quinta-feira, 19 de março de 2026

[Daqui e Dali] Em defesa da nossa cultura

Humberto Pinho da Silva

Passei a véspera de Natal em companhia de minha mulher, na residência de casal amigo, que gentilmente nos convidaram.

A consoada foi simples: o tradicional bacalhau com batatas, pencas e grelos. Tudo regado com generoso azeite trasmontano. Após a farta ceia, houve doces da época e apetitosas e douradinhas rabanadas.

Realizada a troca habitual de lembranças, sempre ansiosamente esperada pelas crianças, aconchegamo-nos ao redor da cálida lareira.

As achas, colocadas de fresco, estrelejavam e crepitavam; altas labaredas irradiavam tons dourados, com tonalidades que iam de vermelho a verde-pálido, lambendo os ressequidos toros de oliveira.

As crianças tagarelavam. em surdina, com bonecas que o "generoso" Menino Jesus lhes trouxera; e nós, os mais velhos, debatíamos acaloradamente "importantes” assuntos em voga.

Abordou-se, entre outros, os meios de comunicação e a influência que exercem na opinião; na escolha dos cidadãos. (Numerosos países proíbem sondagens políticas durante a campanha eleitoral. Entre eles a Espanha, cinco dias antes do dia de reflexão, e a Itália, duas semanas.

Erradamente, julgamos que pensamos, mas não pensamos, somos simples bonifrates. E nem nos lembramos da influência que os meios de comunicação exercem na nossa mente.

Estávamos a prosear animadamente quando me apercebi de vozes infantis em murmúrio. Dois petizes, que frequentavam o quarto ano, engalfinharam-se:

- Salazar era mau!... refutou o amigo, empertigado.

- Não era Salazar!... Era a polícia!...

- A "fessora" disse-nos que" fazia" guerra” nas colônias....

- Colónias?! Não, províncias ultramarinas!...

Os ânimos acalmaram-se, derivando para temas apropriados para a idade. Temas que não deviam entrar na escola. Assuntos, que são apenas da família, pais e avós. Estarei em erro?

A sociedade mudou – sempre muda –, apareceram no nosso país novas culturas e novos modos de viver, que devem ser respeitados.

Já o nosso Camões dizia:

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. A globalização, a entrada de imigrantes, com diferentes culturas e crenças, deve ser respeitada; e igualmente rever mentalidades, conceitos e preconceitos, se queremos concórdia e paz.

Contudo não devemos abdicar das nossas tradições, costumes, crença e raízes, que herdamos dos nossos maiores, e devemos transmiti-las a futuras gerações.

Isso não é nacionalismo, é o desejo de continuarmos a ser portugueses.

Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, março de 2026 


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