Aparecido Raimundo de Souza
Acostumado a arrancar com trancos e
soluços, o Jeep sentiu, pela primeira vez, o seu motor bater diferente: não era
falha mecânica, mas o coração acelerado batendo de forma diferente dentro do
seu e isso o deixou desvairado. A Mercedes, com seus faróis que pareciam olhos
de rainha, olhou para o Jeep e sorriu com o reflexo cromado.
O Jeep, ainda meio atordoado pela
beleza da deidade, tentou se aproximar, porém, cada vez que engatava a marcha,
vinha aquele tranco característico, quase num tropeço desajeitado. A Mercedes
ria. Logo de cara achou graça daquela tentativa sincera e desajeitada A certa
altura, Mercedes vendo a aflição do pobre coitado, se aproximou e disse:
— Você não precisa ser ou parecer
ser suave —, disse ela com o ronco discreto do motor. Devo lembrar que eu
gostei do seu jeito bruto, porque nele vi, logo de cara, uma verdade pura que
nunca me deixou preso nas mãos da dúvida.
Por conta dessas palavras, do nada,
nasceu uma paixão meio improvável: o Jeep, com sua força de trilha, e a
estonteante Mercedes, com a sua elegância de salão refinado. Nesse cruzamento
das diferenças, descobriram com a continuidade da conversa que o amor não se
fazia sobre andar na mesma velocidade, porém, cada um aceitar o ritmo do outro.
O Jeep nunca deixou de dar seus
trancos. Todavia, agora cada solavanco se transformou em uma música melodiosa.
E a Mercedes, que antes só conhecia o deslizar perfeito, aprendeu que às vezes
é no sacolejo da estrada que se encontra a verdadeira poesia que transforma a
vida e, de roldão, as aventuras se formam avassaladoras.
O Jeep seguiu a sua rotina de estrada, acostumado ao barulho da terra e ao cheiro dominador das aventuras. Todavia, a partir daquele dia tudo mudou da água para o vinho e, do nada, a vida de ambos, se tornou inesquecível. Com isso, desde aquele instante quando ao entrar na cidade, ou melhor, ao dar de cara com a exuberante Mercedes deslizando como se fosse feita de vento repletado da mais suave e doce felicidade, seu coração perdeu o tino.
O contraste foi imediato: ele, bruto
e barulhento; ela, suave e silenciosa. O primeiro tranco foi de emoção. O
segundo de um sujeito (sujeito?) a bem da verdade, completamente apaixonado. O
Jeep, em seu papel de homem macho pra burro, tentou se aproximar. Entretanto,
em cada marcha engatada, atonava um tropeço inoportuno e brusco. A Mercedes,
risonha e saltitante, sem falar na curiosidade à flor da pele, observava aquele
jeito estabanado e funesto do pobre e infeliz Jeep.
— Você não precisa ser perfeito —,
disse para o Jeep num olhar de tormento e aflição. Às vezes, é no imperfeito
que mora a angelicalidade da beleza... O Jeep, a cara fechada de vergonha, os
para-choques caídos, sem saber como responder, apenas deixou o motor roncar
como quem suspira uma paixão barbaramente avassaladora.
Depois de uma semana, onde rolaram
altos papos, decidiram, finalmente, rodar juntos. No início, parecia
impossível: o Jeep sacolejava nas curvas, nenhuma vez deixou de ser bruto, e a
Mercedes, jogou na lata de lixo a sua postura elegante. Entre encontros e
desencontros, pequenas brigas e rusgas passageiras, ambos aprenderam que o amor
não é sobre mudar o outro, e sim sobre aceitar os trancos e deslizes como parte
da música envolvente das estradas por onde corriam.
Final de semana o Jeep (engatando
como sempre a marcha com um tranco):
— Minha linda, me desculpa… não sei
andar suave...
A Mercedes, (sorrindo com faróis
reluzentes);
— Não precisa se desculpar, meu
príncipe. Eu gosto de quem não finge ser o que não é.
O Jeep, eufórico e mal cabendo em
si:
— Então… posso te acompanhar sempre
nas próximas corridas e curvas?
Mercedes, rido de um farol ao outro,
respondeu jogando um beijo em sinal de aprovação:
— Meu
príncipe, se aguentar meu silêncio, saiba que está dentro...
De quinze em quinze dias, todos os
carros da cidade e de outras localidades próximas se reuniam numa festa
improvisada, no antigo aeroporto. Nesse
evento, cada um mostrava o seu estilo. O Jeep, nervoso, como sempre, tentava
impressionar Mercedes com suas histórias de trilhas:
— Minha princesa, já atravessei lama
até o capô, sabia?
E a Mercedes com aquele eterno
sorriso encantador:
— Já dancei sob luzes de salão.
Somos diferentes, mas… acredite, gosto disso. Gosto muito. De verdade...
Num desses encontros, sempre nos
finais de semana, vindo não se sabe de onde, surgiu um Aircross elegante e
posudo, cheio de acessórios cromados. Desde o instante em que avistou a
Mercedes, seu peito bateu mais forte. Tal imprevisto se deu pelo fato de bem lá
do fundo mais profundo do interior de seu íntimo, o danado estar caidinho de
paixão e por conta disso, não suportava ver a Mercedes repletada de amor pelo
Jeep.
Precisava agir. Tirar aquele carro
do seu caminho, custasse o que custasse. Não demorou muito, apareceu uma brecha
e o Aircross não perdeu tempo. Atacou. Se aproximou dela e mandou brasa:
— Mercedes, você merece luxo, não
solavancos. Esse Jeep é só barulho e poeira...
Nesse interregno, o Jeep coisa de
quinze dias depois, percebeu aquela aproximação meio forçada. Contudo, não se
deixou ser vencido. Se aproximou num tranco e se abriu sem medo de levar um
fora:
— Linda, eu posso não ser suave, mas
cada sacolejo meu é verdadeiro...
Mercedes, vendo a cena veio ligeira
em socorro:
— Escutei o que o Aircross deixou
suspenso no ar. Fique sabendo que é justamente isso que me faz ficar temeroso
quando o vejo...
O Aircross ao saber dessa conversa,
partiu com tudo para conquistar a Mercedes. Seus esforços se fizeram em vão.
Apesar dos contras, e vendo que perdia terreno, partiu para um ataque mais
fulminante. Deu início a uma estratégia diferente. Espalhou boatos os mais
cabeludos e desconexos na festa que sempre acontecia todo final de noite.
Espalhou que o Jeep não tinha classe. Era velho demais para Mercedes. Alguns
carros riram, outros se afastaram. O Jeep por seu turno num breve momento, se
sentiu pequeno.
Entristecido, se achegou de Mercedes
e usando de toda a sua honestidade, achou melhor abrir caminho e ir embora:
— Mercedes, talvez o Aircross tenha
razão… você merece alguém que deslize por aí sem tropeçar.
Mercedes, rispidamente mandou a
resposta:
— Não, meu querido. Eu mereço alguém
que me faça rir, que me mostre a estrada como ela é. E você faz isso. Entre
outras coisas, se é que me entende...
O Jeep tentou, após dizer o que lhe
atormentava o coração, sair de cena. Acelerou para se livrar de Mercedes.
Porém, ela, esperta, deu uma guinada impensada, mas foi uma manobra infeliz.
Derrapou e saiu da pista. Todos os presentes gargalharam. O Jeep, mesmo não
tendo êxito em sua pretensão, continuou firme. Pegou o caminho e se dispôs a ir
embora...
Mercedes, parando na frente dele,
interrompendo a sua retirada:
— Vai não. A perfeição, meu querido,
escorrega. A autenticidade se mantém.
O Jeep: (sorriu com o motor
roncando):
— Então… se é assim, minha linda,
aceita rodar comigo, mesmo com meus trancos descomedidos?
Mercedes:
— Aceito. Saiba que cada tranco seu
é um pedaço de poesia que encanta a minha alma.
Jeep e Mercedes saíram juntos no
meio da festa, deixando todo mundo de cara espantada para trás. Passo seguinte,
o Aircross tentou trazer à baila outros de seus truques sujos, mas redundaram
em vão. A estrada, de repente, como num passe de mágica, se abriu exuberante
diante dos dois apaixonados, e para melhorar a sua performance, encarou várias
outras curvas e de todas elas, se saiu perfeitamente bem.
MORAL DESSA HISTÓRIA: No amor, não
importa se é o tranco ou o deslize. Tampouco a marca dos veículos envolvidos.
Vale a harmonia verdadeira de um coração unida na mesma sintonia de um gostar
sincero e apaixonado. Haja o que houver, o que sempre prevalecerá será o
feitiço e o deslumbramento da magia insubstituível do coração batendo dentro do
peito. Isso faz (como fez) toda a diferença.
O encantamento deslumbrado daquele
amor entre a Mercedes e o Jeep se fez mais forte e indestrutível. Vencido,
envergonhado o Aircross se tocou na sua tristeza. Deu meia volta e sumiu na
poeira, deixando o caminho livre para a Mercedes e o Jeep, que terminaram
juntos e cheios de muito amor e paixão.
Título e Texto: Aparecido Raimundo
de Souza, de Pequiá, ES, 5-6-2028
Quem ama você em silêncio, lê o seu olhar sem te ver
O sorriso do abismo
Nossa política é como ovo quente em boca de bêbado
Tipo assim, como um Dark Horse
Brabo e bravo

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-