Rafael Nogueira
Vivo, por sorte ou sina, entre
dois mundos que raramente se falam. De um lado, a universidade, os livros, os
colegas de debate, e os olavetes. Todos brigam entre si com uma ferocidade que
só vendo. Do outro, gente simples: o mecânico, o pescador, o comerciante, a
vizinha aposentada, o assessor de político, e o próprio político, em geral,
inteligentemente "simples". Cada campo tem certeza de que a política
é terreno seu. Os primeiros porque estudaram. Os segundos porque viveram. Quem
está com a razão? Os dois, em parte. E nenhum dos dois, inteiro.
Há duas maneiras igualmente
burras de arruinar a vida política de um país. A primeira é entregá-la a quem
acredita que a sociedade funciona como um problema de geometria moral. A
segunda, confiar que toda a sabedoria necessária já está pronta na mesa do bar,
entre um palpite sobre o câmbio, outro sobre o centroavante e um terceiro sobre
como resolver o Brasil em quinze minutos. A democracia decente, quando existe,
vive no intervalo entre esses dois ridículos.
O erro do intelectual é um
velho conhecido. Platão foi a Siracusa com a esperança de instruir o poder,
lapidando o governante, convertendo força em sabedoria. E deu errado. Assim
como deu errado para Heidegger, no século XX. É a tentação de Siracusa, defeito
segundo o qual a inteligência se apaixona tanto pela própria lógica, que
esquece que homens não são triângulos, que cidades não são diálogos.
A política morre quando
abstrações teóricas tentam governar sozinhas, sem consideração pelo contexto,
pelas limitações humanas e pelo povo real.
Mas convém não cair no erro
oposto.
O tiozão, aqui, não é
caricatura ofensiva, mas símbolo daquele homem que talvez jamais tenha lido
Burke, Aristóteles ou Thomas Reid, mas distingue, por instinto moral e
experiência herdada, a boa solução de uma maluquice. Percebe logo quando o
remédio custará mais do que a doença. Não redige artigos para revistas
indexadas, mas conhece a textura da vida como ela é. Sabe onde a burocracia
aperta, onde a violência sangra, onde o imposto humilha, onde a escola falha.
Há uma forma de razão encarnada nesse cidadão, a que podemos chamar de bom
senso. Desprezá-la é luxo de classes abastadas e tagarelas.
O problema começa quando
Platão despreza o tiozão e o tiozão despreza Platão.
O primeiro chama o segundo de ignorante. O segundo chama o primeiro de inútil. E ambos, nesse duelo de vaidades, deixam a cidade à mercê dos canalhas profissionais, esses sim verdadeiramente práticos, bons em saquear tanto com planilhas quanto com lábia. A democracia acaba em disputa entre soberba de gabinete e ressentimento de balcão.
É por isso que a prudência
continua sendo a mais subestimada das virtudes políticas. É a inteligência
prática, a capacidade de aplicar princípios universais a circunstâncias
concretas, com moderação, senso de limite e desconfiança das fórmulas
salvadoras.
Siracusa é uma vacina contra o
abstratismo. Recomenda um pessimismo preventivo diante de inovações arriscadas
e de messianismos gnósticos.
O país precisa do professor e
do caminhoneiro, do pesquisador e da dona de casa, do jurista e do pequeno
comerciante. Precisa da teoria e da experiência; da cabeça bem formada e do
instinto moral inocente.
Esquecer Platão é burrice, e
esquecer o tiozão, loucura. O caminho não está na tirania dos iluminados nem na
canonização do palpiteiro, mas em uma ordem política em que o acadêmico escute
bom senso, e vice-versa. Fora isso, ficamos entre Siracusa e o programa de
auditório.
Título e Texto: Rafael Nogueira, O Dia, 25-3-2026

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