Partiste, e eu voltei à poesia para fixar o teu retrato inteiro,
mas, minha querida,
sou uma escuna ferida sem poetas a bordo
e não consigo desenhar do teu nome a ternura,
cantar a delicadeza do teu ser feminino
que se tornou inapreensível.
A minha memória trai-me e não me traz os eflúvios da tua presença.
As minhas mãos mordem as palavras e a minha boca
tem o sabor dos meus olhos e os meus olhos um mar que me sobeja.
E quero beijar-te na noite…, mas tudo me é efêmero.
Então percorro como um rei desapossado o vazio do nosso palácio
atento às coisas que deixaste, aos ritos a que me habituaste,
e vejo-me repetir os teus gestos, a pensar no que farias,
mas os meus gestos não são mais do que a pobre imitação
das últimas horas que viveste.
O palácio é, então, um deserto gelado, e não há fogo que me aqueça,
e eu tremo de frio… Tenho tanto frio, minha querida,
daquele frio que tinha o teu corpo em morte.
Manuel Cândido Pimentel, Casa da Calçada, 4-1-2024
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