Felipe Vieira
Os editoriais publicados neste sábado por Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo não deixam margem para dúvida: há uma crise aberta de credibilidade no Supremo Tribunal Federal. E, mais do que isso, há um movimento claro da grande imprensa de romper o silêncio e tratar o problema como estrutural — não mais episódico.
A Folha é mais direta, quase
indignada. Em editorial recente, o jornal classificou a atuação de Gilmar
Mendes como “um escárnio”, ao analisar decisões que beneficiaram o colega Dias
Toffoli no contexto do caso Banco Master.
O texto vai além do caso
concreto. Ao afirmar que “tudo se passou como se houvesse uma jogada
combinada”, a Folha abandona qualquer cautela retórica e sugere algo ainda mais
grave: a percepção de um comportamento corporativo dentro da Corte.
Já o Estadão segue outra linha
— menos explosiva na forma, mas talvez mais profunda no diagnóstico.
Ao falar em “dimensão do
descrédito do Supremo”, o jornal aponta que o problema já ultrapassou decisões
específicas e passou a atingir a confiança institucional. O editorial destaca
que há um “declínio consistente da confiança social no STF”, resultado de
decisões que enfraquecem os mecanismos de controle e ampliam a percepção de
blindagem interna.
Enquanto a Folha denuncia, o
Estadão estrutura.
Enquanto a Folha acusa movimentos concretos de proteção entre ministros, o Estadão enquadra o fenômeno como uma erosão institucional mais ampla, com impacto direto na democracia.
Mas há um ponto de
convergência evidente — e talvez o mais importante.
Ambos os jornais apontam para
a mesma direção: o Supremo passou a ser percebido como um poder que opera sem
limites claros.
Esse diagnóstico já havia sido
explicitado pela própria Folha em outro editorial recente, ao afirmar que a
Corte caminha para se tornar “imune a controle, responsabilização e limites”.
É aqui que o debate deixa de
ser jurídico e passa a ser político.
O que está em jogo não é
apenas a legalidade de decisões específicas, mas a legitimidade do próprio
tribunal. A crítica que emerge dos dois jornais não é contra o STF como
instituição — mas contra a forma como seus integrantes vêm exercendo o poder.
E isso muda tudo.
Porque quando dois dos
principais jornais do país, com linhas editoriais distintas, convergem nesse
diagnóstico, o sinal que se produz é claro: a crise deixou de ser de bastidor e
passou a ser pública, visível e incontornável.
Há, no fundo, uma mudança de
tom.
Durante anos, parte da
imprensa tratou o Supremo como um poder de contenção necessário diante das
crises políticas. Agora, começa a tratá-lo também como parte do problema.
A Folha faz isso pela via da
denúncia direta. O Estadão, pela via da análise institucional.
Mas ambos chegam ao mesmo
ponto: a percepção de que o STF precisa reencontrar limites.
Sem isso, o risco não é apenas
de desgaste.
É de perda de autoridade.
E autoridade, no caso de uma
Suprema Corte, não se sustenta na caneta.
Se sustenta na confiança.
Título, Imagem e Texto: Jornalista Felipe Vieira, Facebook, 21-3-2026, 5h39

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