sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Nada mais gostoso que acordar feliz

Aparecido Raimundo de Souza

HOJE, SEXTA-FEIRA, acordei feliz. Não foi por causa de uma grande conquista, nem por uma notícia extraordinária. Foi simplesmente porque o sol mavioso atravessou a fresta da cortina e pousou no meu rosto como quem diz: “levanta, seu corno, o dia já começou”. O café feito pela Silvinha, minha secretária do lar, parecia mais cheiroso, os pães que ela trouxe da padaria mais saborosos, e até o barulho da galera andando no calçadão da praia ganhou um ritmo de música. A felicidade, percebi, não estava em algo que eu esperava, mas no que já se fazia ali, ou seja, no instante presente, no simples ato de existir.

Quando a felicidade chega, é outra coisa. Tomo meu banho, engulo o café e enquanto caminho em direção ao trabalho, noto que as pessoas parecem mais leves. Talvez não fossem, oxalá apenas uma leve impressão minha, ou apenas o reflexo do meu olhar. Porque quando se acorda feliz, o mundo inteiro parece conspirar a favor. O ônibus atrasado vira oportunidade de contemplar o céu, o vizinho rabugento soa como personagem de comédia, e até o trabalho ganha contornos de aventura. Hoje, sexta-feira, a coisa se repetiu. Acordei feliz de novo. Darei início, daqui a pouco, à operação “Café queimado”, em homenagem a minha amiga Ana Paula, esposa do meu caríssimo amigo Reginaldo e isso me fez pensar...

Pensar em quê? Ah, lembrei! Quantas vezes deixamos a felicidade para depois, como se fosse prêmio de uma corrida interminável? Mas ela é teimosa, insiste em se esconder nos detalhes, nos abraços rápido, nas gargalhadas inesperadas, no silêncio que conforta. Até no sujeitinho chato que vou levar daqui a pouco para Brasília em direção à Cornuda, perdão, Papuda. De onde foi que eu tirei essa tal de Cornuda? É a idade. É a idade. Talvez amanhã eu acorde preocupado, ou cansado, ou simplesmente indiferente. Mas hoje não. Hoje, sexta-feira, acordei feliz, e decidi que carregarei essa alegria até a noite, como quem segura uma chama pequena, mas suficiente para iluminar o caminho.

Hoje acordei feliz, repito. Estou vivo. E respirando. E não foi porque ganhei na loteria, até porque o bilhete continua guardado na gaveta do meu criado mundo, sem nunca ter sido preenchido. Foi porque, milagrosamente, o despertador tocou e eu não quis jogá-lo pela janela. Poderia, por azar, cair na cabeça do seu Luiz, o porteiro aqui do prédio e ele já sabe, quando cai alguma coisa pela janela, essa arte é coisa minha. Certamente ele quando eu estivesse saindo, me mandaria “pra puta que pariu”. Como me contive e não joguei a droga do despertador, isso já se apresenta como um sinal de vitória. Levantei da cama com uma energia que parecia propaganda de vitamina.

O espelho até se assustou: “Quem é esse ser humano sorridente às 5 da manhã?”. Tomei um banho frio, como se fosse cena de comercial, e em seguida escovei os dentes com direito a espuma extra e sorriso brilhante. Na cozinha, como disse, a Silvinha caprichou. O café estava tão cheiroso, tão saboroso, que parecia ter sido preparado por uma barista italiana. Não sei o que é barista, mas pouco importa. O pão, que normalmente vem duro como tijolo, resolveu colaborar e estava macio e quente. Até a manteiga espalhou sem rasgar o pão. Um verdadeiro milagre da sofisticação doméstica.

Saí de casa e percebi enquanto pegava o elevador que o mundo inteiro parecia conspirar para manter a minha felicidade. “Não vou de carro. Vou de “40 janelinhas”. O ônibus, (ou o 40 janelinhas), que sempre passa atrasado especificamente hoje, seguirá vindo fora do horário. Uma desculpa para eu contemplar o céu. Seu Nicanor, o vizinho rabugento, pegou carona no “sobe e desce” e me chamou a atenção: “Seu Aparecido, o senhor está descalço? Vai trabalhar assim? Pode isso, Arnaldo?  Não dei importância. Apenas o ouvi por educação. Suas palavras entraram por um ouvido e saíram pelos cotovelos do meu nariz. Eu o ouvi como se fosse um “stand-up comedy” dos tempos de José Vasconcellos e Ari Toledo.

Até o trânsito hoje, tenho certeza, parecerá uma coreografia alegre de balé, com carros dançando entre buzinas, pessoas afoitas pedindo para serem atropeladas. Pois é! Tudo pelo motivo de hoje ter acordado feliz.  Descobri que às vezes, acordar feliz, é perigoso: a gente começa a achar graça em tudo. Por exemplo: O chefe vai dar bronca e eu comentarei com meus botões: “Olha só, ele ensaiou esse discurso pelado diante do espelho”. Se o meu computador travar acredito que ele só estará querendo uns minutos a mais para suavizar um cochilo de uns dez ou quinze minutos. Talvez amanhã, sábado, eu acorde com cara de segunda-feira, mesmo que seja sábado.

Mas hoje não. Hoje acordei feliz, alegre, saltitante, e decidi que vou espalhar essa alegria como quem distribui Wi-Fi grátis para moradores de rua: sem senha, sem limite, e com sinal forte. Claro, que a senha não é a minha é do meu sindico que mora dois andares abaixo do meu. Pensa num síndico chato. Sem dúvida alguma, o seu Assoprêncio Viana. Como sei da senha dele? A filha do velhote, a encantadora Viviane do Amor Perfeito, dias atrás, quando nos encontramos no elevador, ela gritou: “pai, qualé memo” a sua senha? Na portaria, o susto: dou de cara com uma viatura da Policia Federal. Corro, estabanado pensando que estavam em meu encalço.

Qual o quê! Era minha irmã Driele, delegada, que veio me buscar sem avisar. Juro que depois mato ela pelo susto que me acometeu. O prédio em peso, saiu na varanda para ver o que estava acontecendo. Engraçado que ela, Driele, voou no meu encalço, gritando, “vem cá, mano, vem cá mano”. Fui preso e algemado logo adiante, suando em bicas, ao dar de cara com uma viatura da guarda municipal que passava na hora e os agentes pensando que eu estava fugindo mandaram que eu deitasse no chão e colocasse as mãos na cabeça. Tudo acabou em pizza. Viva Brasília, aí vou eu... é a operação “Café queimado”, batizado pela senhora Ana Paula, esposa do meu amigo Reginaldo.     

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo, 13-2-2026

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