Aparecido Raimundo de Souza
O RELÓGIO na parede do
meu quarto marca as horas que não sei se quero me fixar nelas. O hoje já me
pesa nos ombros, mas é o Amanhã que me assusta. Ele se esconde e se asila atrás
da cortina do tempo, como uma criança travessa que prepara uma surpresa inesperada
só que eu não sei se vou rir ou chorar quando ele aparecer.
Penso nas promessas
que fiz a mim mesmo: escrever mais, ler mais, amar melhor, cuidar da saúde,
fazer os exames para me livrar da próstata inchada, e ser menos ansioso. O
Amanhã é o cobrador dessas dívidas silenciosas. Ele chega com a fatura na mão,
e eu, sem um centavo para fazer um cego cantar “eu não sou cachorro não”, tento
negociar com mil desculpas esfarrapadas.
O Amanhã me inquieta,
me desassossega porque é desconhecido. E tudo o que é incógnito e misterioso,
amedronta, depaupera, faz subir o grau do medo e o buraco da insegurança. Me
deixa com os nervos em frangalhos pelo motivo de poder trazer a notícia que mudará
tudo, o encontro que virará destino, ou apenas me mostrará a mesa pobre
abastecida com um café frio e um pão sem manteiga, e, para variar, uma nova
“rotina repetida” com a fuça escarrada de ontem.
O Amanhã é o palco
onde atuo sem ensaio, improvisando falas que não decorei. Talvez o medo seja
também uma forma de esperança. Se temo o Amanhã, é porque ainda acredito que
ele existe, que virá, que me dará outra chance. O medo mórbido é a prova
irrefutável de que ainda quero estar com ele, mesmo sem saber o que me espera.
E assim, nesse tom meio escuro, entre o susto e a expectativa, a comoção e o enojamento, vou aprendendo que o Amanhã é mesmo um monstro sem cabeça, e mais que um simples encarar o espelho: ele reflete o que faço hoje. Se o meu hoje é pequeno, o Amanhã me horripila. Se o meu hoje é inteiro, talvez o Amanhã me surpreenda na próxima esquina.
O Amanhã sempre chega
com cara de alguma cobrança. Parece aquele vizinho curioso com pescoço de
girafa, que lá do alto bate na porta cedo demais perguntando se já paguei o
condomínio. Além de espiar filmando tudo. Eu ainda estou tentando terminar o
café de hoje, e o Amanhã já quer saber antecipadamente dos meus planos, das
metas e das promessas que fiz na noite de natal e renovei à meia noite, quando
da passagem do ano.
O problema é que o
Amanhã não avisa o que traz. Pode ser uma notícia chata, um ônibus atrasado, ou
quem sabe uma boa atarantação de surpresa não esperada — tipo encontrar um maço
de notas esquecidas no bolso da calça, ou o anel de ouro que a mamãe me deu
antes de morrer e não sei onde coloquei. Mas como não dá para escolher, a gente
fica “meio-inteiro” abagualado.
Às vezes penso com
meus botões que o Amanhã é como aquele amigo que marca encontro sem dizer o
lugar. A putinha linda da zona que a gente achava que daria grandes prazeres na
cama barulhenta, mas ao oposto, a “buceta” dela na hora agá saiu às carreiras de
dentro da calcinha cheirando a bacalhau estragado.
Apesar do
intempestivo, a gente vai em frente, sai com ela, dorme, chupa, é chupado,
come, fode bastante, mas não sabe se parará algum tempo depois num boteco, numa
festa elegante ou por puro azar num corredor do SUS por ter pego o vírus da
AIDS. E aí, é nessa hora, que bate o medo: o assombro, é o pior de todos os
males existentes. A pergunta que me atormenta é: será que quando o meu medo
chegar, eu estarei preparado?
No fundo, o Amanhã me
combali, me aniquila, me tira do prumo, porque eu ainda não terminei de arrumar
o meu hoje. A pia da cozinha tem louça até o cu da torneira, a agenda das
contas em aberto tem pendências, e na cabeça fervem dúvidas impagáveis. Talvez seja justamente isso que dá a graça
degradante do não convencional: o Amanhã é o improviso da vida no agora, e a
gente aprende a dançar conforme a música. Mesmo que não haja música nenhuma,
ela, a música, na verdade, está dentro da nossa vidinha sublevada.
Então, entre um gole
de café com leite e outro, vou tentando fazer as pazes com ele. Porque se o
Amanhã me come pelas beiradas, me tira dos trilhos, me faz mal, me cega do
objetivo-foco a ser seguido é sinal de que ainda tenho histórias para viver — e
o susto, cá entre nós, o sobressalto também é uma forma de emoção paradisíaca
ao desconcordante enfarruscado.
O Amanhã é, mesmo lado
da “moerda”, aquele parente chato e pegajoso que nunca avisa que vem visitar. A
gente está de chinelo, de cueca, ou pior, pelado, o cabelo bagunçado, batendo
uma punheta para a foto da cantora Sophie Charlotte e, de repente, do nada, ele
aparece na porta. Brota todo de azul parecendo o Roberto Carlos, exigindo
postura, planos e até um sorriso que fugiu arisco do rosto enuviado pela
incerteza de um porvir que não chegará.
Eu, sinceramente,
ainda estou tentando terminar o antes de ontem, que já na bolsa à tira colo,
veio cheio de boletos, a recordação da fila do mercado e o café frio que
esqueci no micro-ondas junto com os pães de queijo e alguns pedaços de pizza de
mussarela que o síndico do prédio ia dispensar aos empregados do condomínio com
dilatação aos moradores de rua.
O amanhã, como disse
acima, me assusta. Me assombra, me definha, me parte em três, e consegue tudo
isso porque é misterioso. Pode trazer uma promoção no açougue ou só mais uma
reunião de um possível futuro trabalho ao cargo de “passeadores de cachorros” no
calçadão da praia, em face de madames metidas a ricas que bem poderiam ter sido
endereçadas aos interessados por um simples e-mail.
Pode me dar sorte no
amor ou apenas mais uma mensagem do banco dizendo “saldo insuficiente”. É como
abrir uma caixa de surpresas, às vezes vem chocolate, às vezes vem conta de
luz, às vezes não vem porra nenhuma. Mas o pior é que o Amanhã não respeita a preguiça.
Ele chega cedo, sem pedir licença, e já quer saber se vou à academia, se vou
começar a dieta, se vou finalmente arrumar aquela gaveta que parece um portal
para outra dimensão. Eu respondo com a mesma cara que dou ao despertador: “não
enche”.
E, no entanto, por
mais que eu reclame, berre ou grite, o Amanhã tem seu charme. Ele é como aquele
amigo especial que sempre inventa uma história maluca: você nunca sabe se vai
acabar rindo ou chorando, ou as duas coisas ao mesmo tempo, porém, tem a convicção
e sabe igualmente que vai ter assunto a dar com pau.
O problema é que,
enquanto escrevo esta crônica, percebo algo estranho. O amanhã não está só me
assustando… ele está me observando. Sim, ali, no canto da sala, tem uma sombra
que não estava aqui antes. Pisquei, e ela se mexeu. Soltei um pum e ela observou,
muito séria: “esse fedeu”.
Talvez o amanhã não
seja apenas uma metáfora, quem sabe alguém. Melhor seria se fosse a metade
faltosa da minha maçã tão almejada. Uma dentada apenas e acordaria no paraíso
contando galinhas a caminho do matadouro.
E se for? Se o amanhã
bater na minha porta agora, antes mesmo de começar o dia? Se ele não esperar o
nascer do sol? Eita, acabo de ouvir a campainha. Meu Deus, quem poderá ser a
esta hora? A campainha tocou, tenho certeza. Me belisquei na bunda com força.
Doeu. O coração disparou. Realmente tem alguém. Corro a abrir esperando o
porteiro, ou talvez a vizinha gostosa do apê fronteiriço pedindo uma xícara de
açúcar. Mas não!
Quem está ali é ele, o
Amanhã. Não como ideia, mas como pessoa. Veste o infeliz um terno amarrotado,
carrega uma mala enorme e tem olheiras profundas, como quem já viveu mil
futuros antes de bater nos cascos da minha humilde residência.
— Oi — diz ele, com
voz rouca. — Vim mais cedo. Não aguentei esperar...
Fiquei sem palavras.
Ou melhor, fico. Droga! O Amanhã entra sem pedir licença, larga a mala no sofá
e alguma coisa enorme num jornal com notícias embrulhadas em fatos recentes.
“Terremoto em Brasília deixa a capital do país envolta em escombros. Não há sobreviventes.
Doze ministros do STF foram encontrados boiando no lago Paranoá. Um deles
trazia uma caneta enfiada no rabo”. Em seguida, o Amanhã começa a abrir as
gavetas da minha escrivaninha, a mexer nas minhas coisas.
E como se já fosse o
dono da casa, de dentro da mala, a criatura tira objetos estranhos: uma chave
que não abre nada, uma fotografia de mim mais velho, um bilhete escrito em uma
língua que não conheço. Cada item parece uma pista, mas nenhuma faz sentido.
— “Você me teme — diz o Amanhã — mas eu também tenho medo de
você” — confessa acendendo um cigarro que cheira a vento encanado vindo da
Papuda. Toma fôlego e continua:
— “Porque tudo o que
eu sou, depende do que você faz agora”.
Num gesto inesperado,
ele me entrega o objeto que estava envolto no jornal. Ao desemaranhar, me
deparo com um espelho enorme. Esse espelho, num primeiro momento, me deixa
encucado. Ao encará-lo, percebo que o tal objeto não reflete o meu rosto.
Espelha literalmente
cenas que ainda não aconteceram: eu rindo em lugares que nunca visitei,
chorando copiosamente por pessoas que ainda não conheço, vivendo histórias em
crônicas que ainda nem me dei ao trabalho de escrever.
Olho para o Amanhã,
tentando entender. Ele sorri, apaga a luz da sala e diz:
— O susto, meu caro, o
susto é só o convite. O espetáculo começa quando você aceitar e entrar...
Antes que eu possa
responder, o Amanhã se dissolve em fumaça, deixando apenas o espelho brilhando
no escuro que se forma logo depois.
Título e Texto:
Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo, 2-1-2026
Sempre haverá, onde menos se espera, uma Fênix eterna ressuscitando das cinzas
Um paraíso perdido bem aqui debaixo de nossos olhos
[Aparecido rasga o verbo – Extra] Eram assim, os meus natais de outrora...
Fosso intransponível
Por aqui, a hora do pesadelo tem outro nome

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