segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A conta não fecha


Passada a eleição, começa outra eleição.

A das explicações.

Alguns nomes conhecidos da política descobriram ontem uma verdade que costuma ser esquecida por quem permanece muito tempo no poder de que

urna não tem memória afetiva.

Foram varridos.

Outros chegaram.

A direita saiu fortalecida de várias disputas, ampliou sua presença no Congresso e conquistou governos estaduais importantes.

O mapa político mudou.

Até aí, eleição.

É para isso que ela existe.

O curioso aconteceu quando os brasileiros começaram a acompanhar a apuração para presidente.

Flávio Bolsonaro estava na frente.

Os números subiam. A diferença chamava atenção.

Televisões ligadas, celulares nas mãos e grupos de WhatsApp transformados em pequenas centrais de apuração.

Cada atualização provocava comemoração de um lado e silêncio do outro.

Até que…

Parou.

Não o Brasil.

Não a eleição.

A divulgação.

Durante aproximadamente uma hora, o painel nacional praticamente congelou.

Depois veio a explicação oficial: congestionamento no sistema responsável pela divulgação dos dados.

É preciso fazer uma distinção importante.

Não há, nesse episódio, demonstração de que as urnas tenham parado ou de que votos tenham sido alterados.

O problema informado foi na divulgação.

Mas havia um detalhe.

Quando os números voltaram a correr, Lula havia diminuído consideravelmente a diferença.

Pronto.

Era tudo de que o Brasil precisava.

Porque brasileiro aceita muita coisa.

O que dificilmente aceita é ficar uma hora olhando para uma tela parada no meio de uma eleição.

Começaram as contas.

Se a direita havia avançado no Senado…

Se conquistara governos importantes…

Se candidatos conservadores haviam recebido votações expressivas…

Como a disputa presidencial poderia estar tão apertada?

— Essa conta não fecha.

Calma.

Existe uma armadilha nessa conta.

Para o Senado, cada eleitor podia escolher dois candidatos. Portanto, somar os votos recebidos pelos candidatos de um partido ao Senado e compará-los diretamente com os votos de seu candidato à Presidência é comparar grandezas diferentes.

E existe outra coisa chamada eleitor.

Ele não vem em pacote fechado.

Pode votar na direita para senador, no centro para governador e na esquerda para presidente.

Pode fazer exatamente o contrário.

Pode até votar num deputado e, quando chegar em casa, já não lembrar o número que digitou.

O eleitor brasileiro é livre.

Inclusive para ser eleitoralmente incoerente.

Faz parte da democracia, mas sobra uma questão.

E ela é maior do que Flávio Bolsonaro.

Maior do que Lula.

Maior do que esta eleição.

Confiança.

Uma eleição não precisa apenas ser correta.

Precisa também ser percebida como correta.

E quanto maior a desconfiança de uma parcela da população, maior deveria ser o esforço das instituições para explicar.

Não mandar calar.

Não ridicularizar.

Não transformar automaticamente dúvida em delírio.

Explicar.

Se houve congestionamento, mostre onde ocorreu.

Se a totalização continuou normalmente enquanto a divulgação estava interrompida, demonstre.

Se naquele intervalo entraram resultados de regiões com comportamento eleitoral diferente, apresente-os.

Se os boletins de urna conferem com a totalização, permita que sejam confrontados.

Transparência tem uma virtude extraordinária: ela desmonta suspeitas sem precisar proibi-las.

Porque eleição não deveria ser uma questão de fé.

Ninguém deveria precisar acreditar no sistema eleitoral.

Deveria poder conferi-lo.

Uma tela parada não demonstra fraude.

Mas confiança também não se constrói dizendo apenas:

— Confie.

Entre uma acusação sem provas e uma resposta que não convence existe um espaço que nenhuma democracia deveria temer.

Chama-se dúvida.

E dúvida não se combate com adjetivos.

Combate-se com dados.

Por isso, depois de uma eleição que redesenhou parte do mapa político brasileiro, permanece a sensação que atravessou milhões de conversas:

A conta não fecha.

Pode ser apenas impressão.

Pode ser perfeitamente explicável pela matemática eleitoral.

Melhor ainda.

Então não peçam que ninguém acredite.

Mostrem a conta.

E deixem cada brasileiro conferir se ela fecha.

Título, Imagem e Texto: Marcelo Duarte Lins, Facebook, 5-10-2026, 14h39

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