quarta-feira, 27 de maio de 2026

A guerra de Zema pertence a Zema

Rafael Nogueira

Outro dia escrevi que Flávio Bolsonaro e Romeu Zema ainda poderiam se entender. Hoje já acho improvável. Não impossível, porque política é a arte de administrar o improvável sem perder o juízo. Mas improvável.

Zema passou a tratar Flávio como apenas mais um candidato. Eis o erro. Flávio carrega, gostem ou não, a escolha de Jair Bolsonaro, que continua sendo a figura decisiva e insubstituível da direita popular brasileira. Pode-se gostar mais ou menos de seu jeito, de sua família, de sua história, mas fingir que Bolsonaro é só um ex-presidente calado na prisão é, no mínimo, imprudência.

A política não vive só de gestão. Ninguém decente despreza eficiência, conta em dia e responsabilidade fiscal. Mas política também é identidade, medo, esperança, lealdade, pertencimento e destino. Quem não entende isso acaba imaginando que uma eleição presidencial se resolve como licitação de toner. O eleitor não vota só em currículo, vota no que reconhece, no que teme perder, no que acredita defender.

A contenda entre Zema e Flávio tende a desgastar todo mundo. Desgasta o NOVO, desgasta o PL, e desgasta a direita brasileira, que deveria gastar suas energias olhando para Lula, para o aparelhamento institucional, para a insegurança pública, para a prática econômica desastrosa e para o vasto cemitério de promessas ditas progressistas, que infelizmente o Brasil insiste em respeitar.

Zema provavelmente pensa que está sendo fiel aos seus valores. Mas há fidelidades mal calibradas que são só teimosia. Insistir numa luta que não tem como ganhar, do modo como vem sendo travada, é ideia suicida. Pior: corre o risco de estender sua impopularidade ao próprio NOVO, partido que a duras penas se livrou da sombra de João Amoêdo para não acordar, anos depois, em situação que muitos já começam a julgar parecida.

O NOVO é um partido com gente digna, preparada, trabalhadora, patriota, conservadora, com vida real, família, profissão e vontade de servir. Digo isso em respeito ao campo político que ajudei a defender quando era muito menos confortável defendê-lo.

Lealdade é diferente de subserviência cega, mas levar divergência a espetáculo público, com aplauso garantido da esquerda e de todos que só desejam ver a direita brigando no corredor enquanto o país pega fogo, não é sequer inteligente.

Em Santa Catarina, por exemplo, NOVO e PL dialogam, conversam, compõem, somam forças, entendem que há uma hierarquia de perigos. Isso não é velha política, é política. A questão é evitar que se torne vulgar e desonesta ou ingênua e destrutiva. Tem que ser racional e moral.

Zema tem qualidades, não estou aqui para negá-las, mas a direita não precisa de uma guerra civil em miniatura para decidir quem é mais puro ou mais iluminado, precisa da unidade possível. A eleição de 2026 será uma disputa de implicações severas sobre muitas gerações adiante. Quem não entender isso vai ficar discursando sobre pureza e eficiência enquanto a máquina adversária, muito mais poderosa e muito menos ingênua, continuará fazendo o que sempre fez, ocupando espaços, dividindo inimigos e transformando cada vaidade da direita em instrumento de sua própria sobrevivência.

A disputa de Zema com Flávio pertence a Zema, não ao NOVO. E não deveria ser imposta a quem sabe que, numa guerra mal escolhida, até um ato de coragem pode ser só estupidez.

Título e Texto: Rafael Nogueira, O Dia, 27-5-2026

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