domingo, 28 de junho de 2026

[As danações de Carina] Sobre o amor

Carina Bratt

AS PESSOAS, que se dizem entendidas no amor, geralmente professam escancaradamente que ele se dá ou se constrói por inteiro, que chega devagar, que chega sem pressa e em surdina. Outros mais moderados, afirmam em alto e bom som e de pés juntos, que ele precisa ser conquistado.

Euzinha, do alto da minha pouca experiência, acho que aquele amor tido como bonito e verdadeiro, indestrutível e acima de qualquer suspeita chega movido pela vontade, pelo desejo e obviamente pela escolha. Esse amor é o que conheço como verdadeiro. É aquele amor que entra sem bater palmas, sem tocar a campainha, sem fazer alarde.

O amor verdadeiro pega a gente distraída, assim meio que de surpresa pelada, sem nada, e se instala de forma duradoura onde deveria estar. E onde deveria estar? No coração, na alma, no mais profundo do nosso âmago. Esse amor se faz eterno e imorredouro. Se faz coeso, grudento, indissolúvel. Se for bem cuidado, com carinho pode durar uma vida inteira.

E o amor roubado? Entendam amor roubado, aquele amor tomado na marra, na força, no tapa, ou seja, o que é tirado de nós por debaixo dos panos. O amor roubado ao qual faço referência, quero deixar bem claro, para que se faça entendido se trata daquele amor pego à força, no tapa, furtado, roubado, surrupiado com más intenções.

O amor roubado vem com o rosto encoberto, sem mostrar seu âmago, se faz carecido, é sonso e dissimulado. Não é puro, nem cristalino. No fundo, a intenção é unicamente a de fazer algum tipo de mal perverso, provocar um dano, visando prejudicar alguém. O amor roubado, nasce assim, no espaço oco, cresce num cantinho obscuro e ataca.

O amor roubado tem por norma, a conduta negra, a insistência intrigante e infame de se alimentar do vazio, de tentar sobreviver do nada. Essa droga se vangloria em pequenos gestos bobos e corriqueiros. Se condiciona num olhar por vezes distraído, perdido, sem direção, e por conta disso, se alonga, procrastina, demora mais do que devia.

O amor roubado tem o condão de encantar numa palavra dita com um tom que ‘não era só de amizade’. Ele chega num silêncio que diz mais do que qualquer frase pronta, ou mesmo permitida. É o sentimento sujo que toma forma e floresce à margem do que não é ou não foi combinado, do que não é seguro, porém, a sociedade e a consciência dizem que é certo. E o certo, nesse caso é malévolo.

A sociedade, na maioria das vezes se engana. Erra feio e, no fim, não entende nada. O amor verdadeiro a gente vive com medo de perder; faz com que nos prostremos meio que escondido, muitas das vezes chegamos ao ponto de transformar o banal em segredos. O amor roubado, em oposto, sempre em oposto, se mostra em mensagens apagadas, em sorrisos contidos diante das pessoas.

No furto, no pegar, no tomar na marra do amor roubado, estão incluídas aquelas pessoas do nosso convívio diário, aquelas criaturas metidas a ‘santinhas do pau oco’ que orbitam ao nosso redor que fazem parte do nosso cotidiano. Esses seres sem luz própria entendem que esse momento do roubo é uma pequena conquista, mas também visto por outra ótica, se faz recheado de pequenas grandes culpas.

A alegria dos que nos roubam o amor, é intensa, se faz muitas das vezes em mensagens apagadas, em sorrisos e gestos contidos. Essas supostas alegrias, repito, são intensas, e creiam, vem sempre acompanhadas de um peso que pode quebrar a balança. O que isso quer dizer? O simples ato de saber que ele foi tirado nem sempre de alguém, mas das regras básicas, da rotina da própria paz.

Com o tempo a gente acorda, se liga, fica esperta e percebe que o que é tomado sem permissão nunca se encaixa bem. O amor que é roubado, surrupiado, não tem raízes profundas, não respira livre. Vive eternamente na sombra ofuscada e a sombra difusa, acaba por destruir, ou pior, pugna por consumir o que parecia bonito.

Pelo menos aos nossos olhos. O amor roubado pode até brilhar, se enaltecer por um momento, mas na realidade a sua vida dura pouco. Dura pouco porque todo sentimento precisa de luz para se encaixar. O que se esconde, acaba perdendo o viço, a forma, a força, o vigor, o motivo. A razão.

Mesmo trilho, a vontade e o desejo, a conexão, deixando apenas a lembrança de algo que na verdadeira acepção da palavra, nunca chegou a ser completamente e verdadeiramente INTEIRO. O amor de fato, o amor verdadeiro, o gostar sem manchas, sem nódoas, nos deixa uma lição: a lição de que o amor verdadeiro não precisa, tampouco carece de ser levado de lugar nenhum, ou tirado de alguém que vive em nosso dia a dia. Ele se torna efêmero.

O amor verdadeiro deve ser dado, recebido, sobretudo vivido com toda e completa liberdade. O amor verdadeiro emerge do mais profundo do nosso ‘eu’, e, por conta, necessita de uma coisinha simples: a dignidade magnânima da liberdade.

Liberdade sem meios termos. Aquela liberdade alvissareira, aquela aclamação assentida que todo amor tido e reconhecido como sério e precioso, cá entre nós, todos, indistintamente, merecemos vivenciar envoltos na mais pura comunhão com o Pai Maior. E viva o AMOR.

Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, ES, 28-6-2026

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