Bruxelas reclama lugar nas negociações, mas Moscovo recusa-a como mediadora e Washington já não a consulta
António Justo
A União Europeia encontra-se hoje perante uma contradição diplomática de difícil resolução: após a escalada do conflito em 2022, os aliados ocidentais de Kiev romperam laços com Moscovo e adoptaram uma estratégia de isolamento total da Rússia, e agora vê-se excluída das negociações de paz que se desenvolvem sem a sua presença efetiva.
Estão em curso negociações
trilaterais com os Estados Unidos, a Federação Russa e a Ucrânia nos Emirados
Árabes Unidos, o que coloca em evidência o papel marginal da UE nos esforços
diplomáticos para pôr termo à guerra que decorre no seu próprio continente. O
Parlamento Europeu reconheceu formalmente que a marginalização da UE destas
conversações é uma consequência direta da sua incapacidade de seguir uma
estratégia diplomática autónoma, caracterizada pela ausência de iniciativa
própria e por uma dependência excessiva de abordagens militarizadas, alinhadas
pelos EUA e pela NATO.
Perante este impasse, a Alta Representante da UE, Kaja Kallas, admitiu abertamente que a Europa nunca será um mediador neutro entre a Rússia e a Ucrânia, porque está do lado da Ucrânia e defende os seus próprios interesses de segurança fundamentais. A declaração, ao reconhecer publicamente a perda de neutralidade, terá agravado as perspectivas de Bruxelas participar nas negociações. Moscovo, pela voz do ministro Lavrov, classificou as condições impostas pela UE como “idióticas”, e acusou a União Europeia de praticar “diplomacia de megafone”, emitindo ultimatos públicos em vez de procurar negociações substantivas.
Internamente, a UE debate-se
com a questão de quem a poderia representar junto de Moscovo. Kallas alertou
que não se deve cair na “armadilha” russa de discutir quem deverá representar a
Europa em eventuais negociações, sublinhando que qualquer processo negocial
deve ser conduzido como um esforço coletivo. Mas a posição não convence todos
os Estados-membros: inteligentemente, o primeiro-ministro português Luís
Montenegro voltou a defender que é preciso dialogar com a Rússia para alcançar
“uma paz justa e duradoura na Ucrânia” e incentivou a Europa a “tomar a
iniciativa” de um processo de paz bilateral (1).
Entretanto, a fatura continua
a crescer. A população europeia não beneficia em nada desta estratégia e, pior
ainda, terá de pagar a conta da guerra, como se vê no apelo de Von der Leyen de
135 mil milhões de euros aos Estados-membros para 2026-27. Sob a administração
Trump, os Estados Unidos abandonaram a estratégia de isolamento da Rússia e
reposicionaram-se como mediadores do processo de paz, deixando Bruxelas a
reivindicar um papel central numa mesa onde, por ora, não tem assento.
A nação que teme os seus
inimigos busca amigos. A nação que confia nos seus amigos perde-se a si mesma.
A Ucrânia fez as duas coisas ao esquecer que o que move Bruxelas são interesses
alheios.
___________
(1) Bruxelas, em questões de geopolítica tem agido
contra a Europa, sem conceito próprio, contra a sua posição geográfica, ignorou
as intenções dos EUA contra interesses europeus e contra a Rússia depois da
quedo da União Soviética.
Tem castigado em vão os seus cidadãos, mas o pior ainda é que devido à conivência da sua narrativa com a mídia sobre a Ucrânia e a Rússia, tem tirado a capacidade crítica à generalidade dos seus cidadãos que se comporta como rebanho de um pastor que os leva para a sua venda! Bruxelas revela-se como tendo abandonado o humanismo cultural europeu e a capacidade diplomática em favor do confronto e do globalismo liberalista, que, no seu dogmatismo, revela ter uma atitude de imperialismo mental!
Título, Imagem e Texto: António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas:
filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão,
dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do
blog Pegadas do Tempo.
Via ContraCultura,
1-6-2026
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