terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Tipo um epitáfio, para lembrarem de mim com um sorriso e uma pausa reflexiva

Aparecido Raimundo de Souza

(Para todos que fizeram parte da minha vida)

ALARDEIAM OS ANTIGOS que a vida é curta, assim, como dizer um “bom dia”, uma “boa tarde”. Breve como a partida de uma pessoa insuportável, ligeira como um espirro, rasteira como um sorriso e até mais abreviado que um peido maroto soltado em hora imprópria. Sempre achei que ela, a vida, cabia em muitas histórias. E como eu sempre fui um contador de histórias, algumas delas ganharam vida em viagens de ônibus quando ia ou voltava do trabalho. Outras em abraços demorados, e muitas em gargalhadas que ecoaram mais alto do que qualquer tristeza com semblante de pegajosa e mal-amada.

Mas se anime, minha princesa. Se hoje você está aqui diante dessa pedra fria, encarando meu buraco nesse chão de terra enlameada, talvez rindo por dentro e pensando com seus botões, “graças a Deus, essa imundície se foi”, saiba que ela, a sepultura, não guarda apenas o fim, mas também agasalha o começo de cada lembrança. Porque eu não sou só esse nome gravado aqui nessa sepultura. Também me sinto e logicamente reconheço, fui um sujeito medíocre, um cara que fazia mal às pessoas, que abandonou as mulheres com quem viveu, os filhos que não soube criar... também fui conversa, piada, companhia, ainda que insuportável, mas quem estava ao meu lado se divertia ou fingia bem.

E se a saudade nesse momento apertar, se lembre: eu sempre preferi que me recordassem com um sorriso. Afinal, rir era o meu jeito imbecilizado de desafiar o tempo. Agora descanso, mas deixo um convite para você, minha linda que me encara muda e sem saber o que dizer: viva como quem sabe que cada instante pode virar história. E quando contar a sua, não esqueça de temperar com bastante humor, porque é assim que a vida fica mais leve, mesmo aqui vista desse lado. Nunca se esqueça: a vida é um sopro. Eu, porém, sempre achei que ela tinha gosto de café com leite acompanhado de dois pães com manteiga pela manhã e também de gargalhadas inesperadas.

Você sabe, não vivi como quem conta os dias, mas como quem coleciona histórias. Algumas sérias, outras absurdas, e muitas que só faziam sentido porque vinham de dentro de mim. Se você está aqui, diante dessa última morada, saiba que não encontrará apenas silêncio. Há ecos de conversas que nunca terminaram, lembranças que insistem em se repetir, e perceba, há risos que ainda vibram no ar, mesmo que eu já não esteja de bom humor para soltá-los. Fui amigo, companhia, aquele idiota que fazia piada quando o momento pedia seriedade e, às vezes, quando não.

Mas também fui quem sabia ouvir, quem carregava no peito a certeza de que viver é mais sobre partilhar do que acumular. Não quero, veja bem, não quero que a saudade pressione você como um peso. Pelo contrário, que seja um convite. Como assim? Isso mesmo! Um convite. Ao lembrar de mim, sorria. Porque se a vida é breve, o sorriso é eterno. E se eu consegui arrancar um de você, mesmo agora, então cumpri o meu papel. Descanso, sim. Mas deixo um legado simples: viva como quem sabe que cada instante pode virar crônica. Não espere o “grande momento”, porque ele talvez nunca chegue.

Celebre, pois, minha linda, os pequenos abraços inesperados, as conversas sem hora para acabar, as piadas que salvam o dia mesmo que esse dia tenha sido uma merda. E quando você, um dia, como eu, agora, contar a sua própria história, não esqueça de temperá-la com humor. É assim que a vida fica mais leve, mais amena, mesmo quando parece pesada. No fim, não seremos lembrados pelo que fizemos, mas pelo que as pessoas sentirão quando vierem aqui.  Se hoje você ao chegar sorriu ao pensar em mim sobre sete palmos de terra, saiba, eu sigo daqui vivo entre risos e silêncios dentro de seu “eu” escondido.

Você bem sabe, eu passei a vida escrevendo. Mandei bala em crônicas, textos, rabiscos em guardanapos... cada palavra, uma tentativa de traduzir o que eu via, sentia ou simplesmente inventava para arrancar um sorriso. Algumas dessas minhas histórias se fizeram engraçadas, leves como vento de fim de tarde. Outras carregavam um peso medonho, porque nem sempre a vida é feita somente de gargalhadas. E houve, confesso, aquelas risadas que, sem querer, feriram. Da mesma forma, as palavras também têm esse poder: podem ser um abraço apertado ou uma lâmina.

Eu sei que algumas das minhas palavras não foram justas, não foram porque magoaram pessoas que não deveriam. Se eu pudesse, talvez as reescrevesse. A vida não tem botão com borracha ou corretivo para apagar, pelo contrário, ela se imprime no tempo como está. E fica. Você, que agora arranjou tempo para me visitar, espero que, ao me lembrar, pense primeiro nos textos que fizeram rir. Reflita nos momentos em que a ironia foi companhia, e sopese a leveza que tentei espalhar. Porque se escrevi para provocar, foi sempre para despertar o “algo escondido”, ou seja, a reflexão, o riso e a maneira das pessoas pensarem mais abertamente.

Agora descanso, mas fico feliz, ou melhor dito, sei que as minhas crônicas, continuarão vivas. Estão nos meus papéis sobre a mesinha, no computador nos meus cadernos, nas memórias, nas conversas que você repete sem perceber. Estão também em sites, como o da “Grande Família Cão Que fuma”, E se algumas delas fizeram você sorrir, ou pensar diferente, então já cumpriram o seu papel. Aos que se sentiram feridos pela minha cabeça espevitada, deixo aqui o meu pedido silencioso de perdão. Que a lembrança seja mais generosa do que as minhas falhas.

No fim, não fui apenas quem viveu: fui quem também escreveu. E se hoje, minha flor imarcescível, você lê estas linhas diante da minha última morada, saiba que cada palavra é uma ponte, uma via grandiosa entre o que fui e o que ainda posso ser, obviamente na memória de quem vier me visitar. Você sabe, passei a vida escrevendo. Advogar, andar de terno e gravata, usar sapatos apetados, nunca foi meu forte. Criei crônicas, textos, rabiscos poesias em guardanapos, cada palavra se me assemelhava a uma tentativa de dar sentido ao que eu via ou sentia. Muitas vezes, escrevi para arrancar risadas. E consegui. Houve quem risse alto, quem risse baixinho, e quem risse só por educação. Mas rir, afinal, sempre foi melhor do que chorar.

Tenho consciência que nem todos os meus textos foram leves. Alguns nasceram sérios, sisudos, de focinhos amarrados, outros surgiram tortos, e alguns, sem querer, acabaram ferindo pessoas que não mereciam. Palavras, minha filha linda, são assim: podem ser, aliás, são como um abraço ou uma pedra enorme. Eu sei que alguns dos meus textos pesaram mais do que deveriam. Se pudesse, talvez os reescrevesse. Mas a vida não tem aquela tecla “Delete”.

Ainda assim, espero que, ao me lembrar, você, sangue do meu sangue, pense primeiro nas histórias que fizeram sorrir. Nas crônicas que transformaram o banal em engraçado, o cotidiano em espetáculo. Porque se escrevi para provocar, foi sempre para despertar algo: reflexão, riso, lembrança, essas coisas. E se alguma vez você se magoou com o que escrevi, como minha filha Amanda, saiba que não foi por falta de carinho. Foi por excesso de humanidade. Porque quem escreve, erra. Quem fala demais, tropeça nas próprias palavras. E eu tropecei algumas vezes. Agora repouso, mas repito, minhas crônicas continuam vivas. Estão nos papéis, nas memórias, nas conversas que você repete sem perceber.

E se alguma delas lhe fez sorrir, ou pensar diferente, então já cumpriram o seu papel. No fim, não fui apenas quem viveu: fui quem escreveu. E se hoje você lê estas linhas diante da minha última morada, saiba que cada palavra é uma ponte entre o que fui e o que ainda posso ser, na memória de quem vier amanhã ou depois, me visitar. Entenda, que os pedidos de perdão nem sempre surtiram o efeito desejado. Talvez por orgulho, talvez por silêncio, talvez porque a vida corre mais rápido do que a vontade de se reconciliar.

E assim, eu sei e compreendo, ficaram algumas mágoas, ressentimentos que se transformaram como páginas mal escritas que nunca tive tempo de revisar. Mas se alegre, sorria como eu estou sorrindo agora. Se hoje, minha princesa, se hoje você leu o que escrevi e saiu ontem, que a minha derradeira crônica não lhe traga só as palavras que fizeram você se sentir ferida ou magoada. Acho até (cá entre nós), que você pensou em me mandar para a puta que pariu. Confesse. Foi também, eu sei, as que fizeram você rir, as que aliviaram seus dias enfadonhos, as que transformaram o banal em lembranças. E agora, veja que ironia, todas essas lembranças se transformaram, ou melhor, viraram S A U D A D E.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Venda Nova do Imigrante, no Espírito Santo, 10-2-2026

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