sexta-feira, 5 de junho de 2026

A decadência da UE é três vezes mais rápida do que a queda da dinastia Qing

Paulo Hasse Paixão

Uma das vozes mais influentes da política externa francesa fez um alerta contundente: a União Europeia está a decair três vezes mais depressa do que a China Imperial durante o colapso da dinastia Qing, no fim do século XIX. E a responsabilidade cabe, segundo Luis Vassy, à incapacidade das suas elites para lidarem com as relações de poder que atualmente vigoram no mundo 

Os exércitos estrangeiros da Aliança das Oito Nações celenbram a vitória na Batalha de Pequim, dentro dos muros da Cidade Proibida, em 28 de novembro de 1900

Num importante ensaio publicado na Le Grand Continent, Luis Vassy — recém-nomeado diretor da Sciences Po e antigo diplomata francês de alto nível — defende que a Europa não está a conseguir compreender as brutais realidades da política de poder num mundo cada vez mais dominada pela força em vez das regras e valores ocidentais.

O ensaio é particularmente notável porque parte do próprio estabelecimento francês, e não de vozes populistas ou eurocépticas.

Vassy escreve que a Europa passou de uma posição em que projetava as suas ideias, valores e influência sobre o mundo para uma situação em que o mundo projeta agora as suas ideias, valores e influência sobre ela.

“As condições de possibilidade da nossa vida em comum, do nosso modelo social, das nossas liberdades, da nossa capacidade de escolher coletivamente o nosso caminho, são determinadas em grande parte por fatores externos a nós”.

O académico francês está aqui deveras equivocado, porque a responsabilidade pela redução das liberdades dos povos europeus cabe inteiramente às elites europeias, e não a fatores externos. Mas adiante.

Entre 1990 e 2005, escreve Vassy, ​​​​​​​​a soma do PIB americano e europeu representava mais de metade da riqueza mundial. Isto abriu caminho às teorias do “fim da história” e à unidade cultural transatlântica. Mas agora, há uma exigência de foco na segurança e na defesa.

A Europa sofre atualmente de cegueira estratégica, uma vez que as ciências sociais e o pensamento político europeu se destacam no estudo das sociedades internamente, mas negligenciam a dimensão externa do poder e do conflito entre as nações:

“Abandonar a reflexão sobre o poder não significa emanciparmo-nos dele; significa aceitar de antemão que os outros o exercem sobre nós e podem decidir por nós abdicar de liberdades, direitos e de um modelo social que levámos décadas, até mesmo séculos, a conquistar.”

O autor compara a trajetória atual. da UE à queda dramática da Dinastia Qing na China, referindo que, enquanto o declínio do império do meio demorou décadas, a perda relativa de poder e influência da Europa está a ocorrer a um ritmo muito mais acelerado:

“A França representa agora 1% da população mundial e 2,5% da produção total. A União Europeia viu o seu peso na economia global cair de 30% para 17% entre 2008 e 2025, ou seja, em 17 anos. A China passou pela mesma situação entre 1820 e 1870. Em termos relativos, estamos a decair três vezes mais depressa do que a dinastia Qing.”

A era Qing terminou com o “Século da Humilhação” da China, marcada por invasões estrangeiras, decadência interna, perda de soberania e atraso tecnológico.

Vassy utiliza este período para ilustrar a rapidez com que uma civilização outrora dominante pode perder a sua posição quando não consegue compreender e adaptar-se às mudanças na dinâmica do poder global.

O diplomata francês crítica a mentalidade europeia dominante, especialmente em França e Bruxelas, por tratar as relações internacionais como uma extensão da política interna, em vez de um domínio de poder, competição e segurança à escala global, defendendo uma grande reformulação intelectual, que leve as elites europeias a redescobrirem a linguagem do poder, a autonomia estratégica e as duras realidades da política internacional.

Para isso, propõe colocar a política de poder e o pensamento estratégico no centro da educação das elites.

Quando a conclusão que devia tirar – e que é óbvia – é que o problema não está na educação das elites, mas no sistema, corrupto até às suas mais profundas fundações, que as projeta para o poder.

O que a Europa precisa não é de uma oligarquia mais bem preparada para as relações internacionais. O que a Europa precisa, urgentemente, é do fim dessa oligarquia.

Título e Texto: Paulo Hasse Paixão, ContraCultura, 5-6-2026 

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