terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] O “Eu, sem mim” e o “Mim, sem eu...”

Aparecido Raimundo de Souza

ADELAIDE CARRARO em seu livro “O ESTUDANTE” inicia seu romance assim: "O Eu, sem mim, é um paradoxo existencial, uma tentativa de imaginar a vida sem a presença daquilo que me constitui.” O enredo conta a história de Renato e da sua família pela perspectiva de seu irmão Roberto, dois anos mais jovem.

A narrativa é dividida em duas partes: a banda azul (onde Renato não havia adentrado ainda no abismo das drogas) e a banda dois, ou a negra bem negra, bem escura, aquela totalmente sem luz. Essa explanação joga na cara, sem dó nem piedade, uma caminhada exaustiva, fria, quase sem volta.

Alardeia todas as desgraças como um castigo enumerando as "esfregas" impostas pela dura realidade que o vício maldito pode levar uma pessoa jovem e sem experiência a um abismo que muitas vezes a pessoa não consegue sair. Entrar, é a coisa mais fácil, como roubar balas de criança indefesa. Sair é que são elas.  

“O Estudante”, é para mim, como a experiência de olhar para o espelho e não encontrar o meu reflexo, ou como ouvir uma música sem melodia, sem um acompanhamento adequado, ou visto por outra ótica: varrer uma casa com uma vassoura voadora.

No pior dos mundos, comer a bucetinha da minha vizinha (bucetinha carinhosamente conhecida como xoxota), sem deixar rastros de esperma no lençol branquinho da minha cama barulhenta.

E eu, Aparecido, setenta e dois anos nas costas, aos 19 de março fecharei 73. Em vista desse evento, acrescentaria o seguinte: O meu “eu, sem mim”, no final de tudo, apesar da enorme chuva de farra que eu viesse a fazer, restaria apenas o vazio, ou seja, sobraria um espaço minúsculo onde as palavras não encontrariam eco e os meus pensamentos mais turbulentos não teriam sentido nem origem.

Em paralelo, o meu mundo de merda seguiria, indiferente, mas eu, apesar dessa frialdade letárgica atrelada a indiferença, seria sem tirar nem pôr, uma ausência. Uma disjunção fragmentada, uma angústia camuflada cheia de sombras difusas, tipo essas mazelas que não se projetam, ou pior, “mais-mau-mal”, que se fecham trancafiadas num silêncio pétreo que não dá margens à escoamentos.

Ao pensar no "eu, sem mim", percebo que minha identidade não é apenas feita de ossos e memória, mas também de tudo aquilo que me atravessa: os afetos, os encontros, os sonhos e até os fracassos. Sem “mim”, não haveria narrativa, não haveria história.

Não haveria, porra nenhuma. Eu seria um Renato qualquer desatrelado de um “Estudante” visto por uma desconhecida, e jamais pela ótica criativa de uma vinhedense Adelaide, todavia, sem a suntuosidade fascinante do Carraro.

Mas talvez o "eu, sem mim", lado outro, seja também um convite: convite? Convite a quê? Ao desapego do meu ego. Ao me desvencilhar dele, tenho em conta que nessa hora eu me desapartaria, ou me veria longe do meu mundinho hipócrita e me faria parte ativa de algo muito maior. Ou sei lá, pior.

Nesse sentido, não vejo a coisa como perda. Seria, em contrário, a expansão. Como se eu deixasse de ser o centro para ser o fluxo. Deixaria de ser nome para ser movimento. Deixaria também de ser uma besta quadrada para ser um elefante furioso procurando pela própria tromba perdida na hora da transa, dentro do cu do rabo de uma elefoa, ou de uma majestosa e saborosa aliá*. 

No fim, "eu, sem mim" a coisa séria “seria”, tanto ausência, quanto possibilidade. Tipo assim, o risco de não existir e a chance de viver de outra forma, menos preso ao que sou, ou mais aberto ao que posso ser amanhã. Nessa confusão, pensar em "eu, sem mim" se igualaria a como confrontar o limite da identidade com outra identidade.

O "eu", é aquilo que se reconhece, que se afirma. Ou que se nomeia por conta própria. O "mim", é o corpo, a memória, o conjunto de experiências que sustentam essa afirmação. Separar os dois, entendo, seria como tentar dividir ou separar, a porca da ruela, o defunto do cadáver, o fogo da chama: impossível sem extinguir o próprio fenômeno.

Sem “mim”, o meu “eu”, seria apenas conceito, abstração pura, sem carne de primeira, (ainda que uma boa picanha vinda de um dos bois do Mula), alguma coisa concreta que verdadeiramente suportasse o tédio. Seria uma ideia suspensa, sem história, sem narrativa.

O mundo poderia continuar lá fora, mas não haveria consciência que o testemunhasse. O "eu, sem mim" é, portanto, a ausência radical, o vazio de uma subjetividade que não encontra lugar. Nem aqui, nem na puta que me pariu.

Mas olhando pelo lado ainda não machucado, percebo que há também uma outra leitura: "eu, sem mim" no pensar de Veríssimo, a coisa descamba como libertação. “O mim, é o peso das lembranças, das expectativas, das máscaras sociais”.

Eu acrescentaria o seguinte: o “eu, sem mim” e o “mim, sem eu|”, suportaria o acúmulo de tudo o que me prende ao passado e ao olhar dos outros. Resumindo essa crônica sem sentido, o “ser, sem mim” seria um ser autônomo, sem amarras. Se veria dissolvido do fluxo da existência, se agigantaria sem fronteiras rígidas entre sujeito e mundo.

Em sentido paralelo, o “eu, sem mim” não seria apenas bagaço de perda, mas igualmente fortificação de possibilidade. Mesmo tapa no focinho, a minha chance de existir como pura presença, sem a necessidade de identidade fixa. Seria, ainda, o convite a pensar o “ser” em “ser” para fluir além do ego, como parte objetiva de uma totalidade maior.

Entre mortos e feridos, cadáveres em decomposição, o paradoxo se revelaria: "eu, sem mim” tanto poderia ser a impossibilidade de existir quanto a abertura para uma forma de existência mais ampla.

Uma porta aberta, escancarada para o limite entre o nada e o todo, ou entre o todo e o tudo, bem ainda, a ausência morta e a plenitude magnânima de vida em abundância, se revigorado altaneira em sua melhor forma de expressão.

Explicação necessária*: Aliá, é a fêmea do elefante. Aliás, uma palavra que vem do cingalês. Também é aceito na língua portuguesa, Elefanta ou Elefoa.   

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital, 3-2-2026

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