Carina Bratt
NAQUELE APARTAMENTO, o barulho ensurdecedor pulsava constante. A mãe falava alto, sempre aos berros e as suas palavras se perdiam no ar, sumiam no vento, como se fossem apenas mais um som entre tantos. Os filhos, indiferentes, não obedeciam. Cada um mergulhado na tela do celular, se tornara companhia inseparável nas refeições. Reinava soberano entre o café da manhã, o almoço, o lanche da tarde e o jantar… sempre com o aparelho ao lado, como se fosse mais importante as merdas vistas, que os pratos de comidas servidos à mesa.
Em paralelo, na cozinha, a pia acumulava
um amontoado de louças estocadas a bel prazer. Ninguém se oferecia para lavar
um prato. Os banhos que deveriam ser indispensáveis, se viam adiados,
esquecidos, deixados de lado, como se a rotina básica de higiene tivesse
perdido o seu real valor. E, em meio a tudo isso, as vozes dos filhos ecoavam
ainda mais altas que a da mãe, numa disputa de volume que não tinha vencedores,
apenas um saco de gatos miando fora de tom. A bem da verdade, naquele pedaço de
chão, se constituía numa prole que vivia junta, mas cada um divorciado da
consanguinidade, ou seja, cada um, enfurnado em seu próprio mundo particular e
digital.
O dia a dia, que deveria ser espaço de
encontros e cuidados, se transformara em um palco de desencontros e ruídos. O
silêncio verdadeiro, aquele que necessariamente prestaria a pairar sobre todos,
nunca chegava. Alardeava a sensação tenebrosa de que todos falavam, ou melhor,
berravam, mas ninguém realmente se dava ao luxo de escutar. Naquele
apartamento, onde dominava o furdunço, tinha companhia um ser de quatro patas.
Enquanto a mãe gritava e os filhos falavam ainda mais alto, todos se reuniam na
sala para comer, ou tão somente para mandar para a barriga o café da manhã, bem
ainda para o almoço ou o jantar, sempre lembrando, com o Tik Tok batendo
continência.
O cachorro, esperto e atrevido, aproveitava a oportunidade: pulava no sofá como se fosse mais um integrante da prole e, sem que houvesse impedimento, o danado metia o focinho no prato, comendo como se um ser humano fosse. A cena espúria e pervertida, se fundava e se fundia aos olhos de quem vinha de fora, para lá de depravada, embora a maioria entendesse aquele absurdo como imprudente e descomedido. Tipo um caos abastardado e sem fim. As louças cotidianas seguiam firmes acumuladas na pia. Lembrava um prédio alto abandonado aos reveses do tempo.
Na hora de dormir os banhos fugiam
esquecidos. Escovar os dentes, nem pensar! Do jeito que vinham da rua, fosse da
escola ou dos folguedos com os moleques da vizinhança, cada um se atirava na
cama e tudo acabava num amontoado de sujidades cada vez mais crescente. Nesse
norte, o lar, em vez de um refúgio, se tornara palco de pura desordem e
anarquia, onde ninguém realmente se escutava.
Por conta, o animalzinho, parecia entender melhor que todos a dinâmica
do que os próprios moradores que ao lado dele conviviam, deixavam jogado às
traças.
O irracional (aliás, bem racional), se
abancava entre os interligados pelos mesmos elos consanguíneos, abanava o rabo
como quem diz ‘finalmente, minha hora chegou’ e, sem melindres, o danadinho se
deitava e partia para seus sonhos de cachorro enfiando o focinho entre os
rostos das crianças e saia do ar, como se fosse um rei. Quase humano, ou para
lá de... o animal se prostrava por vezes mais educado que os próprios
aparentados (entre aspas).
Na cozinha, o espetáculo seguia sem
modificações. Um armário guardava pelo menos uns cinquenta copos plásticos e
outros de vidro. Entretanto, todos terminavam sujos e embolados na pia pequena,
ou melhor, se acomodavam numa cuba de espaço minúsculo que não dava vazão ao
acúmulo da montanha de louças as mais diversificadas.
Com eles, pratos, garfos, colheres,
panelas, frigideiras, coador de café, facas e xícaras, se aglomeravam
empastelados como se esperassem, pacientemente, por um milagre. Alguns itens
até se quedavam esquecidos no chão, onde, ao léu, se banqueteavam formigas e
baratas, moscas e outros seres amantes da falta de limpeza, formando uma crosta
macabra de emporcalhados cada vez mais diversificada. No geral grosso modo,
todos faziam parte de uma família que falava alto, que berrava alcandorado, a
ponto de nenhum ser normal se fazer ouvir.
E no meio do olho da desordem, o único
que parecia realmente confortável (apesar do seu mundinho canino) sem dúvida
alguma, o cachorro vivendo a sua vida melosa e sarcástica, convencido de que
aquele lar caótico e à sanha constante de ataques de loucuras fora feito sob
medida para ele. A geladeira nova, coitada, ficava mais tempo aberta que
fechada. Se assemelhava a uma vitrine de supermercado particular. Nela, a água,
os sucos e os refrigerantes se quedavam consumidos nas próprias garrafas.
Se chegasse uma visita, fatalmente a
criatura beberia o resto de alguém. Terminando a desfaçatez e o delírio
reinantes, a televisão não ficava por baixo. Em entonação super alta, fustigava
os tímpanos dos apartamentos dos andares inferiores e superiores e, de roldão,
se irmanava a balburdia, os gritos vindos de todos os lados. Passava, aos
demais condôminos, a sensação, de que naquele edifício morava uma versão com
características de uma espécie de hospício. O cachorro, claro, observava tudo
com seus olhos melosos, como quem pensa: ‘Ah, humanos… tão sofisticados e
higiênicos.’ Sarcástico, o pulguento
seguia altaneiro. Parecia o único realmente feliz ali, convencido, aliás, de
que estava no melhor espetáculo da cidade, com direito a sofá, pratos
compartilhados e uma plateia que nunca se calava.
Os que observavam (de fora), achavam
aquela família desequilibrada, onde a imundície imperava, fosse no tapete, na
pia, no banheiro, juntando a isso, o cachorro fazendo cocô no meio da sala. Não
só o cocô, mijando e soltando suas necessidades nas camas, se coçando,
espalhando pulgas, enfim, uma balburdia sem precedentes. As perguntas finais
que deixarei no ar: como essas pessoas (notadamente os filhos vão se portar lá
adiante, no porvindouro?).
Duas moças, ninguém se importando com um
copo ou um prato. É certo, quando casarem, precisarão arranjar um cara rico,
bom de bolso, um sujeito de ‘posses’, um babaca que banque uma empregada
esperta e despachada. As duas moças moradoras desse apê, não sabem fritar um
ovo, fazer um arroz, nem passar um simples café. Mas, lado outro, se abancarem
nos quartos trancadas o dia todo com seus namorados...
Nesse tom, algumas questões extrapolam.
Euzinha insisto veementemente: como viverão essas dondocas de hoje, com seus
futuros maridos? De fora, quem olha para aquela casa, ou melhor dito, para
aquela família, não vê um lar, se ‘abestalha’ com um espetáculo de loucuras. Os
desejos imperam em todos os cantos: o tapete manchado, a pia abarrotada, o
banheiro fedendo a podre, além de esquecido. O cachorro, soberano, segue
fazendo cocô no meio da sala e mijando nas camas, nos sofás, nos lençóis, como
se fosse dono do território.
Aliás, é. A televisão, em comum acordo,
grita junto com a mãe e os filhos, e o ambiente inteiro parece um estádio de
futebol com plateias de torcedores de times rivais, onde cada voz compete para
ser a mais tonitruante. As duas moças aqui citadas cresceram nesse cenário.
Seguiram adiante sem nunca lavarem um copo, ou um prato, sem saber, sobretudo,
cozinhar uma panela de feijão ou coar um café.
Meu Pai Eterno, essas ‘futuras donas de
casa’ como, de que forma, cuidarão da própria vida, bem ainda dos filhos e dos
maridos? De fora, quem olha para essa família, se dá conta de um retrato negro
do desequilíbrio. Todos, mãe, pai, filhos, consomem os dias grudados no
celular, seja jogando ou assistindo programas que nem o capeta chupando manga
teria paciência de ver. A sujeira reina na sala e os emporcalhados não trazidos
à baila, se acotovelam pelo tapete, se condensam pela pia, se avolumam pelo
banheiro. É uma balbúrdia ‘orrorosa’ e sem precedentes. Um hospício disfarçado
de manicômio, o que, aliás, dá no mesmo.
A lição de moral que pretendo deixar,
surge, pois, como indagações inevitáveis e sem respostas: como essas moças,
amanhã donas de casa, casadas, juntadas ou amigadas, cuidarão da própria vida,
dos filhos e dos maridos? Se não aprenderam a mover um copo, não especularam a
como lavar um prato, se não esquadrinharam a fazer um arroz ou um simples café,
que futuro terão? Final das contas, essa casa onde nasceram, cresceram e
viveram, não se fará apenas num retrato de bagunça. Mais que isso, se
fortificará num espelho imenso e cristalino.
Um espelho enorme e grandioso, a bem da
verdade nua e crua, que mostrará limpidamente uma série de vícios coletivo:
onde todos, mãe, pai, filhos, mergulhados de bundas sujas nos celulares,
jogando, rolando telas para cima e para baixo, num gesto sem fim, ou assistindo
a programas tão vazios que nem o coisa ruim teria paciência de acompanhar.
Atentem que me tornei repetitiva, até demais da conta, para deixar bem claro e
sinalizado como as pessoas, hoje em dia, vivem às margens da própria
‘deseducação’, ou de uma educação que deveria vir de casa, de berço, de
raiz.
Reza a lenda, quem não aprendeu a cuidar
do próprio espaço, ou dito de forma, mais abrangente, aquele que não se ateve a
cuidar do próprio tempo e da vida, cedo ou tarde concluirá que não há celular,
televisão ou marido rico que resolva o vazio de não saber projetar em como
absolver os problemas que forem surgindo.
Esse desfecho, aos esbugalhos de nosso
humilde entendimento funcionará como uma crítica universal, tipo uma ‘cartilha
construtiva’, que não aponta apenas para as moças, obviamente joga na berlinda
todos os membros da família, mostrando que o amanhã cobra caro. Aos goles
poucos, o porvir se desmoronará com tudo o que tem direito pelos hábitos do
ontem ‘mal-arranjado’ e, por via outra, não conseguirá chegar vivo e sadio aos
dias de hoje.
Título e Texto: Carina Bratt, de Pequiá, ES, 7-6-2026
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