Embora todos nós
estejamos cansados de ver seus rostos todos os dias nos jornais e nas telinhas
dos canais das poderosas emissoras de televisão, os não contemplados pelos
carinhos do Altíssimo, são as chamadas criaturas “à margem da sociedade”. Não
porque se vejam desprezadas ou carentes, tampouco por não terem parentesco com
santos milagreiros, ou porque pertençam à banda perigosa e não alicerçada nas
centelhas advindas dos caminhos da ataraxia ou por algum outro motivo
desconhecido não foram agraciadas pelos santos olhos do Pai Maior. Em vista
disso, esses desconhecidos são excluídos em face da porra da sociedade, como um
todo, em sua pressa acirrada de tentar se livrar deles.
A cada dia, mãos invisíveis os empurram aos trambolhões para os cafundós de uma cratera enorme e sem perspectiva de volta. Apesar dessa luta desigual, dessa peleja fervente e sem precedentes, sem um reajuste harmônico num patamar de estágio evolutivo e imperecível, esses cidadãos comuns que se safam e sobrevivem se vendo obrigados a matar um leão a cada novo minuto, a sociedade hipócrita e dissimulada acha que esses seres humanos são uma espécie de lixo tóxico e, por conta disso, não merecem os lampejos dos toques diários e benfazejos da boa convivência fraterna. Aproveito para deixar claro, aos considerados “invisíveis”, ou seja, aos personagens sem rosto (não os dos ônibus lotados, ou dos que recolhem despojos de comidas nas feiras).
Tampouco me reporto
aos que dormem sob as marquises iluminadas por vitrines do mais fino luxo
dissimulado e santarrão. A cada passo, esses seres destituídos da boa sorte
carregam em seus costados o peso de um “rótulo-mancha” que não escolheram, ou
melhor dito, de uma vida infame que jamais sonharam em ter. O planeta os
espiona com olhos tapados, os contempla com a mais pura e injusta arrogância,
por isso não os vê. O mundo todo fala deles, os noticiários mencionam as suas
presenças, mas não dialogam com suas necessidades mais prementes. Interessante
observar que, na infância, ninguém nasce intocável. As crianças brincam juntas,
correm para lá e para cá sem perguntar de onde vieram e para onde irão.
Parece que o mundinho
mascarado e ignóbil em que vivem se desprendeu da nebulosa solar e criou uma
senda própria, todavia sem volta a um recomeço imorredouro. Nesse tom de cores
esdrúxulas, a coisa vai mais além. Esses desprezados se divertem sem medir as
roupas usadas ou o sobrenome familiar. É a vida adulta que inventa barreiras,
que constrói muros, como aquele erguido em tempos remotos na Berlim de Goethe e
Thomas Mann, que, não contente, espalhou cercas eletrificadas fechando
fronteiras invisíveis, que decidia quem poderia ser abraçado, beijado, e quem
deveria ser definitivamente afastado. Esses intocáveis resistem. Prolongar e
durar, para eles, é continuar sorrindo mesmo quando os esbugalhos alheios
atravessam como lâminas as suas carnes podres destituídas do toque sutil da
solidariedade.
Os desvalidos, os “as
margens da sociedade” não perdem a pose, cantam melodias com palavras bonitas
nas esquinas e praças públicas. Os marginalizados inventam poesias, recitam
Mario Quintana e Castro Alves com o pouco que lhes resta. Para eles, existe o amor,
apesar da pecha da indiferença. Nesse existir, esses amaldiçoados e gananciosos
do poder revelam uma verdade incômoda: talvez os heróis não refinados sejam, na
acepção verdadeira da palavra, esses marginalizados boçais de terninhos de
grife, os parasitas, os ratos dos bueiros escondidos da capital do país, bem
ainda os senadores, os deputados, que cagam cheiroso e que por vomitarem o
nascimento em berço de ouro, se recusam a tocar o outro, a contemplar o
semelhante, o próximo, por puro medo ou asco, ou por preconceito barato no mais
alto grau de arrogância.
No fim, a cidade dos
corruptos continua cada vez mais satânica. Nesse desenfreamento, uns correm,
outros se escondem, e os larápios que sentam as suas bundas e seus cus nas
cadeiras sujas do poder seguem adiante, lembrando que o toque que poderia ser
dado não é apenas físico, é também caracterizado pelo gesto de reconhecer a
humanidade existente no outro. A isso se chama reciprocidade mútua inesgotável.
Quem sabe, um dia, esta minha singela e despretensiosa crônica da vida urbana
seja reescrita e os tinhosos e os capetas do poder asqueroso, as pústulas de
esgoto, os amaldiçoados e os poderosos das gargantas sem fundo deixem de ser
manchas impenetráveis para se tornarem parte da luz, o clarão da
resplandescência que vem lá do mais alto infinito que nos contempla.
Por toda a cidade, em
qualquer esquina, topamos com homens que recolhem latas e caixas de papelão.
Essas almas são chamadas de “mendigos”. As mulheres que limpam o chão dos
banheiros das rodoviárias, as latrinas das mansões ao longo do Paranoá, as
serviçais que cuidam dos aeroportos e deixam os cagadores cheirosos,
resguardando perfumes importados dos trocentos gabinetes dos deuses fajutos,
são as incorruptíveis “invisíveis”. Os jovens negros parados nas calçadas ao
lado daquela puta sentada em frente ao “paulhaço” do STF, são “suspeitos”.
Todas essas figuras carregam uma marca que não escolheram, ou seja, portam no
cotidiano de seus corações as mazelas de suas tristes vidas.
Aliás, diga-se de
passagem, rachaduras perpétuas que a sociedade hipócrita lhes impôs goela
abaixo. São, repetindo, para que ninguém se esqueça, os desengonçados, os
pobres de espírito do nosso tempo de hoje, do nosso agora e possivelmente do
nosso amanhã que talvez nem chegue. Intocáveis não porque sejam perigosos, mas
pelo preconceito que os afastou do convívio. A cidade ergue muros invisíveis: o
sustentáculo da indiferença se apresenta soberbo, a tutoria da desigualdade é
real, se fez indissolúvel para o acostamento do medo. E atrás deles, milhões de
seres humanos vivem sem direito ao toque, ao olhar, ao reconhecimento. Pior,
seguem sem direito à vida plena.
O paradoxo é tirano,
carniceiro, áspero, cruel, selvagem, lancinante: quem mais sustenta as
engrenagens da vida urbana são os catadores que reciclam, as domésticas que
cuidam, os trabalhadores que constroem... são justamente essas figuras quem
menos recebem os vapores da dignidade. O descrédito que lhes é negado não é
apenas físico; é o badalar da cidadania, da oportunidade, da voz. Enquanto
isso, os “intocáveis” seguem firmes e fortes. Se agigantam. Para essas pobres e
indefesas criaturas, o “resistir” é sobreviver ao desprezo, é transformar
restos de coisas em sustento, é cantar nas esquinas mesmo quando o mundo tapa
os ouvidos. Resistir, meus caros amigos da “Grande família Cão que Fuma”, é
habitar, é reprochar, é vencer, apesar da soberba cada vez maior daquilo que
conhecemos como exclusão.
Talvez seja chegada a
hora de inverter a lógica: os verdadeiros “intocáveis” não são os pobres, os
marginalizados, os invisíveis. Os intocáveis, com todas as letras, são aqueles
filhos da puta que se blindam “as margens da sociedade” que aclamam seus privilégios,
e que se recusam a enxergar o outro, mesmo trilhar, que acreditam que a
dignidade é um luxo e não um direito garantido pela Carta Maior. Entendo que a
sociedade só será justa quando o toque voltar a ser humano, quando o abraço não
tiver classe social, quando o olhar mais condescendente desses amaldiçoados não
carregar a suspeita. Até lá, os intocáveis continuarão caminhando entre
nós. Seguirão não como sombras, mas como
espelhos limpos de imagem cristalina daquilo que fingimos não ver.
Nas calçadas do maior
terminal de São Paulo (o Tietê), homens, mulheres e crianças dormem sobre sacos
e caixas. Na Barra Funda, no ônibus, uma mulher negra é ignorada quando pede ao
motorista uma informação. No centro de São Paulo, na Avenida Ipiranga, na Praça
da Sé, dentro dos trens do metrô, crianças vendem balas enquanto a infância
lhes escorre pelos dedos. São os miseráveis em carne e osso da nossa sociedade:
aqueles que o sistema empurra para a margem errada e depois finge não ver.
Miseráveis, porque o preconceito os carimba. Miseráveis, porque a desigualdade
os condena. Miseráveis porque o Estado Democrático de direito, que deveria
protegê-los, é uma farsa, um cagalhão fedorento e pior, se ausenta e se vende
por trinta moedas.
Não são poucos: são
milhões. Invisíveis nas estatísticas, silenciados nas políticas públicas,
esquecidos nos discursos que só lembram deles em época de eleição. Poder,
poder, poder. A cidade ergue muros invisíveis: o da indiferença, o da exclusão,
o da casa do caralho, enfim, essas construções escondem as barragens da
violência policial. Quem atravessa essas cercas descobre que a dignidade virou
privilégio de poucos. O direito ao trabalho, à moradia, à saúde, à educação,
tudo isso lhes é negado como se fossem favores, não direitos. E enquanto os
famigerados lutam de unhas e dentes para sobreviver, os verdadeiros ladrões do
povo, os deuses “caneteiros” se escondem atrás de carros blindados, se
incrustam em seguranças armados até os dentes, se abancam embuçados em
condomínios fechados e vomitam discursos hipócritas.
São os que se homiziam
contra a realidade, os que se fazem covardes e se recusam a enxergar o outro,
os que acreditam que pobreza é culpa e não consequência. Denunciar é preciso:
não se trata de caridade, mas de justiça. Não se trata, mesmo que chute nos
colhões, de esmola, mas de reparação. O Brazzzil destruído só será digno quando
passar a ser visto como um “Brasil Gigantesco”. Só será soberano, dono de si
sem precisar tomar no olho do cu diariamente, quando os intocáveis de traseiros
enlameados de merda deixarem de ser invisíveis, quando o toque da cidadania
alcançar cada esquina, cada favela, cada corpo marcado pela derrota. Até lá,
seguiremos convivendo com essa ferida aberta, aliás, um câncer incurável.
Vivemos, ou dito de forma mais direta, vegetamos todos numa sociedade podre,
que escolhe quem merece existir plenamente e quem deve ser empurrado para as
profundezas mais devastadoras do eterno fogo do inferno.
Título e Texto:
Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de
Janeiro16-1-2026
[Aparecido rasga o verbo] Sem saída, sem escape, literalmente de frente para o inferno. Aqui vamos nós...
As bonecas de pano da Izabel ou a Izabel das bonecas de pano?
Os papagaios também vestem Prada

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