sexta-feira, 3 de abril de 2026

[Aparecido rasga o verbo] A Eterna Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau

Aparecido Raimundo de Souza

A BELA E ESFUZIANTE Chapeuzinho Vermelho não anda mais pela floresta com uma cestinha, mas sim pela cidade grande com uma mochila cheia de entregas. Desde que a sua avó ficou debilitada, em face do avanço da idade, passou a se locomover com mais lentidão. A simpática idosa, coisa de um ano, se mudou com a Chapeuzinho Vermelho. Ambas agora moram num duplex na Avenida Atlântica, perto da antiga e extinta TV Rio, num edifício com vista eterna para o mar. Chapeuzinho Vermelho se transformou em uma linda jovem. Em dias de hoje, a encantadora trabalha com aplicativos de delivery. O Lobo Mau, apesar de não ser o mesmo dos tempos de outrora, quando vivia na floresta, perturbando a paz e o sossego da pobre menina inocente e da avó dela, não mudou de vida, nem de hábitos.

Seguiu aprontando das suas. Virou um Lobo Mal mil vezes mais endiabrado com espírito de hacker e, como em tempos de outrora, o malandro se especializou em engendrar as artes mais escabrosas. Dias atrás, invadiu o celular da Chapeuzinho Vermelho para roubar dados e encomendas. A vovó, por sua vez, apesar de não se locomover livremente pelas redes sociais, se atualizou. Nesse tom, a longeva se fez super conectada. Segundo ela, seus conhecimentos “internéticos, dão para os gastos”. A senhorinha tem smart home, assiste lives, se diverte com o BBB e usa óculos de realidade virtual. No caminho até a asa da avó, a Chapeuzinho Vermelho enfrenta os trânsitos tresloucados da Siqueira Campos, da Barata Ribeiro e da Nossa Senhora de Copacabana, bem ainda se livra de drones de entrega e até de “Fake News” espalhadas pelo Lobo Mau, tudo para enceguecer os moradores.

Porém, a Chapeuzinho Vermelho é diferente da versão antiga. Ela não é ingênua: usa senha forte, autenticação em dois fatores e conta com a ajuda de amigos que monitoram tudo ao vivo e a cores pelas redes sociais. No final, o Lobo Mau criado pelo francês Charles Perrault acaba desmascarado em uma live e a vovó, coisa de um mês, virou “influencer de segurança digital”. Nessa segunda feira, logo pela manhã, Chapeuzinho Vermelho caminhava pela Siqueira Campos, logo depois de ter deixado a Ladeira dos Tabajaras com a sua mochila de entregas. O celular vibrava sem parar com notificações do aplicativo. De repente, uma mensagem estranha apareceu na tela. Era o Lobo Mau (via chat):
— Olá, Chapeuzinho Vermelho… clique neste link e ganhe um cupom de desconto exclusivo!

Chapeuzinho Vermelho, muito séria a arisca, deu o troco:
— Ah, sei… você acha que eu não percebo? Isso é phishing, seu trapaceiro.

Lobo Mau:
— Ora, ora… você está mais arisca e esperta do que eu imaginava. Mas não vai escapar: já estou tentando invadir seu Wi-Fi.

Chapeuzinho Vermelho:
— Boa sorte, Lobo Mau. Minha senha tem 22 caracteres, com números, símbolos e autenticação em dois fatores.

O Lobo Mau rosnou, frustrado. Enquanto isso, Chapeuzinho Vermelho ativou o GPS e compartilhou a localização de seu inimigo com a sua avó, que estava em casa assistindo o “Mais você” com a Ana Maria Braga onde uma artista de novela dava uma aula de culinária.

Vovó (em chamada de vídeo):
— Filha, cuidado! Esse Lobo Mau anda espalhando fake News dizendo que eu fui sequestrada...

Chapeuzinho Vermelho:
— Já estou chegando, vó. Vamos desmascarar ele juntas.

De fato, quando o Lobo Mau tentou aparecer em uma transmissão ao vivo com pitadas acrescidas pelo brilhantismo dos irmãos Grimm objetivando enganar os seguidores. Apesar dessa introdução, a Chapeuzinho Vermelho se adiantou com mais destreza e visão futurista. Ingressou na mesma live e mostrou todas as provas digitais que possuía. O público foi condescendente e sem mais delongas, denunciou o Lobo Mau, que acabou bloqueado e banido das redes.

Chapeuzinho Vermelho (sorrindo de satisfação):
— Viu, seu Lobo Mau bobo? No mundo conectado, quem mente é quem perde...

Lobo Mau (em tom despeitado):
— Ei, Chapeuzinho, não cante vitórias antes do tempo. Você anda por aí com essa mochila de entregas. Preste atenção. Logo eu te derrubarei. Vou mandar um monte de drones em seu encalço.

Chapeuzinho Vermelho (calma e dona de si):
— Pode mandar. Drones, seu tonto, não dão bom-dia. Eu gosto de falar com as pessoas, levar os pedidos nas mãos.

Lobo Mau (rindo debochado):
— Você perde muito tempo! Eu já tenho um aplicativo pirata que entrega mais eficaz e rápido e ainda rouba os dados dos clientes.

Chapeuzinho Vermelho (em tom sério e objetivo):
— Pirata? Isso é crime digital. Você devia estar estudando cibersegurança em vez de tentar enganar os outros.

Lobo Mau (desdenhando):
— Ah, mas é tão fácil… basta mandar um link falso e pronto, todo mundo cai igual patinho...

Chapeuzinho Vermelho (responde na ponta da língua):
— Nem todo mundo. Eu uso antivírus, autenticação em dois fatores e ainda sigo canais de tecnologia que ensinam a gente a se proteger.

Lobo Mau (mais depreciativo ainda):
— Você acha que vai me derrotar só com isso? Eu tenho seguidores, espalho ‘fake News e ganho curtidas.

Chapeuzinho Vermelho (dando uma ligeira lição de moral):
— Curtidas não pagam contas, lobo. E quando a verdade aparece, quem mente perde credibilidade. Consegue entender?

Lobo Mau (em resposta vaga e sem sentido):
— Credibilidade? Isso não dá visualização.

Chapeuzinho Vermelho (firme em suas palavras):
— Dá sim. Minha vó virou influencer de culinária saudável e aposto já tem mais inscritos que você. Ela ensina receitas sem “ultraprocessados” e ainda fala abertamente de sustentabilidade.

Lobo Mau (bufando de ódio):
— Essa sua avó moderna continua sendo meu pesadelo.

Chapeuzinho Vermelho (objetiva):
— Pois vá se acostumando. No nosso tempo, quem usa tecnologia para o bem é quem vence.

Lobo Mau (se gabando):
— Então, Chapeuzinho, ainda andando por aí com essa mochila? Você não sabe que agora todo mundo pede comida pelo aplicativo e fica em casa maratonando séries no Google e na Netflix?

Chapeuzinho Vermelho (destilando a sua honestidade):
— Sei sim, Lobo Mau bobo. Mas eu gosto de caminhar, ouvir música no fone e ver a cidade. Além disso, entrego pessoalmente, sem atrasos.

Lobo Mau (mais chato que nunca):
— Caminhar? Isso é coisa do passado. Eu já tenho uma patinete elétrica e faço vídeos mostrando minhas corridas. Ganho mais visualização do que você entregando marmitas ou sei lá o quê....

Chapeuzinho Vermelho (séria e audaciosa):
— Visualização não paga contas, nem condomínio, nem meus carnês, Lobo Mau bobo. Eu prefiro avaliação cinco estrelas dos clientes.

Lobo Mau (rindo feito uma hiena esfomeada): :
— Avaliação? Eu manipulo algoritmo. Crio perfis falsos, dou nota baixa nos concorrentes e pronto: apareço no topo.

Chapeuzinho Vermelho (muito séria e austera):
— Isso é fraude digital. Você deveria estar aprendendo programação de verdade, não gastando tempo em golpes.

Lobo Mau (despudorado): 
— Programação? Eu já uso inteligência artificial para criar mensagens falsas e enganar os outros.

Chapeuzinho Vermelho (envergonhada):
— Inteligência artificial também pode ser usada para o bem. Minha avó, por exemplo, usa um assistente virtual para controlar a casa: luz, fogão, até a geladeira.

Lobo Mau rindo insolentemente):
— Essa sua vovó moderna continua sendo meu maior pesadelo.

Chapeuzinho Vermelho (aguerrida):
— Pois vá se acostumando com a ideia. No nosso tempo de hoje, lá na floresta, onde eu vivia e você também, quem usa tecnologia para ajudar os outros é quem vence. Nunca se esqueça dessas palavras.

Lobo Mau (tentando persuadir com idéias frívolas):
— Chapeuzinho Vermelho, você ainda usa dinheiro vivo? Eu já estou no mundo das criptomoedas. Pago tudo e recebo em blockchain...

Chapeuzinho Vermelho (faltando pouco para mandar o Lobo Mau às favas):
— Dinheiro vivo é raro, Lobo. Eu prefiro o cartão virtual, com limite ajustado e proteção antifraude.

Lobo Mau (fracalhão e acanhado):
— Cartão virtual? Isso é coisa de iniciante. Eu invado carteiras digitais e faço transferências em questão de segundos.

Chapeuzinho Vermelho (arrojada e pundonorosa):
— Invadir não é inteligência, é crime. Eu estudo finanças digitais e sei que segurança é tão ou mais importante quanto rendimento.

Lobo Mau (ignavo e poltrão):
— Você fala como se fosse especialista. Mas eu tenho seguidores que acreditam em qualquer coisa que eu posto.

Chapeuzinho Vermelho (enfática e cordata):
— Seguidor não é sinônimo de confiança. Minha avó, por exemplo, ensina receitas sustentáveis e já tem mais engajamentos que você.

Lobo Mau (cada vez mais tolo e discrepante):
— Sustentabilidade? Isso não dá lucro.

Chapeuzinho Vermelho (perspicaz):
— Dá sim. Quem recicla, economiza energia e cuida do planeta e ganha respeito. E respeito, fique sabendo, vale mais que um milhão de curtidas.

Lobo Mau (quase perdendo as estribeiras):
— Respeito, sua tonta, não paga meus luxos.

Chapeuzinho Vermelho (incisiva e luminosa:)
— Mas abre portas. No nosso tempo e fora daquela floresta onde vivíamos, quem constrói credibilidade é quem prospera.

Lobo Mau (neutralizado e sem ter mais o que argumentar):
— Chapeuzinho Vermelho, você ainda usa celular com capinha vermelha? (Risos). Isso é tão infantil. Eu já tenho o modelo mais caro, com câmera que filma até em 8K.

Chapeuzinho Vermelho (se abrindo faceira num sorriso pra lá de disparatado):
— Não preciso de ostentação, lobo Mau. Meu celular simples já me ajuda a trabalhar, estudar e falar com minha avó.

Lobo Mau, (abordido):
— Trabalhar? Eu ganho dinheiro de olhos fechados e sabe fazendo o quê? Vendendo cursos falsos na Internet.

Chapeuzinho Vermelho (Envergonhada):
— Cursos falsos? Eu prefiro aprender de verdade, fazer faculdade online e construir meu futuro.

Lobo Mau (retraído e amargurado):
— Futuro? O futuro é manipular redes sociais. Eu crio perfis falsos, espalho boatos e ganho seguidores.

Chapeuzinho Vermelho (senhora de si e acima de qualquer suspeita):
— Seguidores não são amigos. Eu prefiro gente de verdade, que me apoia e me respeita.

Lobo Mau (acabrunhado):
— Respeito não dá engajamento. Eu quero é polêmica, quero ser trending topic...

Chapeuzinho Vermelho (sem perder a pose de boa menina):
— Polêmica passa rápido. O que fica é a confiança.

Lobo Mau (tentando se opor as palavras da jovem beldade):
— Você fala como se fosse adulta, mas eu lembro de você pequena, andando pela floresta com aquela cestinha ridícula.

Chapeuzinho Vermelho (sem mostrar surpresa):
— Eu tinha certeza que era você, aquele lobo mau que atravancava a minha vida quando eu era menina!

Lobo Mau (rindo):
— Finalmente a sua imbecilidade deixou você perceber. Eu nunca deixei de estar por perto. Só troquei a nossa floresta pela cidade, os dentes afiados pelos golpes digitais.

Chapeuzinho Vermelho (firme):
— Pois saiba, Lobo Mau bobo, que agora eu não sou mais aquela menina ingênua. Hoje eu reconheço as suas armadilhas e não caio mais nelas.

Lobo Mau pasmo):
— Veremos, Chapeuzinho Vermelho. Veremos… você pode ter crescido, mas eu continuo sendo mais esperto. Ninguém nunca conseguiu me pegar.

Chapeuzinho Vermelho (dando um aviso quase despercebido):
— Ah, lobo… você ainda não se deu conta que está caindo na própria armadilha?

Lobo Mau (mudando o humor e tentando se vangloriar):
— Armadilha? Eu sou quem arma as armadilhas!

Chapeuzinho Vermelho (de novo, numa gargalhada sincera):
— Pois é. E foi por isso que eu te deixei falar demais na live. Enquanto você se gabava, minha avó gravava tudo e já mandou o áudio para a polícia digital.

Lobo Mau (assustado):
— Polícia digital? Isso não existe!

Chapeuzinho Vermelho (batendo palmas e quase gritando):
— Existe sim. E olha só, não se assuste. Eles já estão rastreando o seu IP.

Lobo Mau (tentando desconectar o notebook):
— Não, não, não! Eu vou fugir, ninguém me pega!

Chapeuzinho Vermelho (rindo alto e ruidosamente):
— Fugir? Você acabou de cair no meu truque: aquele link que você clicou era uma armadilha de segurança. Agora a sua localização está exposta.

Lobo Mau (assomadiço e soltando fumaça por todos os poros):
— O quê?! Você me enganou?

Chapeuzinho Vermelho (batendo palmas de contentamento):
— Não é engano, é justiça.

De repente, do nada, se ouve claramente sirenes ao fundo se aproximando em estardalhaço.

Lobo Mau (desesperado):
— Não, não! Eu sou o rei da floresta, e agora o mestre aqui dessa cidade, ninguém pode me prender!

Chapeuzinho Vermelho (sem parar de sorrir):
— Pode sim. Adeus, Lobo Mau. No fim das contas, você continua o mesmo sem vergonha que perturbava incansavelmente a minha vida lá na nossa, digo, na minha floresta. Só que agora, finalmente, você caiu na esparrela do seu próprio retardamento.

Lobo Mau (apreensivo e aparvalhado):
— Você acha que me venceu, Chapeuzinho Vermelho? Eu ainda tenho truques guardados...

Chapeuzinho Vermelho, (fazendo gestos de desdém):
— Truques? Você acabou de cair no maior deles. Enquanto falava, eu te gravei em 4K e já transmiti direto para a delegacia digital.

Lobo Mau (olhando em volta, realmente fora de si e confuso. Tentando ganhar tempo):
— Delegacia digital? Isso é piada. Essa porcaria não existe!

Chapeuzinho Vermelho (tranquila):
— Existe sim. E olha só, estão batendo na sua porta.

De fato, coisa de um minuto depois, um tropel interrompe definitivamente a conversação entre o Lobo Mau e a Chapeuzinho Vermelho. (Lobo Mau, é encurralado. Tenta manter a pose. Berra):
— Eu não tenho medo! Eu sou o algoritmo vivo, a sombra da rede, o bug eterno!

Chapeuzinho Vermelho (eufórica e gritando vivas em alta voz, desabafa):
— Bug eterno? Você não passa de um vírus mal escrito.

Lobo Mau (exasperado e enraivecido, se vê tropeçando na própria armadilha que criou em torno de si mesmo);
— Não! Eu sou invencível! Eu sou… eu sou… eu...

A polícia entra fazendo um destampatório danado. O Lobo Mau, atarantado, tenta correr. Inopinadamente escorrega e cai diretamente no interior de uma caixa de reciclagem envidraçada. A geringonça se lacra sozinha, como se mãos invisíveis desse uma ajuda inesperada.

Chapeuzinho Vermelho se aproxima, batendo palmas. (As gargalhadas e olhando para o Lobo Mau diretamente em seus olhos, desabafa):
— Pois é, meu caro Lobo Mau. No fim, você continua sendo o mesmo sujeitinho que devassava a minha vida lá na floresta. Só que agora, você caiu na própria ratoeira… e ainda virou (risos sarcásticos) um amontoado de lixo reciclável. Tchauuuuuuuuu!

Lobo Mau, agarrado e sem saída, se debate à cata de uma fuga de última hora. Chorando copiosamente (a voz abafada dentro da caixa, vocifera):
— Eu… eu sou biodegradável…

Chapeuzinho Vermelho (sorrindo e completando as palavras que agora saiam de sua boca, vindas do mais fundo do seu coração):
— Bobão, se delicie provando do seu próprio veneno. Curta toda a raiva pela qual passei esses anos que me fez sofrer. É o fim da sua história nojenta. EU ESTOU LIVREEEEEEE!...

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Pedro Canário, no Espírito Santo, 3-4-2026

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