domingo, 31 de maio de 2026

[As danações de Carina] Quando numa corrida a cegueira se torna o milagre daquele corredor que não enxerga um palmo adiante do nariz

Carina Bratt

BEM LÁ NO ALTO do Infinito, o sol quente e radioso, ainda não tinha rompido por completo o horizonte de rosto macio quando os corredores se alinharam. É bom que se diga, não havia cronômetros digitais, nem tênis de última geração. Se faziam presentes apenas os pais, os avós e outros familiares, além dos guias de cada competidor. Apesar de toda a ansiedade pelo início da batalha a ser travada e o silêncio terno da expectativa exuberante atrelado ao som dos passos em desalinho que logo ecoariam com força total pela longevidade do asfalto que se perdia de vista, pairava no ar um certo temor e receio.

Na corrida às cegas, não se corre apenas contra o tempo. Igualmente, de roldão, pairam no ar o medo tétrico e a escuridão medonha que insistem em se instalar dentro de cada um de maneira alarmante. Os olhos vendados dos partícipes revelam o que a visão teimava esconder: a confiança no outro. Guias seguros e à disposição dos meninos e meninas, seguravam fortemente as cordas, cordas essas leves como fios de esperança, e na hora precisa conduziriam o parceiro, caso ele se desviasse, do carreiro a ser vencido.

Cada passo nesse tipo de pugilato é uma espécie de pacto. O guia anuncia: -- Cuidado, buraco à frente, Logo em seguida, curva à direita, agora acelera... vai, vai...  E o corredor, entregue ao intruso do desconhecido, aprende a confiar cegamente naquilo que não vê. Descobre também que correr sem ver é como enxergar com o corpo sem vida, com o ouvido tampado e com o coração quase a saltar pela boca. Sobretudo com o coração prestes a explodir

O público ao longevo do caminho, observa. Alguns incrédulos, outros emocionados. Porque ali naquela corrida não há vencedores solitários. Há duplas que se tornam uma só respiração, um só ritmo, um só coração enorme, batendo alvissareiro como se englobasse todos os demais. A corrida cega é a metáfora da vida: na verdade, ninguém, por mais esperto e ladino que seja, não chega longe se estiver sozinho. Podem ter certeza que não.

No fim, não interessa quem cruza primeiro a linha. Importa sim, quem ousou correr sem olhos, mas com a coragem obstinada, ainda que amedrontada. Importa também quem descobriu que a verdadeira visão está no fio tênue da confiança. Correr sem ver um passo adiante do nariz é paradoxalmente, um exercício de visão interior. Nessa senda, a corrida mergulhada sem a ausência da luz, o que se perde nos olhos se ganha em consciência.

O corredor, vendado, descobre que o mundo que lhe foi tapado, não é apenas aquilo que se mostra diante da sua retina: é também o som dos passos, o cheiro cálido da manhã bonita, o calor das mãos que o guia lhe direciona. De igual forma, a confiança, nesse cenário, deixa de ser uma palavra abstrata e se torna matéria palpável. Cada aviso do guia, ‘curva à esquerda’, ‘atenção ao desnível’ soa magnamente como um convite à entrega total.

E nesse se entregar não é desistir, mas, acima de tudo, é aceitar que a vida é feita de sendas e carreiros que não controlamos nada por completo. O curioso nesse tipo de certame, é perceber no fundo do âmago como a corrida cega, ou melhor, a disputa as vistas tamponadas, revela algo que todos vivemos diariamente, ou seja, a cegueira infame diante do nosso futuro. No cotidiano do dia a dia, corremos, desembestamos precipitamos, propelimos, atrevemos sem saber o que nos espera no próximo passo, no minuto seguinte, ou pior, o perigo a nos espreitar na próxima esquina da existência.

E, ainda assim, a trancos e barrancos, seguimos sem medos, sem receios, sem meios termos. Talvez façamos isso porque no fundo, bem lá no fundinho do nosso ‘eu’ intuímos, ou dito de forma mais cálida, nos surpreendemos vislumbrando ainda que ausente a luz dos olhos, que ao nosso redor, sempre haverá alguém a nos guiar, ou melhor de tudo, alguma força além desse mundo cheio de altos e baixos, tipo uma força celestial, divina e magistral que virá do mais alto céu, para nos conduzir.

No fim, a linha de chegada não é apenas o ponto onde se encerra a prova. É o instante, ou aquele momento mágico, poderoso, em que se compreende que enxergar não é apenas ver. É sentir, confiar, partilhar, sobretudo partilhar. Compartir, aquinhoar um bocadinho de nós mesmos. A corrida sem nada ver, sem nada a enxergar, nos lembra que a vida, a nossa vida, em sua essência, é uma travessia feita de passos incertos, de trancos e barrancos, todavia, apesar dos pesares, mesclada de vínculos seguros.

‘A confiança, — no dizer de Santo Agostinho, ‘é um fio invisível que sustenta as nossas relações e dá o verdadeiro sentido às nossas escolhas’’. Seguindo o mesmo pensar, leciona Mário Sérgio Cortella, ‘a confiança não nasce pronta: ela é construída, passo a passo, testada e, muitas vezes, reconstruída mil vezes’. Pensando na corrida cega, euzinha acrescentaria, por minha conta e risco, que ‘a confiança se revela e se mostra, como um exercício diário de entrega total e de escuta constante’.

Em meu socorro, São João Maria Vianney acrescenta às minhas palavras, ‘que no fundo, tudo se revela como uma ponte enorme sobre águas procelosas tendo abaixo dela, um mar descontrolado e a vulnerabilidade duvidosa de um coração fechado a sete chaves com medo pavoroso de encarar o afoitamento, a valentia, o apetite arrojado de agarrar de unhas e dentes na coragem, sem titubear pensando em dar meia volta e enjeitar ou se curvar alienado de seguir em frente com receio de morrer afogado’.

‘A confiança, assim como na corrida cega, leciona o Padre Fábio de Melo, ‘não é sobre ver o caminho inteiro, mas sobre acreditar que alguém especial como um anjo estará ao nosso lado nos passos mais incertos. É uma espécie de pacto silencioso que nos permite avançar mesmo quando não enxergamos o futuro logo à frente’. Na corrida cega, o silêncio é mais eloquente que o som dos passos. O corredor, vendado, não vê o chão que pisa, tampouco a linha de chegada que o espera. Mas vê, de outra forma’. E concluiu: ‘Sente, dentro de seu peito, aquilo que sustenta o mundo: a total confiança em quem segura fortemente a sua mão.

É curioso, percebo no correr dos meus dias, ou mais precisamente observando as pessoas ao meu entorno, como, certas criaturas, ao perder a visão dada pelo Pai Maior, ele ganha outra. Como assim, ganha outra? Eu explico. Ele, o corredor, sem a visão benfazeja fica sem rumo, sem prumo, sem direção. Um exemplo bobo: o semáforo verde, de repente ficou vermelho. Diante desse imprevisto, o corredor aprende a enxergar pelo timbre da voz que o guia emite, ou pelo toque firme da corda que os une.

Igualmente pelo ritmo compartilhado que ele lhe está sinalizando. Cada aviso de comando, ‘agora acelera’, ‘cuidado com o desnível’ é mais que instrução: é a promessa segura e nítida do verdadeiro sentido daquilo que conhecemos como ‘cuidado’’. E não é isso que fazemos todos os dias? Pensem, minhas queridas leitoras das minhas ‘Danações’ dominicais. Caminhamos pela vida afora, seguimos avante sem saber o que nos aguarda na próxima esquina. Não temos garantias, apenas a Fé de que alguém, ou algo, nos conduzirá.

A confiança é o que nos permite seguir, mesmo quando o futuro é um território de bandeira literalmente escura. Na corrida cega, não há espaço para a dúvida. Tampouco para a incerteza. Ou é ou deixa de ser. Se ela aparece, o corpo hesita, o cérebro entra em confusão, os passos falham. Mas quando a confiança se instala, o corredor descobre que pode ir além do que ele imaginava. Confiar é se libertar do controle absoluto de estar só e aceitar que o outro também é parte da jornada.

Por derradeiro, a linha de chegada não é e nem se mostra apenas como o ponto final da prova. Vai mais aquém. Deixa às claras, a revelação maviosa de que a confiança é a verdadeira vitória. Sem ela, Meu Pai Eterno, sem ela, não há corrida, não há vida, menos ainda vitórias. Com ela, uau... com ela, cada passo, cada centímetro vencido é possível e fica concreto e límpido. Num todo magnânimo, se mostra sobejamente mensurado e palpável. E o mais importante: mesmo diante da maior e mais penumbrosa escuridão, um milagre RESPLANDESCE.

Título e Texto: Carina Bratt, de Conceição do Castelo, no Espírito Santo, 31-5-2026

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