Rafael Nogueira
Dizem uns doutores que o
brasileiro não sabe votar, que vota por obrigação, em quem paga mais, sempre
alheio aos destinos da Pátria. Se você pensa isso, doutor, faça-me um favor:
desça à rua. Pare num balcão de padaria, num banco de praça, numa fila qualquer,
e verá que o Brasil é tema tão constante quanto o clima. E não é conversa
fiada. O povo tem um bom senso mais aguçado que o de muito sociólogo. Ele
discute, opina e se indigna porque procura, desesperadamente, uma voz que
traduza em atos o que ele sente na alma.
E se o voto fosse só “boca de
urna” e favorzinho local, ninguém se daria ao trabalho de atacar o voto de
opinião, aquele em que o eleitor escolhe por afinidade de valores e por visão
de país, e não por promessa de favor. Desde 2018, goste-se ou não, o voto
ideológico e nacional tem pesado mais do que o pragmatismo de quarteirão. O
eleitor cobra vereador e prefeito pelo asfalto; mas, para legislar e governar
Estado e União, prefere quem tenha norte, alguém que saiba por que faz obras e
a quem elas servem.
Em 2026, o choque não será
entre siglas, mas entre dois modos de existir. De um lado, as “Pessoas de
Qualquer Lugar” (os anywheres de David Goodhart), uma casta tecnocrática de
seminário com coffee break, fluente em ONGs e mercado, que trata o Brasil como
ativo de carteira, próspero para poucos e indiferente ao resto. Do outro, as
“Pessoas de Algum Lugar” (somewheres): gente com raízes, bairro, paróquia e
ofício, para quem a economia é o pão de amanhã e segurança é condição de vida.
É em defesa dessa maioria
enraizada que surge o que alguns chamam, com desdém, de “populismo”. Para mim,
o nacional-populismo é, antes de tudo, o instinto de autopreservação que
aparece quando o povo percebe que a democracia exige um “nós”, e que, sem identidade
compartilhada, sem o afeto pelo que é nosso, a oikofilia de Roger Scruton, não
há confiança mútua. Ninguém se sacrifica por uma planilha, mas muitos se
sacrificam por uma pátria.
Erro comum é supor que esse impulso pede um parlamentarismo anglófilo, de modelo distrital, no qual o poder se dissolve entre oligarquias, lobbies e comissões. Nossa tradição é outra: ibérica, católica, organicista. Para nós, o localismo é vital, é no município que a vida acontece, mas, para o local florescer, o nacional precisa de força e unidade, de exemplo e continuidade.
A história ensina, com teimosia pedagógica, que o parlamentarismo puro, sem chefia forte, sempre nos soou estranho. O brasileiro desconfia do “primeiro-ministro” refém do balcão e do toma-lá-dá-cá. Isso não é desprezo do Congresso: o Parlamento é o lugar do debate. Mas a Chefia de Estado é o lugar da mais alta liderança, das grandes decisões e do maior exemplo.
Pedro II, nosso maior
estadista, via-se como o primeiro cidadão, o primeiro voluntário. Ninguém, à
esquerda ou à direita, ousaria chamá-lo de corrupto. E a lição dos
conservadores do Império, os saquaremas, continua atual: a liberdade não nasce
do caos, porque é filha da ordem.
Hoje, o nosso dinossauro
cartorial sufoca o cidadão com regras absurdas, controlando até se a gema do
ovo pode ou não ser mole, ao mesmo tempo em que perde território, dentro das
próprias fronteiras, para facções criminosas. O povo sente que precisa de um
líder forte justamente para quebrar as correntes dessa máquina e devolver
liberdade e segurança às famílias e aos empreendedores.
Diante das urnas, convém
desconfiar tanto da “picanha e cerveja” quanto dos “gestores eficientes” que
prometem administrar o Brasil como uma multinacional. O Brasil não precisa de
gerente. Povo não é funcionário, é dono. Nas esquinas e no voto, busca-se uma
liderança com cultura, coragem e virtude para dizer “não” às agendas globais
que nos desprezam e “sim” ao Brasil real que estuda, trabalha e reza.
Título e Texto: Rafael
Nogueira, O Dia, 4-2-2026
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