Miguel A. Baptista
Imaginem que um partido de
esquerda radical era impedido de participar presencialmente num debate
radiofónico. Não era excluído do debate, note-se: podia intervir, mas à
distância. A razão? Os seus representantes teriam, aparentemente, uma espécie
de lepra política que os impedia de partilhar o estúdio com os restantes
participantes.
Imaginem agora que a líder
desse partido não se conformava com a discriminação e, no dia do debate,
irrompia pelo estúdio, reclamando o direito de ocupar o lugar que lhe estava
destinado.
Os jornalistas depressa a
promoveriam a nova Pasionaria. Teria sido a mulher corajosa que não se
resignava perante a injustiça e ousava derrubar barreiras. A heroína que
combatia os fascismos e o patriarcado tóxico. Multiplicar-se-iam os memes com o
seu rosto, acompanhados de palavras de ordem em sua homenagem. Circulariam
abaixo-assinados de solidariedade. A direção da rádio seria pressionada a
demitir-se por ter permitido aquela ignomínia discriminatória.
Um cantautor comporia uma
balada em louvor da guerreira que não se vergava perante a opressão. Numa
manifestação de apoio à proscrita, as t-shirts com a sua fotografia conviveriam
harmoniosamente com os lenços e as bandeiras da Palestina.
Os partidos que aceitassem participar no debate sem a presença física da líder seriam denunciados como cúmplices da opressão. Um jornal mais à direita que descrevesse a sua justa reivindicação como uma «invasão» seria imediatamente catalogado de nazi. E quem ousasse lembrar que a intrépida guerreira poderia vir a sofrer consequências pela sua atitude seria também acusado de fascismo.
Seria, sem dúvida, um
extraordinário espetáculo de indignação cívica, solidariedade e defesa
intransigente da democracia.
Agora, a sério.
Quem me conhece sabe que não
nutro qualquer simpatia pelo Chega. Aliás, é precisamente de alguns dos seus
simpatizantes que me chegam insultos que acabam por dizer muito mais sobre quem
os profere do que sobre quem os recebe.
Mas a coerência dos princípios
mede-se, sobretudo, quando a sua aplicação beneficia alguém de quem não
gostamos.
No caso que opõe a Rádio
Universitária de Coimbra a Rita Matias, a minha solidariedade não vai para quem
invoca a democracia enquanto parece esquecer que ela também exige regras de
tratamento equitativo para quem pensa de maneira diferente.
A democracia não se prova
quando defendemos os nossos. Prova-se quando reconhecemos aos outros os
direitos que reivindicamos para nós.
Título e Texto: Miguel A.
Baptista, Corta-fitas,
14-10-2026

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