domingo, 1 de fevereiro de 2026

A imprensa e o mundo real

Luís Ernesto Lacombe

Não me canso de falar sobre isso... Se a imprensa não tivesse deixado de ser imprensa, o Brasil não teria chegado à situação atual. Imaginem como teria sido se, quando ministros do STF passaram a atuar politicamente, criminosamente, os jornalistas tivessem reagido... O que seria natural em outros tempos? A denúncia sobre a prática de abusos, arbítrios e ilegalidades por magistrados do Supremo, uma série incansável de reportagens, editoriais, artigos, notas, para cobrar o respeito às leis, principalmente à Constituição. O problema é que o STF e a imprensa velhaca tinham inimigos em comum e, desconsiderando o bem do Brasil, fecharam o alinhamento.

Foto: Imagem criada utilizando Dall-E/Gazeta do Povo

A imprensa não apenas não apontou tudo de errado, mas passou a apoiar todas as práticas criminosas dos magistrados, como se fossem sempre “medidas em defesa da democracia”. O ilegal Inquérito do Fim do Mundo, censório, persecutório, foi tratado como essencial para “salvar o país”... A imprensa viu nele a oportunidade de combater Jair Bolsonaro, seus aliados e apoiadores e também a imprensa independente. Os veículos tradicionais não podiam gostar de um presidente que gastava muito pouco em publicidade e não conseguiam aceitar a perda do monopólio da informação para um mundo de perfis dos mais variados que surgiram nas redes sociais. Os antigos “donos da verdade” resolveram botar tudo a perder.

No caso do Banco Master, alguma coisa mudou. A pergunta que faço é: alguém acredita mesmo que uma imprensa que sempre defendeu ilegalidades praticadas pela mais alta Corte, de uma hora para outra, numa “decisão de redação”, resolveu voltar ao jornalismo de verdade? Foi assim, do nada? Os jornalistas tropeçaram, caíram, bateram a cabeça, ganharam autonomia, e tudo mudou? Foi um passe de mágica? Claro que não. Se a conivência com os desmandos de ministros do STF foi criminosa, quem decidiu dar um basta nessa aliança e tentar um caminho correto? Repito: fato é que o Brasil não estaria mergulhado em desgraça, se os jornalistas de grandes veículos não tivessem abandonado, ainda lá em 2019, todos os princípios mais básicos de sua profissão.

Jornalista que é jornalista não pode viver desgarrado do mundo real

Os crimes dessa imprensa fedida não serão esquecidos, mas tomara que ela encontre o verdadeiro arrependimento e o curso correto, a partir de agora. Não, claro, movida, mais uma vez, por interesses escusos. Que a imprensa continue mostrando a matéria podre envolvendo o fraudulento Banco Master e políticos e ministros do STF porque esse é o seu dever, seu compromisso com a busca da verdade, com o equilíbrio, a transparência, a honestidade. Por enquanto, depois de um período tão obscuro, as manchetes são quase o anúncio da condenação do sistema, e vão carregando Lula, Guido Mantega, a cúpula do PT na Bahia, Michel Temer, Ricardo Lewandowski, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Edson Fachin...

Vamos na ordem cronológica. Em 2023, o escritório de advocacia da família de Ricardo Lewandowski assinou contrato com o Banco Master. Quando ele foi convidado por Lula para assumir a pasta da Justiça, teria informado o petista sobre contratos privados que mantinha e avisado que se livraria de todos, o que não fez. O Master continuou pagando ao escritório de Lewandowski R$ 250 mil mensais, e isso foi feito por 21 meses depois que o ex-ministro do STF assumiu o Ministério. Considerando apenas esse período, foram pagos ao escritório mais de R$ 5 milhões. Quem indicou Lewandowski para o Banco Master foi o senador Jaques Wagner... A relação da instituição de Daniel Vorcaro com os petistas da Bahia é amplamente conhecida...

Em 16 de janeiro de 2024, o Banco Master assinou o contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da família de Alexandre Moraes. Em seis de novembro do mesmo ano, o ministro do Supremo foi à mansão de Daniel Vorcaro em Brasília. Já no primeiro semestre de 2025, num fim de semana, Moraes esteve novamente na casa do banqueiro na capital federal. Dessa vez, ele se encontrou com o então presidente do BRB. Paulo Henrique Costa foi apresentado ao magistrado num ambiente reservado da mansão, e os dois conversaram sobre a negociação para a compra do Master pelo BRB. Moraes também teve reuniões com o presidente do Banco Central e a direção da Polícia Federal, e é acusado de ter atuado nesses encontros em favor do Master.

Título e Texto: Luís Ernesto Lacombe, Gazeta do Povo, 1-2-2026, 8h

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