Carina Bratt
NA MITOLOGIA GREGA, o Cérbero era o cão de três cabeças ferozes, que guardava a entrada do ‘Reino dos Mortos’. Ninguém entrava sem a sua permissão. Ninguém saía sem o seu consentimento. Era a porta fechada, trancada com a chave do medo tétrico, bem ainda com o limite intransponível do poder absoluto sem direito a recurso.
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| Aquarela de William Blake (1757-1827) National Gallery of Victoria, Austrália |
No Brasil de hoje, encontramos as figuras vivas desse mito encarnada nas pessoas dos ministros. Eles treparam entre si, coabitaram, se propagaram, engravidaram, se fizeram coesos e agem exatamente como aquele cão lendário vindo dos infernos. Esses vermes se postam (como cartas sem remetentes e se prostram às portas sujas das instituições. Decidem quem pode falar, quem pode escrever, quem pode pensar, quem pode entrar e quem deve ser jogado no abismo do silêncio e da perseguição.
Em linhas gerais, o Cérbero de ontem,
lembrando o de três cabeças, se multiplicou. As três cabeças viraram 11. O
‘Reino dos Mortos’ ganhou um nome estranho: ‘Papuda’. Dizem que essas infâmias,
ou os 11, são membros da mais alta Corte do Corte do país, tipos os guardiões
da Constituição, ou dito de forma mais clara, os posudos defensores ferrenhos
das leis e da democracia.
Das ‘leis’ deles e da ‘democracia’ adoentada, ambas esperando ser mortas ou esfaqueadas em face de uma doença terminal. O que vemos na prática do cotidiano são outras coisas. Homens travestidos de deuses falsos, de lombrigas com caras e bocas de sapos, entidades que transformaram as togas em uma espécie de mantos repletos de drogas, ou de soberanos, as canetas cagando tintas pretas em cargos e em propriedades pessoais.
Para eles, os 11, as leis não são regras
a serem seguidas por todos, mas meros instrumentos que servem ou que se prestam
apenas aos seus desígnios. Dito de outra forma mais aclarada, para que fique
bem entendido. Com simples despachos, esses santinhos do pau oco censuram
sites, tiram do ar redes sociais, caçam jornais e prendem pessoas. E não só
isso, tiram as vidas delas da maneira mais torpe.
Com uma simples assinatura, esses
calhordas de terninhos de grife decretam prisões sem provas claras, mantém
cidadãos encarcerados por meses e anos sem julgamentos justos, e decidem, o que
é verdade e o que é mentira, ou o que pode ser dito e o que deve ser apagado da
memória coletiva. Esses deuses borrados do submundo do tinhoso não aceitam
críticas, não respondem questionamentos, não prestam contas a ninguém. Quem
ousa discordar é logo taxado de inimigo da ordem, ameaçador da democracia e
alvo direto de seus processos intermináveis.
Parecem acreditar que estão acima de
tudo, bem acima da Constituição, (por sinal, essa ‘Constituição’ está mais para
‘Desconstituição’), um calhamaço de artigos que trocados por bostas, valem mais
as porras dos aparelhos de urinar de um amontoado de bichos peçonhentos que
vivem nos jardins zoológicos espalhados país à fora e a dentro. Sem tirar nem
pôr, o pardieiro Congresso, que de igual maneira forma, e pelo mesmo caminho,
segue e se debruça acima do povo e até aquém do tempo.
Infelizmente. O Cérbero original, o de 3
cabeças, só lembrando, guardava os mortos. As matilhas de hoje, resumidas em
11, tentam sufocar a liberdade, aprisionar os pensamentos e enterrar a voz
daqueles que não pensam e discordam deles. Um bando de facínoras e parasitas
comedores dos dinheiros suados dos pobres com salários que depois que pulam
fora, viram vitalícios. Nesse tom fora do tom, os aposentados do INSS tomam nos
olhos cegos de seus furiscos.
Esses 11 cânceres guardam um mundo
fechado. O cemitério dos mortos, onde só entram aqueles ratos que eles aprovam,
onde só valem as suas verdades, onde a tal da “oposição” é tratada como crime
bárbaro. Mas, percebam. Há uma diferença enorme e gritante: o cão da lenda era
apenas uma besta. Esses, infelizmente os de hoje, os 11, são ‘feras’ fabricadas
que usam a inteligência e o poder para calar, para amedrontar e dominar.
Sobretudo, dominar. Eles os metidos as sanhas dos imortais, não percebem, ou
fingem não ver, que a liberdade de expressão não é privilégio de alguns, mas o
ar que a democracia respira, ou pelo menos deveria respirar. Como a democracia
e um amontoado de lixo...
Quando se corta esse direito, ah, quando
se corta esse direito, o que sobra não é a ordem pura e cristalina, mas o medo,
o terror e o horror. Com isso, o medo, o
terror e o horror, se tornam solos férteis onde nascem, crescem, se propagam e
se procriam as piores tiranias do planeta. Que os homens de bem (se ainda
existirem alguns) não se calem.
Que saibam reconhecer, por trás das
pompas e das autoridades, quando os guardiões se transformam no próprio perigo.
Porque, no final das contas, nenhum poder é eterno, e as portas que se fecham
hoje com violências, um dia se abrirão com a força propulsora da verdade. Isso,
se não assassinarem, de vez, a tal da JuStIçA. Aliás, a
justitisaçasasasasasasasasasaça...
Título e Texto: Carina Bratt, de Nova
Jérsei, nos Estados Unidos, 14-6-2026
Nada além de um verdadeiro caos total
Quando numa corrida a cegueira se torna o milagre daquele corredor que não enxerga um palmo adiante do nariz
Visão deformada e boba de um amor não correspondido
As coceiras que fustigavam no lugar errado

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