Enquanto a noite for somente a noite Viverei no orvalho da aurora.
Que não lamente a dor do desabrigo
Ou o sono sem sono onde pernoite.
Não tomarei a sombra pelo dia
Nem me resignarei a qualquer lâmpada.
A crueldade seja a esperança
De não ter ilusão na luz sombria.
Não me proponham Deus na escuridão
Ou a deusa assíria da vida:
Da existência queria quase tudo,
Da escuridão apenas escuridão.
Por mais que a ausência me açoite
A saudade regressa no momento
Na magnificência de um palácio;
Enquanto a noite for somente a noite.
Porque se sou gigante a outro ombro
Queria repousar só a cabeça,
Amar a ignorância do tempo
Naquele esplendor de breve cômoro.
Muito importará sabedoria
Mas não é a abundância da tarde
Ou a convicção feroz do meu orgulho:
A verdade é roupa tira tira.
A densidade sobre mim perdura
Mas nela não verei a luz do dia:
Enquanto a noite for somente a noite
Que seja até o fim a noite escura.
Joel Henriques
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