segunda-feira, 1 de junho de 2026

A União Europeia à margem da paz que negociou

Bruxelas reclama lugar nas negociações, mas Moscovo recusa-a como mediadora e Washington já não a consulta

António Justo

A União Europeia encontra-se hoje perante uma contradição diplomática de difícil resolução: após a escalada do conflito em 2022, os aliados ocidentais de Kiev romperam laços com Moscovo e adoptaram uma estratégia de isolamento total da Rússia, e agora vê-se excluída das negociações de paz que se desenvolvem sem a sua presença efetiva.

Estão em curso negociações trilaterais com os Estados Unidos, a Federação Russa e a Ucrânia nos Emirados Árabes Unidos, o que coloca em evidência o papel marginal da UE nos esforços diplomáticos para pôr termo à guerra que decorre no seu próprio continente. O Parlamento Europeu reconheceu formalmente que a marginalização da UE destas conversações é uma consequência direta da sua incapacidade de seguir uma estratégia diplomática autónoma, caracterizada pela ausência de iniciativa própria e por uma dependência excessiva de abordagens militarizadas, alinhadas pelos EUA e pela NATO.

Perante este impasse, a Alta Representante da UE, Kaja Kallas, admitiu abertamente que a Europa nunca será um mediador neutro entre a Rússia e a Ucrânia, porque está do lado da Ucrânia e defende os seus próprios interesses de segurança fundamentais. A declaração, ao reconhecer publicamente a perda de neutralidade, terá agravado as perspectivas de Bruxelas participar nas negociações. Moscovo, pela voz do ministro Lavrov, classificou as condições impostas pela UE como “idióticas”, e acusou a União Europeia de praticar “diplomacia de megafone”, emitindo ultimatos públicos em vez de procurar negociações substantivas.

Internamente, a UE debate-se com a questão de quem a poderia representar junto de Moscovo. Kallas alertou que não se deve cair na “armadilha” russa de discutir quem deverá representar a Europa em eventuais negociações, sublinhando que qualquer processo negocial deve ser conduzido como um esforço coletivo. Mas a posição não convence todos os Estados-membros: inteligentemente, o primeiro-ministro português Luís Montenegro voltou a defender que é preciso dialogar com a Rússia para alcançar “uma paz justa e duradoura na Ucrânia” e incentivou a Europa a “tomar a iniciativa” de um processo de paz bilateral (1).

Entretanto, a fatura continua a crescer. A população europeia não beneficia em nada desta estratégia e, pior ainda, terá de pagar a conta da guerra, como se vê no apelo de Von der Leyen de 135 mil milhões de euros aos Estados-membros para 2026-27. Sob a administração Trump, os Estados Unidos abandonaram a estratégia de isolamento da Rússia e reposicionaram-se como mediadores do processo de paz, deixando Bruxelas a reivindicar um papel central numa mesa onde, por ora, não tem assento.

A nação que teme os seus inimigos busca amigos. A nação que confia nos seus amigos perde-se a si mesma. A Ucrânia fez as duas coisas ao esquecer que o que move Bruxelas são interesses alheios. 

___________

(1) Bruxelas, em questões de geopolítica tem agido contra a Europa, sem conceito próprio, contra a sua posição geográfica, ignorou as intenções dos EUA contra interesses europeus e contra a Rússia depois da quedo da União Soviética.

Tem castigado em vão os seus cidadãos, mas o pior ainda é que devido à conivência da sua narrativa com a mídia sobre a Ucrânia e a Rússia, tem tirado a capacidade crítica à generalidade dos seus cidadãos que se comporta como rebanho de um pastor que os leva para a sua venda! Bruxelas revela-se como tendo abandonado o humanismo cultural europeu e a capacidade diplomática em favor do confronto e do globalismo liberalista, que, no seu dogmatismo, revela ter uma atitude de imperialismo mental! 

Título, Imagem e Texto: António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo. Via ContraCultura, 1-6-2026

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