terça-feira, 27 de outubro de 2026

A sensação de impotência


Há momentos em que o silêncio não significa concordância.

Significa cansaço.

Um cansaço que não vem do corpo, mas da alma. Das notícias que nos deixam perplexos, das perguntas sem respostas e da impressão de que nossas vozes já não são ouvidas.

É a sensação de impotência.

Aquela que nos invade quando percebemos que, apesar de nossos esforços, o país parece seguir por caminhos que não escolhemos.

Votamos. Participamos. Defendemos nossas convicções. Acreditamos que a cidadania pode influenciar os destinos de uma nação.

E, de repente, surge uma pergunta desconcertante.

De que adianta?

É uma pergunta perigosa.

Porque uma democracia não se enfraquece apenas quando suas instituições falham. Também perde vitalidade quando seus cidadãos deixam de acreditar na possibilidade de transformá-la.

Há uma diferença entre perder uma eleição e perder a esperança.

A primeira faz parte da democracia. A segunda compromete seu futuro.

Não podemos exigir que a realidade corresponda sempre às nossas expectativas, mas temos o direito de questionar, discordar, fiscalizar e exigir explicações.

Esse direito não pertence aos vencedores nem aos vencidos.

Pertence aos cidadãos.

O perigo, entretanto, não está apenas nos acontecimentos que nos indignam, mas naquilo que permitimos que façam conosco.

A indignação permanente consome energias, rouba o sono e transforma a preocupação com o país em sofrimento pessoal.

Nenhuma causa, por mais justa que nos pareça, deveria nos custar a saúde mental.

É preciso distinguir aquilo que podemos transformar daquilo que, por enquanto, está além do nosso alcance.

Não é conformismo.

É preservar as forças para continuar.

Lembrei-me de Viktor Frankl, psiquiatra austríaco que sobreviveu aos campos de concentração nazistas e escreveu Em Busca de Sentido.

Frankl compreendeu, nas circunstâncias mais desumanas, que mesmo quando nos retiram quase tudo, ainda podemos preservar a capacidade de escolher nossa atitude diante do sofrimento.

Não se trata de negar a dor, aceitar injustiças ou abandonar a esperança de mudar a realidade.

Trata-se de não permitir que as circunstâncias destruam aquilo que somos.

Guardadas as enormes diferenças entre aquela tragédia e as inquietações de nossos dias, sua reflexão permanece valiosa.

Nem sempre podemos escolher o que acontece à nossa volta.

Mas podemos escolher o que não estamos dispostos a perder dentro de nós.

Afinal, há uma vida acontecendo enquanto discutimos os destinos do Brasil.

Há famílias que precisam de nossa presença, amigos que merecem nossa atenção, livros esperando para ser lidos e abraços que não deveriam ser adiados.

Não podemos permitir que as decepções políticas nos roubem também essas riquezas.

Muito menos os valores construídos ao longo de uma existência.

A honestidade não deixa de ser virtude porque outros a desprezam. A dignidade não perde seu valor porque alguns a abandonaram. E a consciência não deve ser negociada ao sabor das conveniências.

Podemos perder disputas, enfrentar decepções e assistir a acontecimentos que contrariam profundamente nossas convicções.

Há uma derrota que não podemos aceitar.

Perder a nós mesmos.

A história ensina que nenhum momento político representa necessariamente o destino definitivo de uma nação.

Os tempos mudam. As circunstâncias se transformam. Novas gerações chegam trazendo outras ideias e possibilidades.

A esperança não exige ingenuidade.

Exige apenas que não confundamos as dificuldades do presente com a impossibilidade de um futuro melhor.

Precisamos cuidar da saúde, cultivar as amizades e preservar a alegria de viver.

Porque a impotência é um sentimento humano.

A resignação é uma escolha.

E o maior triunfo de quem deseja governar sem ser questionado não é calar um povo. É convencê-lo de que falar já não adianta.

Que não nos falte a coragem de continuar.

Podemos não conseguir mudar os acontecimentos. Mas podemos escolher o que eles não conseguirão mudar em nós.

Nossos valores. Nossa dignidade. Nossa consciência.

E enquanto ela permanecer íntegra, ainda não estaremos derrotados.

Título e Texto: Marcelo Duarte Lins, Facebook, 27-10-2026, 13h53

Relacionados: 
Honramos sua memória! 
Existe? Qual? 
26-10-2027: Oeste sem filtro – Lula torrou mais de 400 bilhões de reais para se reeleger + m. ordena que Flávio entregue o passaporte + os efeitos da reeleição de Lula para a economia 
[Aparecido rasga o verbo] E o câncer maligno seguirá destruindo... 
Caos no Brasil: Lula vence eleições contra todas as espectativas, depois de suspensão da contagem durante 2 horas 
A prorrogação das trevas 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-