Paulo Hasse Paixão
Sou cristão. Na moral e na
metafísica; ou seja: o terrorista islâmico ou o Peter Thiel, por muito que me
custe a consciência disso, são exatos filhos de Deus. Emmanuel Macron também.
Friedrich Merz é sagrado, como produto da criação divina. Devo respeitar o
milagre maluco que é existir uma senhora von der Leyen, condescendência que,
convenhamos, será sempre de difícil resignação.
Não estou a ser irónico. Ser
cristão é ter que sacralizar necessariamente toda a gente: amigos, inimigos,
doces pessoas como os piores filhos da puta. É assim e quem não estiver
psicologicamente preparado para isto deve seguir evangelhos outros, que não contem
a história do Homem-Deus que se sujeitou ao pior suplício do Império Romano
para redenção minha, e tua, gentil leitor, e sua, estimada leitora, e de toda a
gente que carrega no coração uma alma.
Mais: não é só o ser humano
que devemos consagrar. Devemos consagrar TUDO. Montanhas e besouros. Lagos e
ursos. Árvores e lesmas, não interessa a espécie e a classe e até nem interessa
se é animada ou não. Se pensarmos bem, uma montanha é mais animada que todos os
mamíferos da planície pelo simples facto de estar ali sujeita à entropia
transformista de milhões de anos.
A formiga e o furacão.
A borboleta, como o bisonte.
O falso vácuo entre o Sol e a
Terra.
O ilusório vazio entre os
corpos astronómicos e as tensões eletromagnéticas dos átomos.
O infinito que reside em todas
as coisas que findam e o fim de tudo o que não acaba nunca.
Deus meteu o dedo nisso. Deus meteu a pila criativa nisso. Fez a sua génese. E o que Deus cria, devo respeitar, acima de qualquer outra consideração.
Devo adorar, acima de qualquer
adoração.
Devo amar Deus, acima de tudo
o que amo, sim.
Nem que seja porque foi Deus
que me fez assim, capaz de amar.
Espantoso Milagre.
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Não é fácil ser cristão,
agora. Decidi até a conversão na segunda e terceira décadas do século XXI,
precisamente quando ser-se cristão é mais difícil – mas não me estou a queixar:
Quem acredita em Cristo, entende o universo. Sai do sistema. Escapa à corrupção
da matéria. Eleva-se.
O cristão é um ser humano
eminentemente livre, mas sem licença para matar (legítima defesa à parte?). Sem
licença para odiar o outro, magoar o outro, sentir-se de algum modo superior ao
outro. E a partir daqui, tudo o resto fica subitamente acessível à sensibilidade
e estranhamente cognoscível ao intelecto.
Por exemplo: não será o
mandato de amar o inimigo o caminho definitivo para a paz?
Outro exemplo: não viverás
melhor se corrigires os teus erros, em vez de que passares a vida a acusar os
outros dos seus?
Mais: não está a derradeira
utopia encerrada no Sermão da Montanha?
Mas não, não é fácil ser
cristão, agora, considerando o jugo satânico e quando a vida que escolheste te
arrasta pela lama do mundo e a infâmia dos homens, dia sobre dia. Porque sendo
infames, são sagrados na mesma, e é isto que é ser cristão.
Porque até o pior dos
assassinos tem acesso à redenção, e é isto que Cristo diz.
Porque não é a amares os teus
aliados, mas a saberes perdoar os teus adversários, que te salvas.
É complicado. E consolador.
******
Aos olhos de Deus somos todos
únicos, somos todos iguais, e sem paradoxo porque somos todos iguais quando
saídos do parto, em excruciante dor de mãe e filho, mas não seremos pares no
fim do caminho, em função dos nossos erros.
Deus não é nenhum marxista e
Cristo ia antipatizar seriamente com Trotsky (como antipatizou seriamente com
os fariseus), embora dificilmente aceitasse que à mesa da última ceia se
sentassem – convivenciais – miseráveis e bilionários (para jejum destes últimos).
Seja como for, pobres e ricos,
virtuosos e crápulas, seremos todos sujeitos a um critério transcendente, no
fim desta caminhada pela curvatura planetária.
Como há a certeza de um Deus,
haverá um incontornável julgamento.
Pelos teus erros, pagarás um
preço. Pelos teus acertos, serás agraciado.
Título, Imagem e Texto: Paulo Hasse Paixão, ContraCultura, 16-10-2026

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