Carina Bratt
AS PESSOAS, que se dizem entendidas no amor, geralmente professam escancaradamente que ele se dá ou se constrói por inteiro, que chega devagar, que chega sem pressa e em surdina. Outros mais moderados, afirmam em alto e bom som e de pés juntos, que ele precisa ser conquistado.
Euzinha, do alto da minha pouca
experiência, acho que aquele amor tido como bonito e verdadeiro, indestrutível
e acima de qualquer suspeita chega movido pela vontade, pelo desejo e
obviamente pela escolha. Esse amor é o que conheço como verdadeiro. É aquele
amor que entra sem bater palmas, sem tocar a campainha, sem fazer alarde.
O amor verdadeiro pega a gente distraída,
assim meio que de surpresa pelada, sem nada, e se instala de forma duradoura
onde deveria estar. E onde deveria estar? No coração, na alma, no mais profundo
do nosso âmago. Esse amor se faz eterno e imorredouro. Se faz coeso, grudento,
indissolúvel. Se for bem cuidado, com carinho pode durar uma vida inteira.
E o amor roubado? Entendam amor roubado,
aquele amor tomado na marra, na força, no tapa, ou seja, o que é tirado de nós
por debaixo dos panos. O amor roubado ao qual faço referência, quero deixar bem
claro, para que se faça entendido se trata daquele amor pego à força, no tapa,
furtado, roubado, surrupiado com más intenções.
O amor roubado vem com o rosto encoberto, sem mostrar seu âmago, se faz carecido, é sonso e dissimulado. Não é puro, nem cristalino. No fundo, a intenção é unicamente a de fazer algum tipo de mal perverso, provocar um dano, visando prejudicar alguém. O amor roubado, nasce assim, no espaço oco, cresce num cantinho obscuro e ataca.
O amor roubado tem por norma, a conduta
negra, a insistência intrigante e infame de se alimentar do vazio, de tentar
sobreviver do nada. Essa droga se vangloria em pequenos gestos bobos e
corriqueiros. Se condiciona num olhar por vezes distraído, perdido, sem
direção, e por conta disso, se alonga, procrastina, demora mais do que devia.
O amor roubado tem o condão de encantar
numa palavra dita com um tom que ‘não era só de amizade’. Ele chega num
silêncio que diz mais do que qualquer frase pronta, ou mesmo permitida. É o
sentimento sujo que toma forma e floresce à margem do que não é ou não foi
combinado, do que não é seguro, porém, a sociedade e a consciência dizem que é
certo. E o certo, nesse caso é malévolo.
A sociedade, na maioria das vezes se
engana. Erra feio e, no fim, não entende nada. O amor verdadeiro a gente vive
com medo de perder; faz com que nos prostremos meio que escondido, muitas das
vezes chegamos ao ponto de transformar o banal em segredos. O amor roubado, em
oposto, sempre em oposto, se mostra em mensagens apagadas, em sorrisos contidos
diante das pessoas.
No furto, no pegar, no tomar na marra do
amor roubado, estão incluídas aquelas pessoas do nosso convívio diário, aquelas
criaturas metidas a ‘santinhas do pau oco’ que orbitam ao nosso redor que fazem
parte do nosso cotidiano. Esses seres sem luz própria entendem que esse momento
do roubo é uma pequena conquista, mas também visto por outra ótica, se faz
recheado de pequenas grandes culpas.
A alegria dos que nos roubam o amor, é
intensa, se faz muitas das vezes em mensagens apagadas, em sorrisos e gestos
contidos. Essas supostas alegrias, repito, são intensas, e creiam, vem sempre
acompanhadas de um peso que pode quebrar a balança. O que isso quer dizer? O
simples ato de saber que ele foi tirado nem sempre de alguém, mas das regras
básicas, da rotina da própria paz.
Com o tempo a gente acorda, se liga, fica
esperta e percebe que o que é tomado sem permissão nunca se encaixa bem. O amor
que é roubado, surrupiado, não tem raízes profundas, não respira livre. Vive
eternamente na sombra ofuscada e a sombra difusa, acaba por destruir, ou pior,
pugna por consumir o que parecia bonito.
Pelo menos aos nossos olhos. O amor
roubado pode até brilhar, se enaltecer por um momento, mas na realidade a sua
vida dura pouco. Dura pouco porque todo sentimento precisa de luz para se
encaixar. O que se esconde, acaba perdendo o viço, a forma, a força, o vigor, o
motivo. A razão.
Mesmo trilho, a vontade e o desejo, a
conexão, deixando apenas a lembrança de algo que na verdadeira acepção da
palavra, nunca chegou a ser completamente e verdadeiramente INTEIRO. O amor de
fato, o amor verdadeiro, o gostar sem manchas, sem nódoas, nos deixa uma lição:
a lição de que o amor verdadeiro não precisa, tampouco carece de ser levado de
lugar nenhum, ou tirado de alguém que vive em nosso dia a dia. Ele se torna
efêmero.
O amor verdadeiro deve ser dado,
recebido, sobretudo vivido com toda e completa liberdade. O amor verdadeiro
emerge do mais profundo do nosso ‘eu’, e, por conta, necessita de uma coisinha
simples: a dignidade magnânima da liberdade.
Liberdade sem meios termos. Aquela
liberdade alvissareira, aquela aclamação assentida que todo amor tido e
reconhecido como sério e precioso, cá entre nós, todos, indistintamente,
merecemos vivenciar envoltos na mais pura comunhão com o Pai Maior. E viva o
AMOR.
Título e Texto: Carina Bratt, de
Vila Velha, ES, 28-6-2026
Cochinchina
O Cérbero guardião de um mundo impenetrável
Nada além de um verdadeiro caos total

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-