e apoiadores e já está pedindo pix de olho em R$ 35
mil para, em tese, arcar com os custos jurídicos e um “ciclo de eventos” sobre
Oriente Médio e Imperialismo.
(Millôr: Desconfie de
idealistas que lucram com os seus ideais.)
O que me preocupa não são a
deli ou o bar, que têm CNPJ e que podem ser punidos; são os comentários das
redes sociais. Pessoas comuns, como eu ou você, reciclando clichês e
reproduzindo discursos medievais de ódio.
Estamos todos muito ocupados
discutindo o impacto da inteligência artificial enquanto regredimos para um
vocabulário de séculos atrás. O meteoro não vem do espaço nem da tecnologia;
ele vem desse esgoto moral que aprendemos a chamar de “opinião”.
O problema não é o que
aconteceu. É o que passou a ser aceitável.
(O
Globo, 9.4.2026)
Título, Imagem e Texto: Cora Rónai, Facebook,
9-4-2026, 22h29

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