terça-feira, 31 de março de 2026

A mentalidade totalitária vai criando raízes na sociedade brasileira

Leandro Ruschel 

Na União Soviética e na Alemanha Oriental, por exemplo, a delação contra opositores do regime era incentivada pelo Estado como dever cívico. Vizinhos denunciavam vizinhos, colegas denunciavam colegas — e os delatores sentiam ORGULHO por contribuir com a "justiça revolucionária". 

Perceba que o sujeito em questão, um perfil no X, não apenas sente orgulho da sua denúncia ter gerado efeito — ele se vangloria publicamente de que Moraes usou exatamente o print do seu post como base para o despacho. Segundo a Gazeta do Povo, o despacho de Moraes sequer cita a postagem original de Eduardo Bolsonaro — cita a captura de tela desse internauta, que dizia: "esse vídeo precisa chegar ao ministro". 

Ou seja, um ministro do Supremo está oficialmente utilizando denúncias de militantes nas redes sociais como gatilho para ações judiciais contra um ex-presidente da República. Mesmo para o padrão persecutório dos últimos anos, é impressionante. 

E a denúncia em si é ridícula. Eduardo Bolsonaro gravou um vídeo durante a CPAC, no Texas, onde disse ao público presente: "Vocês sabem por que eu estou fazendo esse vídeo? Porque eu estou mostrando para o meu pai e eu vou provar para todo mundo no Brasil que você não pode calar um movimento de forma injusta, tirando o seu líder." Trata-se de uma fala retórica, dirigida a uma plateia, em um evento público. Eduardo sequer disse QUANDO o pai veria as imagens. 

O próprio Eduardo respondeu às críticas classificando o episódio como uma "grande controvérsia" e perguntou: "Gravei minha entrada no CPAC e disse que meu pai veria as imagens. Eis o 'crime'." 

Na prática, o raciocínio de Moraes parece ser o seguinte: se a esposa ou um dos filhos de Bolsonaro assistir a um vídeo público na internet e depois comentar o conteúdo com o ex-presidente dentro da própria casa, ou ainda mostrar para ele,  isso configura "descumprimento de medidas cautelares" e pode resultar na revogação da prisão domiciliar — concedida por razões humanitárias, após internação por broncopneumonia. 

O preso não pode receber informações sobre o mundo exterior. Não pode saber o que acontece com o próprio movimento político. Está proibido de usar celular, redes sociais, gravar vídeos ou áudios, tudo isso inclusive por intermédio de terceiros. Até os filhos que o visitam têm horários controlados e são obrigados a entregar seus aparelhos eletrônicos aos agentes policiais na residência. 

Isso não é justiça. Isso é isolamento punitivo travestido de medida cautelar. 

Até onde vai esse estado de exceção no Brasil? Tudo nesse processo é VIL — da condenação à execução da pena, do tratamento dispensado ao preso às condições impostas à família, além do uso de delatores voluntários nas redes sociais como instrumento do aparato persecutório do Estado.

Título, Imagem e Texto: Leandro Ruschel, X, 20h23 

Um comentário:

  1. Eduardo disse: "Vocês sabem por que eu estou fazendo esse vídeo? Porque eu estou mostrando para o meu pai e eu vou provar para todo mundo no Brasil que você não pode calar um movimento de forma injusta..."
    O STF agora decidiu criminalizar a metáfora. Eduardo diz que 'está mostrando' algo ao pai num vídeo gravado e o Xandão entende como Live clandestina. É o fim da interpretação de texto no Brasil: ou o Ministro é incapaz de entender uma figura de linguagem básica, ou a semântica virou apenas mais uma ferramenta de perseguição política.
    O crime agora é a gramática. É de lascar!

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