segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Ai de ti, Copacabana

Marcelo Duarte Lins

Copacabana foi, durante décadas, o cartão-postal do Rio de Janeiro e do Brasil.

O Palace, os réveillons, a praia, os bares, a boemia, os grandes shows, os turistas, as celebridades.
E as multidões.
Sempre foi um palco.

Hoje voltei a ela.
Peguei o metrô na Barra. No vagão, o verde e o amarelo apareciam aqui e ali. Depois, mais densos. Gente mais velha, em sua maioria. Alguns muito velhos. Poucos jovens.


O inverno parecia ter esquecido de si mesmo. Vinte e quatro graus, céu parcialmente nublado, vento leste. O mar, agitado.

Na Avenida Atlântica, a cidade vestia Brasil.

No Posto 5, um carro de som atravessava a avenida, na esquina da Bolívar. De um lado e de outro, bandeiras. Um corredor de grades ligava o carro de som ao hotel Pestana.

Flávio Bolsonaro passaria por ali.
Havia polícia. Discursos. Músicas. Gente.
Muita gente.
Não sei quantas.

Hoje já não tenho tanta curiosidade pelos números.
Prefiro os rostos.
Eram rostos cansados.

Havia neles algo que o cansaço não conseguiu apagar: esperança.

Uma senhora caminhava devagar, segurando sua bandeira.
Havia cadeiras de rodas.
Bengalas.
Avós com netos.
Crianças mais interessadas no mar do que no palanque.
E poucos jovens.

Foi isso que mais me chamou a atenção.
Copacabana parecia ter envelhecido.
Mas talvez não seja ela.
Tenha sido nós.

Nos bares e restaurantes, o movimento seguia. Ambulantes circulavam. Janelas exibiam bandeiras. Drones cortavam o céu.

E o mar continuava ali.
Agitado, indiferente, antigo.
Lembrei de Rubem Braga.

Em 1958, ele escreveu: “Ai de ti, Copacabana!”
Não falava apenas de um bairro.
Falava com ele.
Como se fala com algo que se ama e se teme ao mesmo tempo.

Quase setenta anos depois, pouco mudou na forma como a cidade se reúne ali.
Copacabana continua sendo encontro.
E também espelho.
Palco.
Passagem.

Lugar onde o Brasil insiste em aparecer inteiro, mesmo quando fragmentado.

Olhei aquela gente e não pensei em quantos eram.
Pensei em por que vieram.
Talvez porque ainda esperem.
Talvez porque ainda acreditem.
Talvez porque desistir seja mais difícil do que continuar.

E talvez seja isso que ainda salva Copacabana de ser apenas cenário.

Braga escreveu “Ai de ti”.

Mas há advertência que também é afeto.
Só se diz “ai de ti” ao que importa.
E Copacabana ainda importa.
Por isso continua sendo palco.

Por isso continua sendo chegada.
Por isso ainda há quem atravesse a cidade para estar ali.
E por isso, quase setenta anos depois, a pergunta permanece suspensa, sem resposta possível: Ai de ti, Copacabana.

Ai de ti, Brasil!

Título, Imagem e Texto: Marcelo Duarte Lins, Facebook, 16-8-2026, 21h32

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