Aparecido Raimundo de Souza
Nos “carnavais
fracassados”, segundo Paulo Roberto Barros Braga, “as máscaras não escondem,
apenas denunciam. O sorriso pintado escorre com a chuva, o brilho se apaga
antes da meia-noite, e a fantasia pesa como fardo”. O batuque da bateria soa
distante, como se o coração da festa tivesse perdido o compasso.
No dizer de Joaozinho
Trinta, “São carnavais em que a multidão dança sem acreditar na própria
coreografia, em que os confetes se confundem com poeira, e os foliões se tornam
espectadores de uma alegria que não chega”. As máscaras, outrora cúmplices da
ilusão, se tornaram espelhos daquilo que não se quis ver: a solidão no meio da
multidão, o vazio pesado por trás da euforia.
No entanto, apesar
disso, há uma beleza melancólica nesses carnavais falhados. O saudoso Luiz
Fernando Veríssimo em um brilhante texto publicado no Jornal Zero Hora, assim
se expressou: “Porque mesmo quando a festa não acontece, a máscara insiste em
existir. Em ser. Ela guarda a memória de um desejo, de uma tentativa, de uma
coragem de se reinventar ainda que por instantes. E cá entre nós, consegue”.
Pois bem! Talvez seja
isso que nos move: a certeza de que, mesmo nos “carnavais fracassados”, há
sempre uma máscara esperando para ser usada de novo, como quem acredita que a
próxima dança, o próximo canto, o próximo riso, finalmente vingará.
Nos jornais do Rio de
Janeiro e São Paulo, se costuma falar dos “carnavais como símbolos de alegria
coletiva, da explosão cultural que atravessa ruas e avenidas. Mas há também os
“carnavais que não vingaram”. Aqueles
que por falta de público, de recursos ou de espírito, se tornaram apenas
promessas não cumpridas”.
As máscaras desses “carnavais fracassados” não esconderam as euforias, mas revelaram os desencantos e as tristezas. Eram rostos pintados que caminharam em desfiles esvaziados, fantasias que brilharam sob luzes apagadas, sambas que ecoaram em arquibancadas quase silenciosas. O que deveria ser catarse virou registro melancólico: a festa do povo que não aconteceu.
Do ponto de vista
geral, esses episódios revelaram a fragilidade da tradição quando não há
sustentação social ou econômica. O carnaval, afinal, é mais do que música e
dança: é a infraestrutura, é o investimento, é a mobilização comunitária. Sem
isso, as máscaras viram símbolos mortos de uma resistência falecida, mas também
se queda inerte no mais puro dos abandonos.
E, no entanto, há uma
dimensão reflexiva que merece ser destacada. Os “carnavais fracassados” não
foram de todo enterrados, eles ainda hoje, “expõem a distância entre o desejo e
a realidade. Entre a realidade e o desejo. Eles nos lembram que a festa não é
apenas espetáculo, mas também e sobretudo, um pacto coletivo”. Por ser assim, e
dessa forma, quando essa coesão se rompe e esse pacto se eclode, restam as
máscaras como testemunhas não da alegria, mas da tentativa.
Talvez seja justamente
nessa profligação fracassada que se encontre uma verdade nojenta e incômoda: o
carnaval não é garantido, é uma conquista. E cada máscara guardada em gavetas
ou esquecida em depósitos carrega dentro de si a memória fortificada de um
esforço que não se cumpriu, mas que insiste em permanecer de maneira abrupta
como lembrança de que, mesmo na derrota, ou mesmo no debacle, mesmo no
infortúnio não esperado, houve uma vontade férrea e promissora, uma aspiração
quase sobre-humana de vivenciar uma celebração enfarruscada e literalmente
fermentada.
Quando pensamos em
carnaval, obviamente a imagem que vem à mente é a da multidão vibrante,
antenada, estridente e das escolas de samba disputando cada nota, dos blocos
arrastando foliões pelas ruas, praças e avenidas. Mas a história brasileira
também guarda episódios de carnavais que não vingaram, ou seja, de festas
interrompidas, de desfiles esvaziados, de celebrações que se perderam entre
crises políticas, econômicas ou sanitárias.
Um exemplo marcante,
apenas para relembrar, sem dúvida alguma o Carnaval de 1919 no Rio de Janeiro,
que deveria ser o primeiro após a devastadora gripe espanhola. A cidade
inteira, conforme escreveu Nelson Rodrigues, “ainda estava de luto, e muitos
blocos não desfilaram. O que se viu foi uma festa fria, tímida, pacata e vazia,
marcada mais pela tentativa de retomar à vida ao normal do que pela explosão
vivificante da alegria”.
Outro caso foi o
trazido à baila por Manuel Bastos Tigre (O Pierrot), num texto onde ficou claro
que o” Carnaval de 1940 em São Paulo, quando a Segunda Guerra Mundial trouxe
restrições severas”. Alguém se lembra? Duvido! O brasileiro tem memória curta.
“Houve corte de recursos, censura e até proibição de músicas consideradas
“subversivas”. As máscaras, nesse contexto, não escondiam a alegria, mas
refletiam a repulsa, a tensão, a ansiedade e o medo mórbido de um país em
guerra”.
Mais recentemente, o
Carnaval de 2021 descrito por Yaggo Arruda “entrou para a história como o
carnaval que não aconteceu”. A pandemia de Covid-19 suspendeu desfiles, retirou
das principais ruas e bairros, os blocos não só no Rio de Janeiro, mas em todo o
Brasil. As máscaras, ironicamente, deixaram de ser adereços prazenteiros e
espigaitados, festivos e jubilosos para se tornaram equipamentos de proteção. O
vazio colossal no dizer da “Socialista Morena” em seu Blog deixou claro que
“das avenidas e a ausência descomedida das baterias mostraram que, sem pacto
coletivo, não há carnaval possível”.
Esses episódios
embaraçados e abrolhosos acima descritos, revelam que o fracasso carnavalesco
não é apenas ausência de festa, mas sintomas de tempos conturbados e difíceis.
As máscaras guardadas em gavetas e armários, ou usadas em meio ao silêncio de
portas fechadas e impedidas de se tornaram testemunhas calaram a voz das crises
que atravessaram e atravancaram a sociedade. Ver textos de Carlos Heitor Cony e
Ruy Castro, entre outros.
Talvez, cá entre nós,
seja justamente aí que reside a força da tradição: mesmo nos “carnavais
fracassados”, a memória da festa persiste, insiste, não retroage. A cada baque,
a cada cataclismo, nasce a promessa pujante de um retorno mais vibrante e
febril. Porque o carnaval, no Brasil, é mais do que espetáculo, é resistência,
é oposição, é um baluarte cultural.
O nosso carnaval é
celebrado como motor cultural e econômico do Brasil, todavia, a sua ausência ou
fracasso deixa marcas indeléveis e profundas. Quando a festa não acontece, não
é apenas a alegria que se perde: vão para o ralo empregos, renda e a identidade
coletiva. Ficam à deriva, sonhos e ambições, se fazem suspensas as alegrias e
os esmeros, enfim, tudo descamba para a casa do caralho.
Historicamente, alguns
carnavais como dissemos acima, fracassaram diante de crises maiores. Em 1919,
repetindo o já dito, no Rio de Janeiro, o primeiro carnaval após a gripe
espanhola foi por demais tímido, quase parando, marcado pelo luto e pela
tentativa de retomar à vida. Em 1940, voltando, de novo a São Paulo, a Segunda
Guerra Mundial trouxe censura e restrições, esvaziando a festa. Mais
recentemente, em 2021, a pandemia de Covid-19 paralisou desfiles e impediu
blocos em todo o país, transformando as máscaras em instrumentos de proteção
sanitária.
Do ponto de vista
econômico, o impacto causado se faz gigantesco. Estimativas apontam que o
carnaval movimenta cerca de R$ 18 bilhões e gera mais de 39 mil empregos
temporários em todo o Brasil. Quando cancelado, como nos idos de 2021, bares,
hotéis, costureiras, músicos e vendedores ambulantes sentiram na pele o colapso
imediato da renda. O carnaval, além de espetáculo, é o braço que sustenta a
engrenagem, e a mão salvadora da sobrevivência para milhares de famílias.
Esses “carnavais
fracassados” são bons sempre serem lembrados. Por qual ou quais motivos?
Revelam a vulnerabilidade de uma tradição que depende de pactos coletivos e de
condições sociais mínimas. A máscara, nesse contexto, deixa de ser símbolo de
alegria e passa a ser testemunha de crises. Mas também guarda a memória viva da
resistência: mesmo quando a festa não acontece, entretanto, a promessa de
retorno permanece inalterável.
A derrocada,
paradoxalmente, reforça a importância do carnaval como um todo. Ele não é
apenas festa: é economia, é cultura, é identidade. E cada vez que a máscara é
guardada sem uso, repetindo o já dito acima, de novo, para não ser esquecido,
ela carrega consigo a esperança de que, no próximo ano, a dança volte às ruas
com ainda mais força.
Nos “carnavais
fracassados”, não são apenas os desfiles interrompidos ou os blocos esvaziados
que chamam a atenção. Há também uma juventude pujante que corre pelas ruas em
busca de algo que muitas vezes não sabe nomear. Para muitos adolescentes e
jovens, o carnaval virou apenas ocasião de excessos: álcool, maconha, fuga,
encontros rápidos, prostituição. A máscara, que antes simbolizava a identidade
coletiva e a resistência cultural, se tornou adereço descartável.
Essa juventude, a
nossa juventude, muitas vezes, não percebe que o carnaval é mais do que festa:
é memória, é história, é sobretudo a expressão popular que atravessou séculos
como espaço de liberdade e crítica social. Ao reduzir o carnaval a uma maratona
de blocos, se perde o sentido profundo da celebração. O risco é transformar a
festa em consumo vazio, em repetição pobre e sem consciência.
E é justamente aí que
surgem os “carnavais fracassados” da contemporaneidade: não porque faltam
recursos ou desfiles, mas porque carecem, sobremaneira, de compreensão. A
máscara, em vez de revelar a potência da cultura, passa a esconder a alienação.
O jovem que se perde em caminhos tortuosos, seja pela violência, pelo abuso ou
pela indiferença, é também a vítima fatal de um carnaval que deixou de ensinar
ao mundo o que na verdade representa.
Do ponto de vista
reflexivo, esse fenômeno revela uma crise de transmissão cultural. O carnaval,
que já foi espaço de crítica política, de invenção estética e de resistência
popular, corre o risco de se tornar num futuro próximo, apenas cenário de
consumo imediato. A juventude que não conhece essa história dança sobre um chão
de giz que não sabe se foi ou não de autoria de Zé Ramalho. Menos ainda, de
onde veio.
Mas acreditem, ainda
há esperança: Ainda, apesar dos pesares. Cada geração pode redescobrir o
carnaval. Basta que as máscaras sejam recolocadas não como disfarces, mas como
símbolos vivos e imorredouros de pertencimento. O desafio é transformar a festa
em aprendizado, para que os jovens não se espalhem ou não se percam, tampouco
se desintegrem, mas encontrem no carnaval um caminho da folia e de identidade e
de contrapeso, uma trilha sobejamente excelente de um futuro lindamente
promissor.
Título e Texto:
Aparecido Raimundo de Souza, do Rio de Janeiro, 17-2-2026
Nada mais gostoso que acordar feliz
Tipo um epitáfio, para lembrarem de mim com um sorriso e uma pausa reflexiva
E a besta ressurgiu mais forte dos infernos
O “Eu, sem mim” e o “Mim, sem eu...”
Nem o nosso ouro reluz como em tempos passados

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