Artigo
de Bruno Brandão, diretor da Transparência Internacional Brasil, para o Jornal
Expresso, de Lisboa, sobre a efeméride anual naquelas terras, conhecida como
Gilmarpalooza. Uma excelente leitura: 👇
João Luiz Mauad, Facebook, 2-6-2026, 3h05
No início de julho do ano passado, o
Aeroporto de Lisboa atingiu o seu limite de aterragem para jatos privados,
forçando diversas aeronaves a desviarem‑se para Cascais e Faro. A razão? Um fluxo extraordinário de
grandes empresários brasileiros.
Não chegavam à capital para aproveitar
o verão europeu. Tampouco se tratava de uma conferência empresarial — ou seria?
O motivo dessa invasão foi o 13.º Fórum de Lisboa, realizado na Universidade de
Lisboa, e sobretudo o seu animado programa paralelo de eventos sociais. Nesta
semana, é de esperar novo engarrafamento de aviões de luxo nos céus
portugueses, para a atual edição deste evento anual, que começa esta
segunda-feira.
Oficialmente, o Fórum de Lisboa é
coorganizado pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa
(IDP) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), juntamente com o Instituto de
Ciências Jurídico-Políticas (ICJP) da Faculdade de Direito da Universidade de
Lisboa. O seu site descreve-o como um espaço anual de diálogo sobre “desafios,
visões e diferentes modelos de sistemas jurídicos presentes em ambos
continentes e a partir de perspetivas variadas”.
Até à 11.ª edição, chamava-se “Fórum Jurídico de Lisboa”, mas, à medida que a participação se expandiu muito para além dos círculos (e dos interesses) jurídicos, os organizadores optaram por retirar a palavra “Jurídico”.
No Brasil, porém, o encontro é
amplamente conhecido como “Gilmarpalooza”. O termo faz eco do festival de
música “Lollapalooza”, conhecido pela sua escala e intensidade, combinando-o
com o nome de Gilmar Mendes, o mais longevo juiz do Supremo Tribunal Federal do
Brasil, proprietário do IDP e principal patrono do Fórum.
Em 2023, o então presidente da Câmara
dos Deputados do Brasil, Arthur Lira, abriu a sessão inaugural do Fórum. Apenas
semanas antes, a Polícia Federal tinha identificado apontamentos relacionados
com despesas pessoais pagas em seu benefício por um assessor e um motorista —
ambos visados numa investigação por desvio de verbas públicas destinadas à
aquisição de kits de robótica escolar no estado brasileiro de Alagoas.
Uma semana após o Fórum de Lisboa, já
de volta a Brasília, o juiz Gilmar Mendes suspendeu essa investigação contra o
seu keynote speaker. Lira já acumulava um histórico significativo de acusações
de corrupção — e até uma condenação, posteriormente anulada — quando foi
convidado para o Fórum. Não é caso único: vários outros oradores estiveram
envolvidos em investigações de corrupção ou têm vínculos com empresas sob
escrutínio.
A própria Fundação Getúlio Vargas
(FGV), coorganizadora do evento, e os seus dirigentes, enfrentaram
investigações relevantes por suspeitas de corrupção e branqueamento de capitais
— posteriormente interrompidas por decisões de Gilmar Mendes, que também suspendeu
medidas cautelares contra executivos da instituição. Mendes não se declarou
impedido para julgar o caso, apesar da extensa parceria do seu IDP com a FGV no
âmbito do Fórum e noutros projetos.
O Fórum de Lisboa constitui um caso
peculiar de interesse extraordinário do setor privado num seminário académico.
Em 2025, 64 executivos de grandes empresas e associações empresariais
participaram como oradores. O envolvimento do setor privado no programa social
paralelo é ainda mais intenso, com jantares e receções opulentas em espaços de
luxo da cidade.
Investigações jornalísticas de 2024
revelaram que os anfitriões desses eventos eram partes em, pelo menos, 145
processos pendentes nos tribunais superiores do Brasil, incluindo o Supremo
Tribunal Federal — onde Mendes é o juiz mais antigo em funções. Centenas de
autoridades brasileiras e portuguesas — em especial magistrados dos tribunais
superiores — circulam por esses encontros.
O sucesso do Fórum inspirou eventos
semelhantes no estrangeiro, que combinam uma aparência académica com interações
altamente problemáticas entre atores privados e juízes. Frequentemente
realizados em capitais estrangeiras, estes fóruns contornam regulamentações
nacionais sobre este tipo de contacto e distanciam-se confortavelmente do
escrutínio público.
Um desses “filhotes” do Gilmarpalooza
foi o 1.º Fórum Legal: Brasil de Ideias, realizado em Londres em 2024.
Organizado pelo Grupo Voto, uma empresa privada que se apresenta como “a mais
importante empresa de diplomacia empresarial e interlocução política no
Brasil”, o evento decorreu no “The Peninsula”, um dos hotéis mais luxuosos do
Reino Unido, com diárias entre 800 e 8.100 libras.
Gilmar Mendes marcou presença, tal
como outros dois juízes do Supremo Tribunal Federal, mais de uma dezena de
magistrados de tribunais superiores, o Procurador-Geral da República, o
ministro da Justiça e o diretor-geral da Polícia Federal. Entre os patrocinadores,
responsáveis por cobrir viagens e alojamento de luxo, encontrava-se a British
American Tobacco, empresa com processos no Supremo brasileiro e que se
beneficiou de decisões dos juízes convidados.
Outro patrocinador foi o Banco Master,
grande financiador da programação social, que incluiu jantares em restaurantes
com estrelas Michelin, uma degustação de whiskey no valor de 570 mil euros, um
espetáculo particular do cantor Seal e até prostituição, segundo revelado pela
imprensa.
O Banco Master, que gastou cerca de 10
milhões de euros com autoridades brasileiras em eventos deste tipo em Londres,
Nova Iorque e Lisboa (cerca de 1,4 milhões de euros na programação social e jatos
privados para o Fórum de Lisboa), está a ser investigado pela maior fraude
bancária da história brasileira. Várias das autoridades comensais em Londres e
Lisboa foram envolvidas no escândalo.
É neste contexto que que se espera o
engarrafamento habitual de jatos privados na capital portuguesa. Este ano, o
embaraço criado pelo escândalo do Banco Master e uma pressão pública cada vez
maior sobre a ética dos juízes do Supremo brasileiro poderá diminuir um pouco o
fluxo de políticos, empresários e magistrados ao convívio animado do
“Gilmarpalooza”.
Ainda assim, este continua a ser o
maior festival de lobby jurídico do planeta, mas a sociedade portuguesa ainda
não se dá conta do trânsito de influências que acorre todos os anos a Lisboa,
hospedado pela maior Universidade pública do país.
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Segundo Gilmar Mendes, a "manipulação algorítmica" ameaça a democracia.
ResponderExcluirIncrível!
Segundo os ministros do STF, tudo ameaça a democracia...
Menos uma pequena casta de juízes que acumulou tanto poder que não conseguimos afastá-los do cargo nem quando julgam o próprio sócio ou têm a esposa contratada por R$ 129 milhões por um golpista.
Muito previsível, não é mesmo?