terça-feira, 31 de março de 2026

[Aparecido rasga o verbo – Extra] Será que o 31 de março de 1964 saiu definitivamente de cena, ou essa doença maligna continua insepulta e ativa como o 8 de janeiro de 2023?

Aparecido Raimundo de Souza

DESDE A DITADURA (ditadura, entre aspas, a coisa está mais para “dentadura”) de 31 de março de 1964, onde supostamente ocorreu o golpe militar que depôs o presidente João Goulart e instaurou uma merda que segundo relatos durou até 1985. Meu caro leitor e amigo, você acredita nessa lorota? Não importa. A pergunta sustentáculo que não quer calar e nem se encaixar como chave no cu do buraco da fechadura é um só: o que, de fato, mudou nesses sessenta e poucos anos até nossos dias?  Segundo o que lemos nos jornais e em pesquisas que fizemos nas redes sociais, a historinha nos moldes da Branca de Neve e os Sete Anões, foi uma “ruptura institucional” apoiada por setores das Forças Armadas, empresários, parte da imprensa e grupos conservadores, com respaldo dos Estados Unidos. Será? Acaso nesse tempo já existia o câncer Donald Trump?

Entendo que essa historinha para uma matilha de bois, um enxame de vacas, uma biblioteca de bestas e éguas, e uma constelação de jumentos quadrados dormirem fede “malcheirosamente” ou vergonhosamente nos buracos dos narizes daqueles cidadãos que têm vergonha na cara. Ao meu fraco entender, (levando em conta o tenebroso e escabroso, horroroso e de certa forma pitoresco 8 de janeiro de 2023, entre outras avacalhações e aberrações tétricas e inóspitas, vindas à depois), tudo, TUDOOOOOOO... não passou de uma grande esparrela, ou uma bem construída tramoia falsificada, mentirosa e bem engendrada para fazer os “cus fedidos”, os otários e manés, de braços dados com os bocas abertas e atoleimados acreditarem que o brazzzil está nos trilhos, rumo a um amanhã melhor.

Entretanto, cá entre nós, todo esse sombrio tétrico, esse rumor e falatório postiço não vai além de um tremendo “zum-zum-zum” mentiroso, recalcado e falsificado, tipo um amontoado de pratos de comidas vencidos e azedos servidos aos manés e moradores de ruas. Mergulhando às cegas com os óculos sem lentes, no 31 de março de 1964, qual o cenário político que vem à tona?  A figura de João Goulart o (Jango) que defendia reformas de base, como o Emplastro Poroso Sabiá, a Reforma Agrária e a melhor piada de todas, a maior intervenção do Estado na economia, o que geraria resistência das elites conservadoras e militares. Havia forte tensão (ou a Polarização) entre os movimentos sociais (sindicatos, estudantes, ligas camponesas) e setores conservadores (os empresariados e, de lambuja, a Igreja e boa parte da imprensa).

O tal golpe (ou seria a influência externa) ocorreu em plena Guerra Fria, com apoio explícito dos EUA, que temiam uma guinada socialista no Brasil. Mas entre tapas e bordoadas, caralho, o que aconteceu em 31 de março? Um enorme e fantasioso “Movimento militar”. Tropas e Trapas, Tripas e Trepas de Minas Gerais marcharam em fila indiana, (ou seja, uns iam para um lado e outros para a puta que os pariu), não, por favor, me perdoem, seguiam em direção ao Rio de Janeiro, iniciando a ofensiva contra o governo. Nisso, veio à tona, a Banda Calypso, melhor dizendo, o Colapso político: João Goulart perdeu o apoio da esposa, do seu cachorrinho particular, do gatinho de estimação e pasmem, do Congresso e o “mais melhor” mandou para o ralo a aliança entre os governadores estratégicos, ou seja, aqueles da “panelinha” ficando isoladamente sujo e cagado de bosta.

Nesse infortúnio inesperado, cagado e isolado, veio a famosa e incorruptível “Deposição”: Em 1º de abril, o Frango, perdão, o Jango deixou Brasília e seguiu para Porto Alegre, mas não conseguiu organizar resistência. Menos ainda residência. Precisou dormir pernoitado naquele hotel onde residia o famoso poeta Mario Quintana. Pouco depois, de mala, mula e cuia, se exilou no Uruguai. Em alface disso, quais as consequências imediatas? Em primeiro, a instalação da dentadura, perdão, mais uma vez, a instalação da “Ditadura militar” (1964–1985). Aconteceu, por conta, uma enxurrada a parte. A suspensão de direitos políticos e civis, A cassação de mandatos e perseguições implacáveis a opositores. Censura (com surra) à imprensa, as artes e as universidades.

Não ficaram de fora as prisões arbitrárias, as torturas nos presídios, e arregalem os olhos, os desaparecimentos políticos. Nesse tom negro, a tal da “Repressão cultural” ficou em evidencia entre 1969 e 1975. Com a força da ditadura, houve fechamento de jornais e revistas, censura de peças teatrais e perseguições a uma porrada de intelectuais. Resumindo o quadro: 31 de março de 1964, as Tropas Militares iniciaram um movimento contra João Goulart. Em 01.04. 1964, João Goulart conversou com o pessoal do BBB e a galera da casa mais vigiada do país por ordem do Tadeu Schmidt foi deposto (e “degasolina”) no tanque de seu Fusquinha rosa choque com todas as suas tralhas, partiu para o exilio. De 1964 a 1965, a Dentadura, não, a ditadura militar por aqui foi marcada por tumultuada repressão e censura.

Em 1985, aconteceu uma tal de “Transição democrática” com eleição indireta de Temcredo Neves (retificando Tancredo Neves), sendo substituído por José Sem-Lei (droga, não é Sem-lei é Sarney. O 31 de março não foi apenas uma troca de governo, foi também o início de um puteiro a céu aberto. O 31 de março não se fundiu  apenas em uma troca de governo: foi o início de 21 anos de regime autoritário, um regime que deixou marcas profundas na política, na cultura e na sociedade brasileira. Muitos ainda debatem se o golpe foi inevitável (como a marmelada com queijo suíço do 8 de janeiro de 2023) ou se poderia, se houvesse um “Estado Democrático de Direito”, ter sido evitado com maior diálogo político. Voltando à fuzarca do 31 de março, o que restou do brasilllllllzinho fodido, falido e às moscas, dizem os especialistas, todo mundo acordou em espalhafatoso sobressalto.

Não era um dia comum, embora muitos tenham ido trabalhar, abrir seus comércios, levar os filhos à escola, os ladrões a regressarem alegres e saltitantes às ruas e avenidas e as putas da Barata Ribeiro número 200, em Copacabana, a fazerem programas na Praça 15. Nas emissoras de rádios, a notícia corria como o vento fora do cano, tipo o Coiote atrás do Papa-léguas. As tripas e as tropas marchavam, vomitavam discursos inflamados que ecoavam pelos quatro cantos e o presidente João Goulart, coitado, já não tinha chão firme sob os pés. Até as cuecas, as calças as camisas os sapatos e as meias lhe foram tirados pela galera do STF. As ruas, em algumas cidades, pareciam normais. Mas por trás das fachadas fechadas, havia medo. Um arrepio tétrico, mudo, silencioso ecoava.

Uns celebravam, acreditando que o país seria “salvo do comunismo”. Outros se calavam, pressentindo que o silêncio emergente seria a única forma de sobreviver. Na noite que caiu sobre o dia 31, não foi apenas a escuridão tenebrosa que se instalou. Veio o começo de um tempo sem tempo, um período brabo em que palavras eram vigiadas, músicas cortadas, jornais censurados. O brazzzzzzil entrou num túnel maior que o recém-inaugurado “Saint-Gotardo” na Suíça, onde vozes foram apagadas, corpos desapareceram, e sonhos dourados ficaram suspensos. Aqueles que nasceram depois não viram tanques nas ruas nem fogões, ou aspiradores de pó, menos ainda enceradeiras mas ouviram discursos militares ao vivo. A maioria, entretanto, herdou as marcas: histórias contadas em sussurros, lembranças de avós e pais, deram de fuça com cicatrizes que não aparecem na pele, mas se estropia na memória coletiva.

O 31 de março não é só uma data. É um aviso aos navegantes, mesmo aqueles que nunca entraram num barco. Ele, o 31, nos lembra que a democracia não existe, que o medo que anda à solta por aí incrustrado pelos ares, pode calar multidões, e que a liberdade, uma vez perdida, custa caro para ser reconquistada e o desgraçado pode acabar na Peituda – perdão – de novo, pela gafe, na PAPUDA.  Para ilustrar, vamos ver algumas músicas de autores famosos que foram “barradas” pela censura, e creio, muitos brasileiros nem sabem que essas obras primas fizeram parte da maldita repressão ou da admoestação do fatídico e vergonhoso 31 de março. Comecemos pela música “Cálice”, composta em 1973 por Chico Buarque e Gilberto Gil.

Essa melodia usou o trocadilho “cálice” e “cale-se” para denunciar a censura e os silenciamentos empurrados goela abaixo por aquela desgraça conhecida como ditadura militar. Embora não fale diretamente do 31 de março de 1964, ela se tornou um dos hinos mais fortes contra o regime, justamente por transformar o silêncio forçado em metáfora poética.  Seu ano de composição: repetindo, se deu em 1973, lembrando, para que fique bem sedimentado, em plena ditadura militar. Lançamento oficial: 1978, após anos de censura. Autores, como dito acima, Chico Buarque e Gilberto Gil (na gravação, Milton Nascimento substituindo Gil). O verdadeiro significado da letra está claro e cristalino no refrão: “Pai, afasta de mim esse cálice”. Essa frase remete à oração de Jesus no Getsêmani, pedindo para não beber o cálice do sofrimento.

O jogo de palavras transforma “Cálice” em “cale-se”, simbolizando a mudez taciturna da boca escancarada de dentes impostos pelo fatídico regime. A letra mistura imagens bíblicas com metáforas da repressão, como “mesmo calada a boca, resta o peito”. Embora não cite diretamente o golpe de 1964, “Cálice” foi, sem dúvida alguma, uma resposta ao clima de censura e repressão instaurado a partir daquele 31. O trocadilho “Cálice/cale-se” foi uma forma que os autores colocaram os dedos nas feridas dos censores ou mais especificamente, de deixar cristalizado dando o recado em outras palavras, como “fiquem de bocas fechadas, seus filhos da puta” que começou com o golpe e se intensificou nos anos seguintes.

Essa canção virou símbolo da resistência cultural, mostrando como artistas encontravam brechas para protestarem sem serem imediatamente colocados com uma mordaça na boca. Outras músicas vieram em reforço ao “Cálice”, como “Apesar de Você”, em que Chico Buarque cantava com muita propriedade: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. Não precisava dizer quem era o “você”. Todos sabiam. Mesmo tapa na fuça, Geraldo Vandré falava de flores e caminhada, mas o que ecoava, sem dúvida alguma, não outra coisa senão a luta: “Caminhando e cantando e seguindo a canção”. João Bosco e Aldir Blanc lembravam que a esperança ainda existia, mesmo entre lágrimas, com “O bêbado e a equilibrista”. De novo, mais uma vez, Chico Buarque, em “Meu caro amigo”, poetizada em forma de carta a um alguém sem rosto.

Deixava explícita, todavia, a vida no Brasil sob as asas da censura, sem mencionar diretamente o regime subversivo. “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso, em 1967, usou imagens cotidianas e fragmentadas para deixar seu grito de liberdade e pisoteando a contracultura, sem, obviamente, adentrar num confronto direto. Em rápidas pinceladas, vamos deixar para os mais idosos, como eu, como a censura se fez pesada, por exemplo, nas salas de aula. O professor não falava. Se fizera mudo. O quadro negro parecia mais pesado. Os livros vinham com páginas arrancadas, e os professores ministravam as suas aulas com cuidado, como se cada palavra pudesse ser julgada. Alguns ensinavam mais do que o permitido, em sussurros, quase como segredos.

A juventude presente, moleques e meninas da minha idade, aprendia não só matemática e português, mas também a arte de desconfiar do silêncio. Nas rádios, muitas canções desapareceram. Letras inteiras eram cortadas, versos proibidos. Mas a música encontrava caminhos: metáforas, duplos sentidos, melodias que escondiam protestos. Quem ouvia sabia decifrar. Era preciso ler nas entrelinhas, ouvir além das notas. A canção virava resistência. No tocante à política, nas praças, os discursos criaram pernas. Debandaram. As vozes que antes pediam reformas foram caladas, algumas para sempre. O Congresso de ladrões e malfeitores, se tornou palco de cassações, e muitos políticos se exilaram. O povo, sem escolha, aprendeu a viver entre decretos e atos institucionais, como se a democracia fosse apenas uma lembrança distante.

Aliás, ainda hoje, esse câncer incurável segue a todo vapor como um zero à esquerda. No cotidiano, no dia a dia, apesar de tudo, a vida seguia. Crianças brincavam nas ruas, casamentos aconteciam, o comércio abria as suas portas. Mas havia sempre uma sombra difusa, confusa, intrusa: o medo combalido e insalubre de falar demais, de ser ouvido por quem não devia. O cotidiano se apresentava normal apenas na superfície; por baixo, persistia de modo conturbado a cautela e o silêncio. Nessa chuva de anormalidades e escachelados, quem nasceu depois não viu tanques nem ouviu discursos militares ao vivo. Mas cá entre nós, herdou histórias contadas em voz baixa, lembranças de avós e pais, cicatrizes invisíveis. O 31 de março virou mais que uma data: virou um aviso.

Um lembrete de que a liberdade, quando perdida, custa caro para ser reconquistada. Nos palcos dos teatros, as cortinas se abriam para histórias que pareciam inocentes, mas escondiam críticas afiadas. O público aprendia a decifrar metáforas, a rir de personagens que representavam mais do que mostravam. O teatro ao vivo e a cores, virou trincheira: cada peça um ato de coragem, cada aplauso, um gesto de resistência. Os livros circulavam como mensagens cifradas. Alguns vinham com uma pica enorme escrita “proibidos”, outros escapavam em edições clandestinas. Escritores criavam mundos imaginários para falar do real, e leitores aprendiam a ler nas entrelinhas. A literatura se tornava refúgio e arma, guardando a memória que o regime tentava apagar. Em linha paralela, os jornais chegavam às bancas com espaços em branco, como se o silêncio fosse notícia. Reportagens vinham cortadas, manchetes reescritas. Mas jornalistas encontravam brechas: ironias, códigos, pequenas verdades escondidas em textos aparentemente neutros. A imprensa, mesmo sufocada, insistia em respirar. Às vezes conseguia, outras, o jornalista aparecia com a boca cheia de formigas. Nas universidades, nas praças, nas casas discretas, surgiam encontros clandestinos. Estudantes, artistas, trabalhadores — todos buscavam formas de dizer não. Panfletos rodavam em mimeógrafos, músicas circulavam em fitas, ideias viajavam de boca em boca. A resistência se via feita de coragem miúda, mas constante.

E quando a ditadura finalmente se despediu, o Brasil saiu do túnel escuro e quilométrico com marcas profundas. A democracia voltou, mas carregando cicatrizes. Cicatrizes que nunca se apagarão. O 31 de março de hoje é o mesmo de sessenta anos atrás, nada mudou, ou melhor se transformou para algo pior. Algo mais diabólico. Ficou como lembrança e aviso, mais que isso, deixou claro e conciso que a liberdade não é garantida, que o silêncio pode ser imposto, e que resistir é sempre necessário. Assim, cada fragmento compõe um quadro maior, como o 8 de janeiro, só para deixar bem claro; não apenas o golpe de 31 de março, mas a vida sob ele, e a força persistente e avassaladora de quem (apesar do golpe se fazer presente e irresistível a cada dia, tudo infelizmente, nunca se deixou apagar.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Pedro Canário, no Espírito Santo, 31-3-2026

Anteriores:
Um final inesperado 
Trinta coisas que nunca verei 
Assim são meus dias em formatos cada vez mais curtos 
Se ao menos aquele Policarpo fosse o Quaresma... 
O certo e correto seria um só: “neminem laedere”* 
O que está por trás do BBB, além da imbecilidade humana? 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-