Alexandre Parafita
O Convento de Odivelas tinha como vigário um tal Frei Manuel de Macedo, frade Bernardo, pouco dado à virtude e grande comilão, a quem as freiras tinham posto a alcunha de Frei Colherão. Ele bem sabia que, nas suas costas, era assim que o apelidavam, mas nenhuma delas ousava, na sua presença, tratá-lo por essa alcunha.
Um dia, o frade vigário, amigo
de se meter com as freiras, encontrou na copa a linda madre Dona Inácia de
Noronha, muito hábil na confecção de apetitosos doces, que estava enchendo de
marmelada fresca uma grande quantidade de boiões.
Pé ante pé, chegou-se a ela,
regaçou-lhe a manta e beijou-a atrevidamente, ao ponto de, se ela não gritasse
e não lhe acudissem as despenseiras, sabe-se lá até onde chegaria a brutalidade
do Frei Colherão.
A abadessa interveio, mas,
tratando-se de clérigo tão eminente, abafou-se o escândalo. Desse modo, estava
salva a honra do convento, mas quem não se conformava com tal humilhação era a
freira Inácia, prometendo a si própria arranjar forma de se vingar.
Na véspera dos festejos de São
João Baptista, era esperado no convento para pregar, Frei Tomé da Anunciação de
Maria, que Dona Inácia sabia ser guloso como um cão e inimigo declarado de
todos os padres de S. Bernardo.
Como a fama da sua marmelada corria mundo, Frei Tomé não se conteve em ir bater à cela de Dona Inácia a mendigar um boiãozinho da sua tão apreciada compota.
A freira atendeu-o com o seu
melhor sorriso e levou-o à copa a ver os cinquenta potezinhos atestados de
marmelada e, quando o frade já aguava, Dona Inácia perguntou-lhe:
– Conhece Vossa Paternidade o
vigário Frei Colherão?
– De ginjeira – respondeu.
– Pois eu dou a Vossa
Paternidade tantos boiões desta marmelada quantas vezes disser a palavra “colherão”
amanhã no seu sermão!
Fechado o negócio, Frei Tomé
deu voltas e mais voltas aos borrões do sermão, até que achou forma de ganhar os
prometidos boiões de marmelada.
Chegada a hora do sermão,
perante a solenidade da audiência, e com o frade Manuel de Macedo na primeira
fila, principiou Frei Tomé com o florado costumeiro da pregação, falando de
flores e mais flores, que viessem coroar o glorioso mártir S. João Baptista,
para acrescentar:
– Colherão os anjos rosas?
Perguntava ele, e logo,
estendendo o braço na direção do Frei Manuel de Macedo, respondia:
– Colherão! Colherão!
Todas as cabeças se voltaram
para o visado. Mas o pregador, imperturbável, prosseguia:
– Colherão os anjos açucenas?
E estendendo o braço:
– Colherão! Colherão!
– E lírios e cravos e jasmins?
– Colherão! Collherão!
Frei Manuel de Macedo,
irritado e descontrolado, levantou-se do escano e, enquanto Frei Tomé,
serenamente, continuava “Colherão! Colherão!”, atirou os punhos crispados para
o pregador e gritou-lhe cá de baixo com toda a força da sua indignação:
– Colherão um raio que o parta
Vossa Paternidade!
Madre Inácia de Noronha estava
bem vingada. No dia seguinte, Frei Tomé, radiante, levava consigo na liteira e
nos albardões dos machos toda a marmelada do convento.
Título e Texto: Alexandre
Parafita, in “Lendas e Mitos dos Mosteiros e Conventos de Portugal”,
páginas 201/203; Digitação: JP, 30-5-2026
[Livros & Leituras] Lendas e Mitos dos Mosteiros e Conventos de Portugal

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