A OAB enviou ofício ao STF apontando a arbitrariedade do inquérito das fake news. Mas erra ao reconhecer a legitimidade inicial do arbítrio
Mario Sabino
Foto: Vinícius Schmidt/Metrópoles
A OAB enviou um ofício a Edson Fachin, presidente do STF, no qual pede o fim do inquérito das fakes news.
A entidade, um dia gloriosa no
combate ao arbítrio, “externa extrema preocupação institucional com a
permanência e conformação jurídica de investigações de longa duração” e requer
“que sejam adotadas providências voltadas à conclusão dos chamados inquéritos
de natureza perpétua”.
Muito bem, finalmente a OAB se
manifestou sobre a barbaridade, mas há um problema no ofício: a entidade
reconhece a legitimidade inicial do inquérito das fake news ao dizer que “é
inegável que a instauração do referido inquérito ocorreu em ambiente de grave
tensão institucional, marcado por ataques reiterados à honra e segurança de
ministros da Suprema Corte”.
No documento, a OAB acrescenta
que “justamente por se tratar de solução institucional extraordinária,
concebida para responder a circunstâncias igualmente extraordinárias, sua
condução e permanência no tempo reclamam cautela ainda maior”.
É preciso que se repita: assim
como os atos institucionais extraordinários da ditadura militar nunca foram
legítimos, também jamais houve licitude nessas “soluções institucionais
extraordinárias, concebidas para responder a circunstâncias igualmente extraordinárias”,
que o STF inventou a partir de 2019, ofendendo os princípios constitucionais
que deveriam reger o Brasil.
Afirmar que a democracia
brasileira não dispunha de mecanismos legais suficientes para combater ameaças
circunstanciais e que, por isso, era preciso encontrar atalhos
inconstitucionais, é discurso falacioso de gente oportunista, destinado a
amedrontar um rebanho de ingênuos. O reconhecimento de qualquer legitimidade no
inquérito das fake news e nos seus assemelhados é deixar o caminho aberto para
que a história se repita.
De qualquer forma, a
iniciativa — tardia — da OAB aponta para uma luz no final do túnel, e esperemos
que a maioria dos ministros do STF caia em si para que saiamos deste período
obscuro.
O ofício é especialmente feliz
ao reclamar a necessidade urgente de se voltar ao chamado leito constitucional:
“A defesa da democracia (…)
se completa com a observância estrita do devido processo legal, da ampla
defesa, do contraditório e da liberdade de expressão. Tais garantias não
representam obstáculos à atuação estatal legítima, mas condições de sua
validade e de sua aceitação pública.
Quando a persecução se
prolonga indefinidamente ou se torna excessivamente abrangente em sua
formulação, surgem efeitos que transcendem os investigados formais e atingem o
ambiente institucional como um todo, com reflexos sobre autoridades, agentes
públicos, profissionais da imprensa e cidadãos. A persistência desse quadro
alimenta um tom intimidatório incompatível com o espírito democrático,
republicano e institucional consagrado pela Constituição de 1988.
Nessa linha, a OAB reputa
indispensável reafirmar a proteção ao livre exercício profissional e às
garantias constitucionais de todos aqueles que exercem funções essenciais à
vida democrática, com menção à atividade jornalística e, com especial ênfase,
às prerrogativas de advogados e advogadas, que constituem garantia da cidadania
e da própria administração da Justiça. A advocacia não pode atuar sob ambiente
de incerteza quanto aos limites da atuação investigativa estatal, sobretudo em
temas que envolvam sigilo profissional, acesso a dados e preservação da
confidencialidade da relação entre defensor e constituinte.”
Sejamos ainda mais claros: a
mais alta corte do país não pode continuar a ser cúmplice do ministro Alexandre
de Moraes, que há sete longuíssimos anos vem usando o inquérito das fake news,
onde tudo cabe, para cercear o direito à liberdade de expressão, decretar
prisões arbitrárias e intimidar cidadãos, como fez na semana passada com o
presidente do sindicato dos auditores fiscais. Ele passou a ser investigado por
ter ousado criticar o tribunal pela perseguição movida a profissionais da
Receita Federal acusados de violar o sigilo fiscal dos ministros do STF e das
suas famílias — fato abordado pela OAB, apesar de a entidade não ter citado os
envolvidos nominalmene.
Se antes Alexandre de
Moraes usava o inquérito no qual se coloca como vítima, investigador, relator e
juiz para enjaular supostos golpistas, o ministro agora lança mão da
excrescência jurídica, inexistente até mesmo sob o nazifascismo, para
amedrontar quem dele exige explicações sobre as suas ligações com o banqueiro
do Master, que proporcionou um contrato de inacreditáveis R$ 129 milhões ao
escritório de advocacia da mulher do ministro.
Era previsível: a história
ensina que o arbítrio nasce a pretexto de defender nações, povos, liberdades, e
morre inevitavelmente no lodo de interesses individuais que se opõem ao do que
ele se propunha ser a defesa.
É preciso sair logo desta fase
vergonhosa ou a democracia brasileira se tornará definitivamente um sistema de
fancaria, em que manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Título e Texto: Mario Sabino,
Metrópoles,
23-2-2026, 11h58
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