André Villas-Boas assina o editorial da revista Dragões
Caros Portistas,
Outubro teve uma noite que nos mostrou, uma vez mais, a dimensão do FC Porto.
Nos Dragões de Ouro, celebrámos muitos dos nossos campeões e distinguimos quem
fez da época passada uma memória inesquecível. Diogo Costa (Atleta do Ano),
Victor Froholdt (Futebolista do Ano), a equipa de futebol (Equipa do Ano) e
Francesco Farioli (Treinador do Ano) receberam o reconhecimento de uma família
que souberam unir e orgulhar. Claro está que o destaque do futebol não fez
esquecer as restantes áreas: a renovação do Dragão e a Tétris, distinguida como
Parceiro do Ano; o campeonato de basquetebol e a homenagem sentida ao Pedro
Machado; a quarta Liga dos Campeões de hóquei em patins, representada no Dragão
de Ouro de Gonçalo Alves; e a nossa extraordinária Carla Oliveira, que continua
a amealhar vitórias e a espalhar sorrisos ao serviço do Clube. Com a atribuição
do Dragão de Ouro de Atleta Revelação a Mateus Mide, reconhecemos o pleno
histórico da formação e os miúdos que queremos ver escrever o nosso futuro.
Foi também uma noite de regresso às Antas, através das memórias que Cubillas e
Futre transportam. Há jogadores que não ficam apenas nos registos: ficam nas
tardes da nossa infância, nos abraços com os nossos familiares e amigos e na
forma como aprendemos a amar o Futebol Clube do Porto. Honrámos também quem nos
trouxe até aqui, com António Nicolau d’Almeida, o nosso fundador, a ser
distinguido a título póstumo com o Dragão de Honra. O seu nome recorda-nos onde
tudo começou e a responsabilidade de continuar uma História que atravessa
gerações. A todos os Dragonados, aos presentes e às equipas que prepararam esta
gala magnífica, o nosso agradecimento. Cada prémio tem por trás muitas pessoas
que trabalham longe dos aplausos.
No campeonato, nove vitórias em nove jornadas confirmam um percurso notável.
Farioli já conquistou o seu lugar na História dos treinadores do FC Porto, mas
é sobretudo no futuro que estamos concentrados. O seu mérito está na qualidade
do trabalho, na exigência diária e na capacidade de fazer todos compreenderem o
peso da Instituição. Os jogadores acreditam no treinador, no método e uns nos
outros, e essa confiança tem de continuar acompanhada por disciplina e
humildade. Estamos orgulhosos deste arranque, mas o campeonato está longe de
terminar e o compromisso com a vitória exige-nos a mesma união quando ganhamos
e quando surgem dificuldades.
Na Liga dos Campeões, temos de fazer muito melhor. Ninguém no Clube está
indiferente aos resultados, nem a qualidade do percurso interno compensa tudo
aquilo que ainda não conseguimos fazer na Europa. Temos uma responsabilidade
histórica que exige uma resposta em campo. A qualificação para os oitavos de
final continua a ser possível, mas precisamos de transformar a História que
temos na competição em intensidade, concentração e capacidade competitiva.
Acreditamos nesta equipa e exigimos dela, como de nós próprios, a capacidade de
responder. É assim que somos; é assim que é o FC Porto: foi sempre a exigência
que nos elevou a patamares a que nenhum outro clube conseguiu chegar.
É precisamente essa exigência interna que parece levar ao desespero os
comentadores afetos ao “Manto Marrom”. No clássico com o Benfica, o contacto de
Samu nas costas de Bah foi promovido a “agressão bárbara”, com direito a uma
reconstrução dramática digna de cinema. Curiosamente, na época passada, quando
um toque de um dedo bastou para desequilibrar Hjulmand e sustentar uma decisão
favorável ao Sporting, a sensibilidade dos mesmos vigilantes foi muito
diferente. A força dos contactos mede-se pela camisola e a indignação pelo
resultado. Uma absoluta anedota, construída por quem não consegue aceitar a
vitória do FC Porto sem procurar uma explicação que a diminua, seja qual for a
imagem ou o ângulo. Quando o futebol lhes estraga o guião, há sempre um estúdio
disponível para o reescrever.
É também enternecedor assistir à súbita paixão do Benfica por lances, imagens,
ângulos e análises, depois de mais de uma década a transmitir os seus jogos na
BTV. Tanta exigência de transparência merecia começar em casa: que os lances
incómodos tenham a mesma atenção, os mesmos ângulos e o mesmo entusiasmo nas
repetições que aqueles que servem a narrativa. Ou a liberdade de realização é
um direito adquirido na Luz e uma conspiração quando ganha o FC Porto? Estamos
também a adorar a evolução desta comunicação de guerrilha: entre o reformista
Grupo Unum e aquilo a que poderíamos chamar APEC, a Associação de Putativos ou
Ex-Candidatos, vão-se multiplicando as mais hilariantes teses sobre o nosso
Clube. Discordam sobre quem deve mandar no Benfica, mas encontram uma comovente
unidade quando se trata de explicar os sucessos do FC Porto por tudo menos pelo
seu mérito. Se as imagens não confirmam a suspeita, exigem-se outros ângulos;
se os outros ângulos também não ajudam, questiona-se a realização. A conclusão
está escolhida; só falta encontrar uma imagem que lhe obedeça. Valham-nos os
ovos Matinados para nos trazer de volta à realidade, porque tanta teoria já só
dá para uma omeleta.
Na Madeira, foi preciso um golo legal do FC Porto para ofender a “verdade
desportiva” desejada pelos mesmos. Um centímetro em jogo é golo em qualquer
lado do mundo, seja qual for a tecnologia, mas, na realidade virtual em que
habitam, o golo legal do FC Porto não o deveria ter sido. “Investigue-se”, “é
preciso perceber o que se passa”, dizem eles, porque a influência do FC Porto
deve ser tal que até domina os centímetros. A conclusão estava escolhida antes
de se desenharem as linhas: se o FC Porto ganhou, alguma coisa terá de estar
errada. O problema não é o golo; é quem o marcou. E, quando os factos lhes
retiram os argumentos, passam ao insulto pessoal.
Depois de Mário Figueiredo, jornalista e ex-atleta do Benfica, surge agora João
Queiroz, assumido benfiquista e presença conhecida na BTV, a comparar o
Presidente do FC Porto a Pinochet e a Fidel Castro. Importa enquadrar a
comparação: falamos de governantes de regimes autoritários associados à
tortura, a execuções políticas e à supressão de liberdades fundamentais. É a
este ponto que chega o comentário televisivo. A palavra “supostamente” não
serve de detergente para a comparação. Pedir rigor não é censurar, responder a
falsidades não é reprimir e defender uma Instituição de Sócios não é exercer
uma ditadura. A liberdade de expressão que tanto invocam parece ter uma regra
muito própria: eles podem ofender, mas o FC Porto não pode responder. E quem
não aceita ficar calado ganha imediatamente um lugar na galeria dos ditadores.
É mais fácil desqualificar quem exige respeito do que justificar a falta dele.
As duas intervenções deram origem a participações à ERC, envolvendo os
conteúdos e as responsabilidades de quem os proferiu ou difundiu. Não pode
valer tudo na televisão portuguesa.
Na mesma tónica, surge Frederico Varandas, que regressou às suas habituais
tiradas de memória seletiva, nas quais o Sporting e o seu Presidente habitam o
Olimpo da ética e dos valores, sempre impolutos e intocáveis, passando uma
borracha sobre os infindáveis casos que envolveram o seu Clube no passado. À
boleia de uma piada do primeiro-ministro, enfiou a carapuça e encontrou uma
nova frente, dispondo-se a mobilizar as hostes do associativismo do seu clube
para influenciar o rumo da política nacional. O presidente que prometeu não
falar de arbitragem passou então, na sua versão 2026/27, a influencer político.
Os seus associados avaliarão se esta nova versão do seu presidente justifica a
remuneração choruda que lhe atribuem. Nós registamos o regresso das lições
públicas de moralidade que até ao primeiro-ministro chegam. Confessemos que já
tínhamos saudades!
Voltemos, porém, ao golo na Madeira, porque teve outro mérito: parece ter
despertado o Conselho de Arbitragem do sono profundo em que as nossas propostas
tecnológicas permaneciam. Discutem-se finalmente um calendário de implementação
e o investimento necessário no fora de jogo semiautomático e na tecnologia de
linha de golo, quando o FC Porto reclama melhores meios há duas épocas. Bem
hajas, Pietuszewski: talvez tenhas sido a chave para abrir as portas do futuro
a um futebol que teima em viver no passado. Esperamos agora decisões,
financiamento e execução. Já perdemos demasiado tempo entre apresentações e
intenções para aceitar que tudo volte a adormecer quando passar a polémica.
Mas a modernização não se faz apenas com equipamentos; exige também coerência
nas decisões e nas explicações. A comissão técnica de arbitragem decidiu
validar a atuação de João Pinheiro e do VAR no SC Braga-Sporting CP, perante
uma mão na área que, para todos os especialistas e analistas de arbitragem,
exigia a marcação de grande penalidade. Ao novo Diretor Técnico Nacional,
pedimos a lisura e a clareza necessárias para vir dar explicações sobre todos
os incidentes envolvendo todos os clubes ou, para não repetir o caminho do
anterior responsável, cujas explicações tantas vezes confundiram os árbitros em
vez de os orientar, remeter as discussões para sede própria, evitando lançar
ainda mais dúvidas quando os casos são por demais evidentes. O problema de Braga
não termina no penálti que ficou por assinalar: prolonga-se em justificações
que, em vez de esclarecer, lançam confusão sobre os próximos lances. Que
critério deverão os árbitros aplicar amanhã? O das decisões anteriores ou o da
explicação que agora convém?
Enquanto isso acontecia, o Presidente do Conselho de Arbitragem estava na
televisão a defender o seu bom nome. Um clube beneficiava de uma decisão errada
da equipa de arbitragem e o responsável máximo do setor dividia-se entre o
exercício do cargo e a sua defesa pessoal em canal aberto. Mas que normalidade
é esta? O direito de defender o bom nome é inquestionável; o que contestamos há
muito tempo é que o faça mantendo o pleno exercício das suas funções. O FC
Porto pediu, e pede, uma suspensão temporária de funções do Presidente do
Conselho de Arbitragem: a Instituição FPF e a credibilidade das competições
assim o merecem. Mas essa medida não foi tomada e o clima de instabilidade
mantém-se. A permanência neste quadro é insustentável e a passividade do Presidente
da Federação Portuguesa de Futebol e do Presidente da Liga de Clubes agrava
ainda mais o descrédito. O futebol português precisa de lideranças fortes e de
confiança, não de ver cada polémica de campo acompanhada por uma crise
institucional que ninguém parece disposto a resolver.
Felizmente, o FC Porto consegue superar todas as adversidades, e à Supertaça de
futebol juntaram-se as de basquetebol e de voleibol feminino, modalidades em
que se seguiram as primeiras vitórias nas respetivas Ligas dos Campeões. Ao
Fernando Sá, ao Miguel Coelho, aos atletas e às equipas de apoio, muitos
parabéns pelo arranque e pela ambição que demonstram. O andebol tem dado sinais
promissores, tal como o futsal, e merece destaque o apoio no Dragão Arena. A
ligação dos adeptos às nossas equipas não termina no estádio nem depende da
modalidade. As magníficas assistências, a energia das bancadas e a presença nos
momentos difíceis mostram que o ecletismo se vive e se constrói em conjunto.
Esse apoio é precioso e aumenta a nossa responsabilidade.
É também essa ligação que torna tão importante preservar a memória de quem nos
ensinou a competir. O documentário dedicado a Jorge Costa foi um momento de
emoção profunda e uma homenagem que honra a sua vida, a sua família e o seu
percurso no FC Porto. Agradeço à família, aos amigos e a todos os antigos
jogadores e treinadores que participaram, nomeadamente ao Sérgio Conceição e ao
Eng. Fernando Santos, pela generosidade com que partilharam memórias. Às
equipas do Clube que o produziram, o nosso reconhecimento por permitirem a
outras gerações conhecer o homem para além dos troféus. Há exemplos que
continuam a exigir o melhor de nós muito depois da despedida. O do Jorge é um
deles.
Caros Portistas, novembro pede-nos trabalho, concentração e a união que nos
trouxe até aqui. Temos vitórias para defender, dificuldades para corrigir e
objetivos que só alcançaremos se o coletivo continuar acima de cada um. O
orgulho pelos Dragonados, a exigência de Farioli, a força das modalidades e o
exemplo do nosso Capitão devem ocupar mais espaço nas nossas vidas do que o
ruído de quem nos quer diminuir.
Continuaremos a defender o FC Porto onde for necessário, contra tudo e contra
todos quando assim tiver de ser, mas sem perder o foco no que depende de nós. A
melhor resposta continuará a ser dada em campo, com a coragem de quem sabe que
o compromisso com a vitória se renova todos os dias.
Viva o Futebol Clube do Porto.
A edição número 479 da revista Dragões chegará brevemente às FC Porto
Stores. Até lá, encontra-se disponível na versão digital.
Título, Imagem e Texto: FC Porto, 27-10-2026, 14h45

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