sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Os eternos intocáveis que abundam as bundas do poder

Aparecido Raimundo de Souza

“O Brasil vive uma era anárquica conhecida como “Síndrome da indução”. Literalmente significa o encosto de uma enxurrada de parasitas inconsistentes e perniciosos mamando nosso sangue de maneira desenfreada””.
Do livro “Apometria” de J. S. Godinho. Holus Publicações 2007.

AQUI NO NOSSO Brazzzil (grafado assim mesmo, propositadamente), todos se conhecem pelos nomes, pelas histórias, pelos tropeços e pelas vitórias. Me perdoem, caros leitores, mais notadamente pelos dissabores. Vitórias são como objetos raros que não fazem parte de quem nasce, vive, cresce e morre por aqui. Bem sabemos que há um grupo bastante acentuado e gigantesco de famintos e desabrigados desprendidos do verdadeiro conceito de felicidade. Em vista disso, esses manés caminham como sombras difusas, transitam num universo paralelo repleto de negritudes densas e insondáveis e, como se não bastasse, ao sabor das armadilhas desconhecidas e obumbradas pela má sorte traiçoeira, devastadora e famigeradamente ingrata.

Embora todos nós estejamos cansados de ver seus rostos todos os dias nos jornais e nas telinhas dos canais das poderosas emissoras de televisão, os não contemplados pelos carinhos do Altíssimo, são as chamadas criaturas “à margem da sociedade”. Não porque se vejam desprezadas ou carentes, tampouco por não terem parentesco com santos milagreiros, ou porque pertençam à banda perigosa e não alicerçada nas centelhas advindas dos caminhos da ataraxia ou por algum outro motivo desconhecido não foram agraciadas pelos santos olhos do Pai Maior. Em vista disso, esses desconhecidos são excluídos em face da porra da sociedade, como um todo, em sua pressa acirrada de tentar se livrar deles.

A cada dia, mãos invisíveis os empurram aos trambolhões para os cafundós de uma cratera enorme e sem perspectiva de volta. Apesar dessa luta desigual, dessa peleja fervente e sem precedentes, sem um reajuste harmônico num patamar de estágio evolutivo e imperecível, esses cidadãos comuns que se safam e sobrevivem se vendo obrigados a matar um leão a cada novo minuto, a sociedade hipócrita e dissimulada acha que esses seres humanos são uma espécie de lixo tóxico e, por conta disso, não merecem os lampejos dos toques diários e benfazejos da boa convivência fraterna. Aproveito para deixar claro, aos considerados “invisíveis”, ou seja, aos personagens sem rosto (não os dos ônibus lotados, ou dos que recolhem despojos de comidas nas feiras).

Tampouco me reporto aos que dormem sob as marquises iluminadas por vitrines do mais fino luxo dissimulado e santarrão. A cada passo, esses seres destituídos da boa sorte carregam em seus costados o peso de um “rótulo-mancha” que não escolheram, ou melhor dito, de uma vida infame que jamais sonharam em ter. O planeta os espiona com olhos tapados, os contempla com a mais pura e injusta arrogância, por isso não os vê. O mundo todo fala deles, os noticiários mencionam as suas presenças, mas não dialogam com suas necessidades mais prementes. Interessante observar que, na infância, ninguém nasce intocável. As crianças brincam juntas, correm para lá e para cá sem perguntar de onde vieram e para onde irão.

Parece que o mundinho mascarado e ignóbil em que vivem se desprendeu da nebulosa solar e criou uma senda própria, todavia sem volta a um recomeço imorredouro. Nesse tom de cores esdrúxulas, a coisa vai mais além. Esses desprezados se divertem sem medir as roupas usadas ou o sobrenome familiar. É a vida adulta que inventa barreiras, que constrói muros, como aquele erguido em tempos remotos na Berlim de Goethe e Thomas Mann, que, não contente, espalhou cercas eletrificadas fechando fronteiras invisíveis, que decidia quem poderia ser abraçado, beijado, e quem deveria ser definitivamente afastado. Esses intocáveis resistem. Prolongar e durar, para eles, é continuar sorrindo mesmo quando os esbugalhos alheios atravessam como lâminas as suas carnes podres destituídas do toque sutil da solidariedade.

Os desvalidos, os “as margens da sociedade” não perdem a pose, cantam melodias com palavras bonitas nas esquinas e praças públicas. Os marginalizados inventam poesias, recitam Mario Quintana e Castro Alves com o pouco que lhes resta. Para eles, existe o amor, apesar da pecha da indiferença. Nesse existir, esses amaldiçoados e gananciosos do poder revelam uma verdade incômoda: talvez os heróis não refinados sejam, na acepção verdadeira da palavra, esses marginalizados boçais de terninhos de grife, os parasitas, os ratos dos bueiros escondidos da capital do país, bem ainda os senadores, os deputados, que cagam cheiroso e que por vomitarem o nascimento em berço de ouro, se recusam a tocar o outro, a contemplar o semelhante, o próximo, por puro medo ou asco, ou por preconceito barato no mais alto grau de arrogância.

No fim, a cidade dos corruptos continua cada vez mais satânica. Nesse desenfreamento, uns correm, outros se escondem, e os larápios que sentam as suas bundas e seus cus nas cadeiras sujas do poder seguem adiante, lembrando que o toque que poderia ser dado não é apenas físico, é também caracterizado pelo gesto de reconhecer a humanidade existente no outro. A isso se chama reciprocidade mútua inesgotável. Quem sabe, um dia, esta minha singela e despretensiosa crônica da vida urbana seja reescrita e os tinhosos e os capetas do poder asqueroso, as pústulas de esgoto, os amaldiçoados e os poderosos das gargantas sem fundo deixem de ser manchas impenetráveis para se tornarem parte da luz, o clarão da resplandescência que vem lá do mais alto infinito que nos contempla.

Por toda a cidade, em qualquer esquina, topamos com homens que recolhem latas e caixas de papelão. Essas almas são chamadas de “mendigos”. As mulheres que limpam o chão dos banheiros das rodoviárias, as latrinas das mansões ao longo do Paranoá, as serviçais que cuidam dos aeroportos e deixam os cagadores cheirosos, resguardando perfumes importados dos trocentos gabinetes dos deuses fajutos, são as incorruptíveis “invisíveis”. Os jovens negros parados nas calçadas ao lado daquela puta sentada em frente ao “paulhaço” do STF, são “suspeitos”. Todas essas figuras carregam uma marca que não escolheram, ou seja, portam no cotidiano de seus corações as mazelas de suas tristes vidas.

Aliás, diga-se de passagem, rachaduras perpétuas que a sociedade hipócrita lhes impôs goela abaixo. São, repetindo, para que ninguém se esqueça, os desengonçados, os pobres de espírito do nosso tempo de hoje, do nosso agora e possivelmente do nosso amanhã que talvez nem chegue. Intocáveis não porque sejam perigosos, mas pelo preconceito que os afastou do convívio. A cidade ergue muros invisíveis: o sustentáculo da indiferença se apresenta soberbo, a tutoria da desigualdade é real, se fez indissolúvel para o acostamento do medo. E atrás deles, milhões de seres humanos vivem sem direito ao toque, ao olhar, ao reconhecimento. Pior, seguem sem direito à vida plena.

O paradoxo é tirano, carniceiro, áspero, cruel, selvagem, lancinante: quem mais sustenta as engrenagens da vida urbana são os catadores que reciclam, as domésticas que cuidam, os trabalhadores que constroem... são justamente essas figuras quem menos recebem os vapores da dignidade. O descrédito que lhes é negado não é apenas físico; é o badalar da cidadania, da oportunidade, da voz. Enquanto isso, os “intocáveis” seguem firmes e fortes. Se agigantam. Para essas pobres e indefesas criaturas, o “resistir” é sobreviver ao desprezo, é transformar restos de coisas em sustento, é cantar nas esquinas mesmo quando o mundo tapa os ouvidos. Resistir, meus caros amigos da “Grande família Cão que Fuma”, é habitar, é reprochar, é vencer, apesar da soberba cada vez maior daquilo que conhecemos como exclusão.

Talvez seja chegada a hora de inverter a lógica: os verdadeiros “intocáveis” não são os pobres, os marginalizados, os invisíveis. Os intocáveis, com todas as letras, são aqueles filhos da puta que se blindam “as margens da sociedade” que aclamam seus privilégios, e que se recusam a enxergar o outro, mesmo trilhar, que acreditam que a dignidade é um luxo e não um direito garantido pela Carta Maior. Entendo que a sociedade só será justa quando o toque voltar a ser humano, quando o abraço não tiver classe social, quando o olhar mais condescendente desses amaldiçoados não carregar a suspeita. Até lá, os intocáveis continuarão caminhando entre nós.  Seguirão não como sombras, mas como espelhos limpos de imagem cristalina daquilo que fingimos não ver.

Nas calçadas do maior terminal de São Paulo (o Tietê), homens, mulheres e crianças dormem sobre sacos e caixas. Na Barra Funda, no ônibus, uma mulher negra é ignorada quando pede ao motorista uma informação. No centro de São Paulo, na Avenida Ipiranga, na Praça da Sé, dentro dos trens do metrô, crianças vendem balas enquanto a infância lhes escorre pelos dedos. São os miseráveis em carne e osso da nossa sociedade: aqueles que o sistema empurra para a margem errada e depois finge não ver. Miseráveis, porque o preconceito os carimba. Miseráveis, porque a desigualdade os condena. Miseráveis porque o Estado Democrático de direito, que deveria protegê-los, é uma farsa, um cagalhão fedorento e pior, se ausenta e se vende por trinta moedas.

Não são poucos: são milhões. Invisíveis nas estatísticas, silenciados nas políticas públicas, esquecidos nos discursos que só lembram deles em época de eleição. Poder, poder, poder. A cidade ergue muros invisíveis: o da indiferença, o da exclusão, o da casa do caralho, enfim, essas construções escondem as barragens da violência policial. Quem atravessa essas cercas descobre que a dignidade virou privilégio de poucos. O direito ao trabalho, à moradia, à saúde, à educação, tudo isso lhes é negado como se fossem favores, não direitos. E enquanto os famigerados lutam de unhas e dentes para sobreviver, os verdadeiros ladrões do povo, os deuses “caneteiros” se escondem atrás de carros blindados, se incrustam em seguranças armados até os dentes, se abancam embuçados em condomínios fechados e vomitam discursos hipócritas.

São os que se homiziam contra a realidade, os que se fazem covardes e se recusam a enxergar o outro, os que acreditam que pobreza é culpa e não consequência. Denunciar é preciso: não se trata de caridade, mas de justiça. Não se trata, mesmo que chute nos colhões, de esmola, mas de reparação. O Brazzzil destruído só será digno quando passar a ser visto como um “Brasil Gigantesco”. Só será soberano, dono de si sem precisar tomar no olho do cu diariamente, quando os intocáveis de traseiros enlameados de merda deixarem de ser invisíveis, quando o toque da cidadania alcançar cada esquina, cada favela, cada corpo marcado pela derrota. Até lá, seguiremos convivendo com essa ferida aberta, aliás, um câncer incurável. Vivemos, ou dito de forma mais direta, vegetamos todos numa sociedade podre, que escolhe quem merece existir plenamente e quem deve ser empurrado para as profundezas mais devastadoras do eterno fogo do inferno.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro16-1-2026

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