Passada a eleição, começa outra eleição.
A das explicações.
Alguns nomes conhecidos da política
descobriram ontem uma verdade que costuma ser esquecida por quem permanece
muito tempo no poder de que
urna não tem memória afetiva.
Foram varridos.
Outros chegaram.
A direita saiu fortalecida de várias
disputas, ampliou sua presença no Congresso e conquistou governos estaduais
importantes.
O mapa político mudou.
Até aí, eleição.
É para isso que ela existe.
O curioso aconteceu quando os
brasileiros começaram a acompanhar a apuração para presidente.
Flávio Bolsonaro estava na frente.
Os números subiam. A diferença chamava
atenção.
Televisões ligadas, celulares nas mãos
e grupos de WhatsApp transformados em pequenas centrais de apuração.
Cada atualização provocava comemoração
de um lado e silêncio do outro.
Até que…
Parou.
Não o Brasil.
Não a eleição.
A divulgação.
Durante aproximadamente uma hora, o
painel nacional praticamente congelou.
Depois veio a explicação oficial:
congestionamento no sistema responsável pela divulgação dos dados.
É preciso fazer uma distinção
importante.
Não há, nesse episódio, demonstração
de que as urnas tenham parado ou de que votos tenham sido alterados.
O problema informado foi na
divulgação.
Mas havia um detalhe.
Quando os números voltaram a correr,
Lula havia diminuído consideravelmente a diferença.
Pronto.
Era tudo de que o Brasil precisava.
Porque brasileiro aceita muita coisa.
O que dificilmente aceita é ficar uma
hora olhando para uma tela parada no meio de uma eleição.
Começaram as contas.
Se a direita havia avançado no Senado…
Se conquistara governos importantes…
Se candidatos conservadores haviam
recebido votações expressivas…
Como a disputa presidencial poderia
estar tão apertada?
— Essa conta não fecha.
Calma.
Existe uma armadilha nessa conta.
Para o Senado, cada eleitor podia
escolher dois candidatos. Portanto, somar os votos recebidos pelos candidatos
de um partido ao Senado e compará-los diretamente com os votos de seu candidato
à Presidência é comparar grandezas diferentes.
E existe outra coisa chamada eleitor.
Ele não vem em pacote fechado.
Pode votar na direita para senador, no
centro para governador e na esquerda para presidente.
Pode fazer exatamente o contrário.
Pode até votar num deputado e, quando
chegar em casa, já não lembrar o número que digitou.
O eleitor brasileiro é livre.
Inclusive para ser eleitoralmente
incoerente.
Faz parte da democracia, mas sobra uma
questão.
E ela é maior do que Flávio Bolsonaro.
Maior do que Lula.
Maior do que esta eleição.
Confiança.
Uma eleição não precisa apenas ser
correta.
Precisa também ser percebida como
correta.
E quanto maior a desconfiança de uma
parcela da população, maior deveria ser o esforço das instituições para
explicar.
Não mandar calar.
Não ridicularizar.
Não transformar automaticamente dúvida
em delírio.
Explicar.
Se houve congestionamento, mostre onde
ocorreu.
Se a totalização continuou normalmente
enquanto a divulgação estava interrompida, demonstre.
Se naquele intervalo entraram
resultados de regiões com comportamento eleitoral diferente, apresente-os.
Se os boletins de urna conferem com a
totalização, permita que sejam confrontados.
Transparência tem uma virtude
extraordinária: ela desmonta suspeitas sem precisar proibi-las.
Porque eleição não deveria ser uma
questão de fé.
Ninguém deveria precisar acreditar no
sistema eleitoral.
Deveria poder conferi-lo.
Uma tela parada não demonstra fraude.
Mas confiança também não se constrói
dizendo apenas:
— Confie.
Entre uma acusação sem provas e uma
resposta que não convence existe um espaço que nenhuma democracia deveria
temer.
Chama-se dúvida.
E dúvida não se combate com adjetivos.
Combate-se com dados.
Por isso, depois de uma eleição que
redesenhou parte do mapa político brasileiro, permanece a sensação que
atravessou milhões de conversas:
A conta não fecha.
Pode ser apenas impressão.
Pode ser perfeitamente explicável pela
matemática eleitoral.
Melhor ainda.
Então não peçam que ninguém acredite.
Mostrem a conta.
E deixem cada brasileiro conferir se
ela fecha.
Título, Imagem e Texto: Marcelo
Duarte Lins, Facebook,
5-10-2026, 14h39
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Vamos para o 2º turno!

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