quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

[Daqui e Dali] Nova corte na aldeia

Humberto Pinho da Silva

Quando era rapazote, ia com os meus pais veranear a pequena povoação do Vale da Vilariça.

Depois da janta, familiares e amigos abancavam-se na escaleira de velho e delapidado solar, cujas salas serviam de arrecadação a alfaias agrícolas, e as portas desvidraçadas abriam-se a largas varandas, que permitiam entrada a andorinhas em voos certeiros para os ninhos.

Nessa nova "Corte na Aldeia" havia letrados e “analfabetos”, que aprenderam a ler e escrever à custa de dolorosas reguadas.

Obtido o diploma, deram ”às de Vila Diogo”, abandonando a escola e os livros.

Nessa época não havia TV; e o único aparelho de TSF, movido a bateria, pertencia a lavrador abastado, que era colocado em dia de festa à janela, para quem quisesse bailar ao som da música da Emissora Nacional.

Como disse, à noitinha, pela fresca, depois de uma tarde cálida, acomodávamos nas escadas do velho casarão brasonado.

Conversava-se, contávamos tradicionais historietas, e advinhas... até que aproveitando pausa de silêncio, saltou de súbito a pergunta:

- Qual é o ato mais importante da vida?

Ouve-se murmúrios, e uma voz se ergueu: É o casamento!...

Risinhos... e prosseguiu:

Quem pode e sabe realizar matrimónio por amor, com companheira que o ajude nos abrolhos da vida, acha um tesouro. Não é verdade que por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher… que o acompanha, quase sempre, na sombra?

Sacerdote, presente no serão, ergueu-se, discordando:

- Isso é uma verdade de La Palice... Mas Jesus não pensa assim. O que deseja é que leiam o Evangelho e O cumpram.

Então recordou, rapidamente, a curiosa passagem evangélica que fala de Marta e Maria. Esta, vendo Marta aninhada ao pé de Jesus, escutando-O, pede a Jesus: "Diz a Marta que me venha ajudar...”

Responde-lhe Jesus: "Marta, Marta, inquietas-te com muitas coisas; mas uma só é necessária! Maria escolheu a melhor” – Lc.10:42.

Rematando: o ato mais importante da vida é, portanto, amar a Deus, e cuidar da Salvação.  É o Caminho, que nos deve preocupar. O único para que nascemos. O resto é vaidade, orgulho, conhecimento… tudo é efémero, já que tudo acaba, após a morte...

Levantou-se profundo silêncio. Como já fora tarde, cada qual se recolheu a casa dando as habituais boas-noites; e, sonolentos todos diziam:

Vá com Deus, bom descanso... Deus o guarde…

Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, fevereiro de 2026

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