Francisco Henriques da Silva
Há uma ironia difícil de ignorar no atual debate político português: os mesmos que construíram o sistema discursivo dominante parecem agora escandalizados por estarem a ser confrontados com os seus próprios métodos. Durante décadas, recorreram à demagogia, ao populismo suave e à retórica moralizante como instrumentos centrais de poder. Hoje, apontam o dedo a André Ventura como se ele fosse uma anomalia do sistema, quando, na verdade, é um produto direto dele.
Ventura não inventou nada de essencialmente novo. Limitou-se a aplicar, com maior crueza e menos pudor, uma fórmula que já tinha provado ser eficaz. A diferença não está na técnica, mas no tom e no destinatário. O mecanismo é o mesmo: simplificação extrema, apelo emocional, identificação de culpados difusos e uso instrumental da indignação popular.
Durante anos, o espaço público foi ocupado por buzzwords cuidadosamente escolhidas para soar bem e desarmar o contraditório. “Valores de Abril”, “Estado Social”, “coesão social”, “respeito pela Constituição” transformaram-se em mantras. Não enquanto princípios operacionais, sujeitos a avaliação e escrutínio, mas como palavras mágicas destinadas a conferir superioridade moral a quem as invocava. Serviam para tranquilizar a classe média, para criar uma sensação de pertença ao “lado certo da História” e, sobretudo, para evitar debates incómodos sobre resultados concretos.
Na prática, essas expressões funcionaram como bloqueios à discussão séria. Questionar a eficácia de políticas públicas, a sustentabilidade de certos modelos ou a distância entre promessas e execução era rapidamente rotulado como insensibilidade social, radicalismo ou desvio ideológico. Em vez de uma cultura de implementação, criou-se uma cultura de intenções. Falou-se muito do que se queria fazer, quase nada de como fazê-lo — e menos ainda do que fazer quando falhava.
Ora, gerir serviços públicos de qualidade é uma tarefa extremamente complexa. Exige competência técnica, disciplina organizacional, avaliação contínua e capacidade de dizer “não”. Em muitos casos, é mais difícil do que gerir empresas privadas, precisamente porque envolve múltiplos interesses, constrangimentos políticos e resistências institucionais. Os exemplos de sistemas públicos que funcionam de forma eficiente e consistente são raros, mesmo em democracias avançadas. Reconhecer esta realidade não é cinismo; é honestidade intelectual.
O que se fez, pelo contrário, foi prometer sistematicamente aquilo que não se tinha capacidade de cumprir. Alimentou-se a ideia de que bastava vontade política e virtude moral para resolver problemas estruturais. Quando os resultados não apareciam, a culpa era sempre de fatores externos, nunca do modelo nem das escolhas feitas.
Há ainda uma contradição central que merece ser sublinhada. Durante anos, exaltou-se o “povo soberano” como entidade suprema, cuja vontade não podia ser contrariada sem violar os princípios democráticos. Esse mesmo povo foi, porém, cuidadosamente moldado e conduzido por uma elite política e mediática que dominava a linguagem, os símbolos e as palavras de ordem. Enquanto essa elite controlava o discurso, tudo parecia aceitável. Quando surge alguém que fala ao povo de forma mais direta, menos polida e com os mesmos mecanismos de simplificação, instala-se o pânico moral.
A pergunta é inevitável: por que razão se indignam agora? Que legitimidade têm para denunciar uma estratégia que utilizaram durante décadas, apenas com um verniz mais sofisticado?
O fenómeno Ventura não é uma
rutura. É um espelho. E aquilo que ele reflete é o esgotamento de um sistema
político que confundiu retórica com governação, intenções com resultados e
superioridade moral com competência. Quem passou anos a semear demagogia não
deveria surpreender-se ao vê-la regressar — desta vez, sem filtros e sem pedido
de licença.
Título, Imagem e Texto: Francisco Henriques da Silva, licenciado em História, diplomata e autor. Foi Diretor-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria, ContraCultura, 11-2-2026

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