sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] O futuro do “Hoje” pode ser um “Amanhã” sem talvez

Aparecido Raimundo de Souza

‘O amanhã não existe. É apenas um futuro imaginário que criamos dentro de nós com esperanças de um porvir que talvez nunca chegue’. Carina Bratt, de ‘Bastidores’.

O RELÓGIO na parede do meu quarto marca as horas que não sei se quero me fixar nelas. O hoje já me pesa nos ombros, mas é o Amanhã que me assusta. Ele se esconde e se asila atrás da cortina do tempo, como uma criança travessa que prepara uma surpresa inesperada só que eu não sei se vou rir ou chorar quando ele aparecer.

Penso nas promessas que fiz a mim mesmo: escrever mais, ler mais, amar melhor, cuidar da saúde, fazer os exames para me livrar da próstata inchada, e ser menos ansioso. O Amanhã é o cobrador dessas dívidas silenciosas. Ele chega com a fatura na mão, e eu, sem um centavo para fazer um cego cantar “eu não sou cachorro não”, tento negociar com mil desculpas esfarrapadas.

O Amanhã me inquieta, me desassossega porque é desconhecido. E tudo o que é incógnito e misterioso, amedronta, depaupera, faz subir o grau do medo e o buraco da insegurança. Me deixa com os nervos em frangalhos pelo motivo de poder trazer a notícia que mudará tudo, o encontro que virará destino, ou apenas me mostrará a mesa pobre abastecida com um café frio e um pão sem manteiga, e, para variar, uma nova “rotina repetida” com a fuça escarrada de ontem.

O Amanhã é o palco onde atuo sem ensaio, improvisando falas que não decorei. Talvez o medo seja também uma forma de esperança. Se temo o Amanhã, é porque ainda acredito que ele existe, que virá, que me dará outra chance. O medo mórbido é a prova irrefutável de que ainda quero estar com ele, mesmo sem saber o que me espera.

E assim, nesse tom meio escuro, entre o susto e a expectativa, a comoção e o enojamento, vou aprendendo que o Amanhã é mesmo um monstro sem cabeça, e mais que um simples encarar o espelho: ele reflete o que faço hoje. Se o meu hoje é pequeno, o Amanhã me horripila. Se o meu hoje é inteiro, talvez o Amanhã me surpreenda na próxima esquina.

O Amanhã sempre chega com cara de alguma cobrança. Parece aquele vizinho curioso com pescoço de girafa, que lá do alto bate na porta cedo demais perguntando se já paguei o condomínio. Além de espiar filmando tudo. Eu ainda estou tentando terminar o café de hoje, e o Amanhã já quer saber antecipadamente dos meus planos, das metas e das promessas que fiz na noite de natal e renovei à meia noite, quando da passagem do ano.

O problema é que o Amanhã não avisa o que traz. Pode ser uma notícia chata, um ônibus atrasado, ou quem sabe uma boa atarantação de surpresa não esperada — tipo encontrar um maço de notas esquecidas no bolso da calça, ou o anel de ouro que a mamãe me deu antes de morrer e não sei onde coloquei. Mas como não dá para escolher, a gente fica “meio-inteiro” abagualado.

Às vezes penso com meus botões que o Amanhã é como aquele amigo que marca encontro sem dizer o lugar. A putinha linda da zona que a gente achava que daria grandes prazeres na cama barulhenta, mas ao oposto, a “buceta” dela na hora agá saiu às carreiras de dentro da calcinha cheirando a bacalhau estragado.

Apesar do intempestivo, a gente vai em frente, sai com ela, dorme, chupa, é chupado, come, fode bastante, mas não sabe se parará algum tempo depois num boteco, numa festa elegante ou por puro azar num corredor do SUS por ter pego o vírus da AIDS. E aí, é nessa hora, que bate o medo: o assombro, é o pior de todos os males existentes. A pergunta que me atormenta é: será que quando o meu medo chegar, eu estarei preparado?

No fundo, o Amanhã me combali, me aniquila, me tira do prumo, porque eu ainda não terminei de arrumar o meu hoje. A pia da cozinha tem louça até o cu da torneira, a agenda das contas em aberto tem pendências, e na cabeça fervem dúvidas impagáveis.  Talvez seja justamente isso que dá a graça degradante do não convencional: o Amanhã é o improviso da vida no agora, e a gente aprende a dançar conforme a música. Mesmo que não haja música nenhuma, ela, a música, na verdade, está dentro da nossa vidinha sublevada. 

Então, entre um gole de café com leite e outro, vou tentando fazer as pazes com ele. Porque se o Amanhã me come pelas beiradas, me tira dos trilhos, me faz mal, me cega do objetivo-foco a ser seguido é sinal de que ainda tenho histórias para viver — e o susto, cá entre nós, o sobressalto também é uma forma de emoção paradisíaca ao desconcordante enfarruscado.

O Amanhã é, mesmo lado da “moerda”, aquele parente chato e pegajoso que nunca avisa que vem visitar. A gente está de chinelo, de cueca, ou pior, pelado, o cabelo bagunçado, batendo uma punheta para a foto da cantora Sophie Charlotte e, de repente, do nada, ele aparece na porta. Brota todo de azul parecendo o Roberto Carlos, exigindo postura, planos e até um sorriso que fugiu arisco do rosto enuviado pela incerteza de um porvir que não chegará.

Eu, sinceramente, ainda estou tentando terminar o antes de ontem, que já na bolsa à tira colo, veio cheio de boletos, a recordação da fila do mercado e o café frio que esqueci no micro-ondas junto com os pães de queijo e alguns pedaços de pizza de mussarela que o síndico do prédio ia dispensar aos empregados do condomínio com dilatação aos moradores de rua.

O amanhã, como disse acima, me assusta. Me assombra, me definha, me parte em três, e consegue tudo isso porque é misterioso. Pode trazer uma promoção no açougue ou só mais uma reunião de um possível futuro trabalho ao cargo de “passeadores de cachorros” no calçadão da praia, em face de madames metidas a ricas que bem poderiam ter sido endereçadas aos interessados por um simples e-mail.

Pode me dar sorte no amor ou apenas mais uma mensagem do banco dizendo “saldo insuficiente”. É como abrir uma caixa de surpresas, às vezes vem chocolate, às vezes vem conta de luz, às vezes não vem porra nenhuma. Mas o pior é que o Amanhã não respeita a preguiça. Ele chega cedo, sem pedir licença, e já quer saber se vou à academia, se vou começar a dieta, se vou finalmente arrumar aquela gaveta que parece um portal para outra dimensão. Eu respondo com a mesma cara que dou ao despertador: “não enche”.

E, no entanto, por mais que eu reclame, berre ou grite, o Amanhã tem seu charme. Ele é como aquele amigo especial que sempre inventa uma história maluca: você nunca sabe se vai acabar rindo ou chorando, ou as duas coisas ao mesmo tempo, porém, tem a convicção e sabe igualmente que vai ter assunto a dar com pau.

O problema é que, enquanto escrevo esta crônica, percebo algo estranho. O amanhã não está só me assustando… ele está me observando. Sim, ali, no canto da sala, tem uma sombra que não estava aqui antes. Pisquei, e ela se mexeu. Soltei um pum e ela observou, muito séria: “esse fedeu”.

Talvez o amanhã não seja apenas uma metáfora, quem sabe alguém. Melhor seria se fosse a metade faltosa da minha maçã tão almejada. Uma dentada apenas e acordaria no paraíso contando galinhas a caminho do matadouro.

E se for? Se o amanhã bater na minha porta agora, antes mesmo de começar o dia? Se ele não esperar o nascer do sol? Eita, acabo de ouvir a campainha. Meu Deus, quem poderá ser a esta hora? A campainha tocou, tenho certeza. Me belisquei na bunda com força. Doeu. O coração disparou. Realmente tem alguém. Corro a abrir esperando o porteiro, ou talvez a vizinha gostosa do apê fronteiriço pedindo uma xícara de açúcar. Mas não!

Quem está ali é ele, o Amanhã. Não como ideia, mas como pessoa. Veste o infeliz um terno amarrotado, carrega uma mala enorme e tem olheiras profundas, como quem já viveu mil futuros antes de bater nos cascos da minha humilde residência.

— Oi — diz ele, com voz rouca. — Vim mais cedo. Não aguentei esperar...

Fiquei sem palavras. Ou melhor, fico. Droga! O Amanhã entra sem pedir licença, larga a mala no sofá e alguma coisa enorme num jornal com notícias embrulhadas em fatos recentes. “Terremoto em Brasília deixa a capital do país envolta em escombros. Não há sobreviventes. Doze ministros do STF foram encontrados boiando no lago Paranoá. Um deles trazia uma caneta enfiada no rabo”. Em seguida, o Amanhã começa a abrir as gavetas da minha escrivaninha, a mexer nas minhas coisas.

E como se já fosse o dono da casa, de dentro da mala, a criatura tira objetos estranhos: uma chave que não abre nada, uma fotografia de mim mais velho, um bilhete escrito em uma língua que não conheço. Cada item parece uma pista, mas nenhuma faz sentido.

— “Você me teme —  diz o Amanhã — mas eu também tenho medo de você” — confessa acendendo um cigarro que cheira a vento encanado vindo da Papuda. Toma fôlego e continua:

— “Porque tudo o que eu sou, depende do que você faz agora”.

Num gesto inesperado, ele me entrega o objeto que estava envolto no jornal. Ao desemaranhar, me deparo com um espelho enorme. Esse espelho, num primeiro momento, me deixa encucado. Ao encará-lo, percebo que o tal objeto não reflete o meu rosto.

Espelha literalmente cenas que ainda não aconteceram: eu rindo em lugares que nunca visitei, chorando copiosamente por pessoas que ainda não conheço, vivendo histórias em crônicas que ainda nem me dei ao trabalho de escrever.

Olho para o Amanhã, tentando entender. Ele sorri, apaga a luz da sala e diz:

— O susto, meu caro, o susto é só o convite. O espetáculo começa quando você aceitar e entrar...

Antes que eu possa responder, o Amanhã se dissolve em fumaça, deixando apenas o espelho brilhando no escuro que se forma logo depois.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo, 2-1-2026

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