quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Quando a vítima não é das nossas

Miguel A. Baptista

Imaginem que um partido de esquerda radical era impedido de participar presencialmente num debate radiofónico. Não era excluído do debate, note-se: podia intervir, mas à distância. A razão? Os seus representantes teriam, aparentemente, uma espécie de lepra política que os impedia de partilhar o estúdio com os restantes participantes.

Imaginem agora que a líder desse partido não se conformava com a discriminação e, no dia do debate, irrompia pelo estúdio, reclamando o direito de ocupar o lugar que lhe estava destinado.

Os jornalistas depressa a promoveriam a nova Pasionaria. Teria sido a mulher corajosa que não se resignava perante a injustiça e ousava derrubar barreiras. A heroína que combatia os fascismos e o patriarcado tóxico. Multiplicar-se-iam os memes com o seu rosto, acompanhados de palavras de ordem em sua homenagem. Circulariam abaixo-assinados de solidariedade. A direção da rádio seria pressionada a demitir-se por ter permitido aquela ignomínia discriminatória.

Um cantautor comporia uma balada em louvor da guerreira que não se vergava perante a opressão. Numa manifestação de apoio à proscrita, as t-shirts com a sua fotografia conviveriam harmoniosamente com os lenços e as bandeiras da Palestina.

Os partidos que aceitassem participar no debate sem a presença física da líder seriam denunciados como cúmplices da opressão. Um jornal mais à direita que descrevesse a sua justa reivindicação como uma «invasão» seria imediatamente catalogado de nazi. E quem ousasse lembrar que a intrépida guerreira poderia vir a sofrer consequências pela sua atitude seria também acusado de fascismo.

Seria, sem dúvida, um extraordinário espetáculo de indignação cívica, solidariedade e defesa intransigente da democracia.

Agora, a sério.

Quem me conhece sabe que não nutro qualquer simpatia pelo Chega. Aliás, é precisamente de alguns dos seus simpatizantes que me chegam insultos que acabam por dizer muito mais sobre quem os profere do que sobre quem os recebe.

Mas a coerência dos princípios mede-se, sobretudo, quando a sua aplicação beneficia alguém de quem não gostamos.

No caso que opõe a Rádio Universitária de Coimbra a Rita Matias, a minha solidariedade não vai para quem invoca a democracia enquanto parece esquecer que ela também exige regras de tratamento equitativo para quem pensa de maneira diferente.

A democracia não se prova quando defendemos os nossos. Prova-se quando reconhecemos aos outros os direitos que reivindicamos para nós.

Título e Texto: Miguel A. Baptista, Corta-fitas, 14-10-2026

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-