domingo, 7 de junho de 2026

[As danações de Carina] Nada além de um verdadeiro caos total

Carina Bratt

NAQUELE APARTAMENTO, o barulho ensurdecedor pulsava constante. A mãe falava alto, sempre aos berros e as suas palavras se perdiam no ar, sumiam no vento, como se fossem apenas mais um som entre tantos. Os filhos, indiferentes, não obedeciam. Cada um mergulhado na tela do celular, se tornara companhia inseparável nas refeições. Reinava soberano entre o café da manhã, o almoço, o lanche da tarde e o jantar… sempre com o aparelho ao lado, como se fosse mais importante as merdas vistas, que os pratos de comidas servidos à mesa.

Em paralelo, na cozinha, a pia acumulava um amontoado de louças estocadas a bel prazer. Ninguém se oferecia para lavar um prato. Os banhos que deveriam ser indispensáveis, se viam adiados, esquecidos, deixados de lado, como se a rotina básica de higiene tivesse perdido o seu real valor. E, em meio a tudo isso, as vozes dos filhos ecoavam ainda mais altas que a da mãe, numa disputa de volume que não tinha vencedores, apenas um saco de gatos miando fora de tom. A bem da verdade, naquele pedaço de chão, se constituía numa prole que vivia junta, mas cada um divorciado da consanguinidade, ou seja, cada um, enfurnado em seu próprio mundo particular e digital.

O dia a dia, que deveria ser espaço de encontros e cuidados, se transformara em um palco de desencontros e ruídos. O silêncio verdadeiro, aquele que necessariamente prestaria a pairar sobre todos, nunca chegava. Alardeava a sensação tenebrosa de que todos falavam, ou melhor, berravam, mas ninguém realmente se dava ao luxo de escutar. Naquele apartamento, onde dominava o furdunço, tinha companhia um ser de quatro patas. Enquanto a mãe gritava e os filhos falavam ainda mais alto, todos se reuniam na sala para comer, ou tão somente para mandar para a barriga o café da manhã, bem ainda para o almoço ou o jantar, sempre lembrando, com o Tik Tok batendo continência.

O cachorro, esperto e atrevido, aproveitava a oportunidade: pulava no sofá como se fosse mais um integrante da prole e, sem que houvesse impedimento, o danado metia o focinho no prato, comendo como se um ser humano fosse. A cena espúria e pervertida, se fundava e se fundia aos olhos de quem vinha de fora, para lá de depravada, embora a maioria entendesse aquele absurdo como imprudente e descomedido. Tipo um caos abastardado e sem fim. As louças cotidianas seguiam firmes acumuladas na pia. Lembrava um prédio alto abandonado aos reveses do tempo. 

Na hora de dormir os banhos fugiam esquecidos. Escovar os dentes, nem pensar! Do jeito que vinham da rua, fosse da escola ou dos folguedos com os moleques da vizinhança, cada um se atirava na cama e tudo acabava num amontoado de sujidades cada vez mais crescente. Nesse norte, o lar, em vez de um refúgio, se tornara palco de pura desordem e anarquia, onde ninguém realmente se escutava.  Por conta, o animalzinho, parecia entender melhor que todos a dinâmica do que os próprios moradores que ao lado dele conviviam, deixavam jogado às traças. 

O irracional (aliás, bem racional), se abancava entre os interligados pelos mesmos elos consanguíneos, abanava o rabo como quem diz ‘finalmente, minha hora chegou’ e, sem melindres, o danadinho se deitava e partia para seus sonhos de cachorro enfiando o focinho entre os rostos das crianças e saia do ar, como se fosse um rei. Quase humano, ou para lá de... o animal se prostrava por vezes mais educado que os próprios aparentados (entre aspas).

Na cozinha, o espetáculo seguia sem modificações. Um armário guardava pelo menos uns cinquenta copos plásticos e outros de vidro. Entretanto, todos terminavam sujos e embolados na pia pequena, ou melhor, se acomodavam numa cuba de espaço minúsculo que não dava vazão ao acúmulo da montanha de louças as mais diversificadas.

Com eles, pratos, garfos, colheres, panelas, frigideiras, coador de café, facas e xícaras, se aglomeravam empastelados como se esperassem, pacientemente, por um milagre. Alguns itens até se quedavam esquecidos no chão, onde, ao léu, se banqueteavam formigas e baratas, moscas e outros seres amantes da falta de limpeza, formando uma crosta macabra de emporcalhados cada vez mais diversificada. No geral grosso modo, todos faziam parte de uma família que falava alto, que berrava alcandorado, a ponto de nenhum ser normal se fazer ouvir.

E no meio do olho da desordem, o único que parecia realmente confortável (apesar do seu mundinho canino) sem dúvida alguma, o cachorro vivendo a sua vida melosa e sarcástica, convencido de que aquele lar caótico e à sanha constante de ataques de loucuras fora feito sob medida para ele. A geladeira nova, coitada, ficava mais tempo aberta que fechada. Se assemelhava a uma vitrine de supermercado particular. Nela, a água, os sucos e os refrigerantes se quedavam consumidos nas próprias garrafas.

Se chegasse uma visita, fatalmente a criatura beberia o resto de alguém. Terminando a desfaçatez e o delírio reinantes, a televisão não ficava por baixo. Em entonação super alta, fustigava os tímpanos dos apartamentos dos andares inferiores e superiores e, de roldão, se irmanava a balburdia, os gritos vindos de todos os lados. Passava, aos demais condôminos, a sensação, de que naquele edifício morava uma versão com características de uma espécie de hospício. O cachorro, claro, observava tudo com seus olhos melosos, como quem pensa: ‘Ah, humanos… tão sofisticados e higiênicos.’   Sarcástico, o pulguento seguia altaneiro. Parecia o único realmente feliz ali, convencido, aliás, de que estava no melhor espetáculo da cidade, com direito a sofá, pratos compartilhados e uma plateia que nunca se calava.

Os que observavam (de fora), achavam aquela família desequilibrada, onde a imundície imperava, fosse no tapete, na pia, no banheiro, juntando a isso, o cachorro fazendo cocô no meio da sala. Não só o cocô, mijando e soltando suas necessidades nas camas, se coçando, espalhando pulgas, enfim, uma balburdia sem precedentes. As perguntas finais que deixarei no ar: como essas pessoas (notadamente os filhos vão se portar lá adiante, no porvindouro?).

Duas moças, ninguém se importando com um copo ou um prato. É certo, quando casarem, precisarão arranjar um cara rico, bom de bolso, um sujeito de ‘posses’, um babaca que banque uma empregada esperta e despachada. As duas moças moradoras desse apê, não sabem fritar um ovo, fazer um arroz, nem passar um simples café. Mas, lado outro, se abancarem nos quartos trancadas o dia todo com seus namorados...

Nesse tom, algumas questões extrapolam. Euzinha insisto veementemente: como viverão essas dondocas de hoje, com seus futuros maridos? De fora, quem olha para aquela casa, ou melhor dito, para aquela família, não vê um lar, se ‘abestalha’ com um espetáculo de loucuras. Os desejos imperam em todos os cantos: o tapete manchado, a pia abarrotada, o banheiro fedendo a podre, além de esquecido. O cachorro, soberano, segue fazendo cocô no meio da sala e mijando nas camas, nos sofás, nos lençóis, como se fosse dono do território.

Aliás, é. A televisão, em comum acordo, grita junto com a mãe e os filhos, e o ambiente inteiro parece um estádio de futebol com plateias de torcedores de times rivais, onde cada voz compete para ser a mais tonitruante. As duas moças aqui citadas cresceram nesse cenário. Seguiram adiante sem nunca lavarem um copo, ou um prato, sem saber, sobretudo, cozinhar uma panela de feijão ou coar um café.

Meu Pai Eterno, essas ‘futuras donas de casa’ como, de que forma, cuidarão da própria vida, bem ainda dos filhos e dos maridos? De fora, quem olha para essa família, se dá conta de um retrato negro do desequilíbrio. Todos, mãe, pai, filhos, consomem os dias grudados no celular, seja jogando ou assistindo programas que nem o capeta chupando manga teria paciência de ver. A sujeira reina na sala e os emporcalhados não trazidos à baila, se acotovelam pelo tapete, se condensam pela pia, se avolumam pelo banheiro. É uma balbúrdia ‘orrorosa’ e sem precedentes. Um hospício disfarçado de manicômio, o que, aliás, dá no mesmo.

A lição de moral que pretendo deixar, surge, pois, como indagações inevitáveis e sem respostas: como essas moças, amanhã donas de casa, casadas, juntadas ou amigadas, cuidarão da própria vida, dos filhos e dos maridos? Se não aprenderam a mover um copo, não especularam a como lavar um prato, se não esquadrinharam a fazer um arroz ou um simples café, que futuro terão? Final das contas, essa casa onde nasceram, cresceram e viveram, não se fará apenas num retrato de bagunça. Mais que isso, se fortificará num espelho imenso e cristalino.

Um espelho enorme e grandioso, a bem da verdade nua e crua, que mostrará limpidamente uma série de vícios coletivo: onde todos, mãe, pai, filhos, mergulhados de bundas sujas nos celulares, jogando, rolando telas para cima e para baixo, num gesto sem fim, ou assistindo a programas tão vazios que nem o coisa ruim teria paciência de acompanhar. Atentem que me tornei repetitiva, até demais da conta, para deixar bem claro e sinalizado como as pessoas, hoje em dia, vivem às margens da própria ‘deseducação’, ou de uma educação que deveria vir de casa, de berço, de raiz.    

Reza a lenda, quem não aprendeu a cuidar do próprio espaço, ou dito de forma, mais abrangente, aquele que não se ateve a cuidar do próprio tempo e da vida, cedo ou tarde concluirá que não há celular, televisão ou marido rico que resolva o vazio de não saber projetar em como absolver os problemas que forem surgindo.

Esse desfecho, aos esbugalhos de nosso humilde entendimento funcionará como uma crítica universal, tipo uma ‘cartilha construtiva’, que não aponta apenas para as moças, obviamente joga na berlinda todos os membros da família, mostrando que o amanhã cobra caro. Aos goles poucos, o porvir se desmoronará com tudo o que tem direito pelos hábitos do ontem ‘mal-arranjado’ e, por via outra, não conseguirá chegar vivo e sadio aos dias de hoje. 

Título e Texto: Carina Bratt, de Pequiá, ES, 7-6-2026  

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