segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Do barril ao botequim: como o chope virou símbolo do jeito carioca de viver

Introduzida no Brasil pela corte portuguesa, a cerveja não pasteurizada ganhou identidade própria no Rio e se transformou em ícone da boemia, do futebol e da sociabilidade urbana


Mariana Motta

Trazido ao Brasil no início do século 19 pelos europeus, o chope percorreu um longo caminho até se transformar em um dos maiores símbolos da cultura carioca. Mais do que uma bebida, a cerveja não pasteurizada e tirada sob pressão se consolidou no Rio de Janeiro como parte de um modo de vida que envolve conversa fiada, amizade, paquera, samba e futebol, sempre acompanhada de um copo “estupidamente gelado”.

Registros históricos mostram que o chope já fazia parte do cotidiano da cidade no século 19. Em 1883, a expressão “vou tomar um chope e já volto” aparecia em uma peça publicada pela Gazeta de Notícias. Décadas depois, a bebida atravessaria gerações ao ser eternizada na música “Você não soube me amar”, da banda Blitz, lançada no início dos anos 1980. Em ambos os casos, se trata da mesma bebida: a cerveja não pasteurizada, fresca e servida diretamente do barril.

A introdução do hábito de consumir chope no Brasil remonta a 1808, com a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro. Segundo especialistas, foi nesse período que surgiram as primeiras cervejarias, instaladas na região da Serra Fluminense, onde o clima mais ameno facilitava o controle da fermentação. Na época, não havia distinção entre cerveja e chope, a diferença surgiria apenas com a popularização da pasteurização, na segunda metade do século 19.

Apesar de difundido pela corte, o consumo permaneceu restrito às elites durante muitos anos. A produção nacional só ganhou força com a chegada de imigrantes alemães, a partir de 1824, que trouxeram conhecimento técnico e impulsionaram a instalação das primeiras fábricas. Um marco desse processo foi o anúncio da “cerveja brasileira” publicado no Jornal do Commercio em 1836.

Com a urbanização e a consolidação da indústria de bebidas, o chope deixou de ser artigo de luxo e passou a ocupar o centro da vida boêmia carioca. Bares tradicionais do Centro do Rio ajudaram a construir essa identidade, transformando o simples ato de beber em ritual coletivo. Um dos exemplos mais emblemáticos é o Bar Amarelinho, na Cinelândia, que desde 1921 se orgulha de servir um dos chopes mais gelados da cidade e se tornou ponto de encontro de políticos, artistas e trabalhadores.

Além do contexto social, o sabor também explica o prestígio da bebida. Por não passar pelo processo de pasteurização, o chope preserva características sensoriais mais intensas. Especialistas apontam que a eliminação de microrganismos na cerveja pasteurizada reduz aromas e sabores, enquanto o chope mantém uma composição mais próxima da chamada “cerveja viva”. Ainda assim, o hábito brasileiro de consumir a bebida muito gelada acaba suavizando essas diferenças, já que o frio reduz a percepção gustativa.

Ao longo do século 20, a popularização da cerveja e do chope acompanhou transformações econômicas e culturais do país. O barateamento da produção após a Segunda Guerra Mundial, a estabilização da moeda nos anos 1990 e a consolidação de grandes grupos do setor ampliaram o consumo e reforçaram a presença da bebida no imaginário nacional. Hoje, o Brasil figura entre os maiores mercados de cerveja do mundo.

Mesmo presente em diversas capitais, foi no Rio de Janeiro que o chope se tornou símbolo de identidade urbana. Nos botequins espalhados pela cidade, o copo gelado segue sendo ponto de partida para histórias, encontros e afetos. O chope ganhou borogodó carioca e permanece como expressão líquida de um jeito muito particular de viver a cidade.

Título e Texto: Mariana Motta, Diário do Rio, 16-1-2026

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