segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Uma madrugada, uma canetada e uma pulga atrás da orelha

Leah Levy Cohen Ligia

Tem lembrança que não envelhece. Pode passar quase meio século, mudar o país, mudar o governo, mudar o corte de cabelo da gente e mudar também a quantidade de paciência disponível para acompanhar apuração eleitoral, que certas cenas continuam intactas na memória. Ficam lá, muito bem guardadas, sem pagar aluguel e sem aceitar mudança de endereço.

No fim dos anos 70 ou começo dos 80, meu avô era sócio de uma metalúrgica no ABC. Eu era adolescente. Lembro de um piquete na porta da fábrica, de Lula à frente da mobilização e de uma agressão contra meu avô. Lembro principalmente do estado em que ele ficou: assustado, abalado, quase em pânico. Essa é a minha lembrança, a marca que aquele episódio deixou em mim. Não estou apresentando uma ata notarial da adolescência nem esperando que alguém carimbe a minha memória com reconhecimento de firma. Estou contando o que vivi e por que, para mim, política nunca foi só um gráfico colorido na televisão.

Desde aquele dia, passei a olhar para Lula com uma antipatia muito particular. É pessoal. Podem discordar, está tudo bem. Cada um tem direito à sua opinião, e eu tenho direito à minha memória, que, infelizmente, não aceita ser atualizada por aplicativo. Tem gente que guarda foto de infância; eu guardo a lembrança do meu avô voltando daquele episódio. Não é exatamente o tipo de recordação que a gente escolhe para decorar a sala.

Lula trabalhou como metalúrgico por alguns anos. Depois, afastou-se da Villares por licença sindical e passou a fazer carreira no sindicato, onde trabalhava e recebia pela função. Para mim, o torno mecânico foi uma fase; o microfone sindical acabou ficando com o papel principal. E reza uma velha história, dessas que circulam há décadas, que ele teria cortado o próprio dedo para se aposentar por invalidez. Nunca apareceu prova disso, e as checagens dizem que o acidente foi de trabalho. Mas a lenda continua firme. O dedo se foi; a história ganhou vida própria.

Também não entendo de política. Pelo menos é o que digo antes de passar horas lendo notícia, comparando números, desconfiando de gráficos e discutindo mentalmente com comentaristas que nem sabem que estou na sala. Não entendo de política, mas tenho uma especialização informal em acompanhar apuração de madrugada, adquirida à força e sem direito a certificado. Moro em Israel, fiquei acordada até quase três da manhã para esperar o resultado brasileiro e, no fim, ganhei uma eleição, uma olheira nova e a sensação de que meu travesseiro foi o único candidato que perdeu todos os votos.

Lula recebeu 10.376.694 votos a mais no segundo turno do que no primeiro. Flávio também aumentou sua votação, em 3.721.538 votos. No primeiro turno, Flávio tinha terminado cerca de 2,2 milhões de votos à frente. No segundo, Lula venceu por pouco mais de 4,4 milhões. São números enormes. Eu fiquei tentando entender de onde veio tanta gente a mais votando em Lula. Os ausentes voltaram? Os votos dos candidatos que ficaram pelo caminho foram todos para ele? Uma parte mudou de lado? Olhando apenas o resultado agregado, não dá para saber de onde veio cada voto. Eu não tenho prova de fraude. Mas, diante de uma virada desse tamanho, é difícil não perguntar como ela aconteceu. Para mim, tem algo que fede. Pode ser a apuração, pode ser a minha desconfiança, pode ser o café que tomei às duas da manhã. Mas o cheiro estava lá.

Talvez parte dessa impressão se deva à canetada do ministro Cristiano Zanin, que autorizou a prorrogação da votação até as 19h. Zanin tinha sido advogado de Lula e foi indicado por ele ao Supremo. Isso não prova que a decisão tenha sido tomada para favorecer alguém, mas também não é um detalhe que passe despercebido.

Outra pergunta que ficou no ar: por que foi o Supremo Tribunal Federal a decidir sobre o horário da votação, e não o Tribunal Superior Eleitoral, que é o tribunal máximo da Justiça Eleitoral? Não existe uma hierarquia simples entre os dois para a administração das eleições. O STF trata de questões constitucionais, e o TSE conduz a Justiça Eleitoral. Justamente por isso, a entrada do Supremo numa decisão eleitoral tão prática, em cima da hora, causou críticas dentro do próprio TSE.

A decisão saiu depois do horário previsto para o fechamento das urnas e provocou confusão sobre quais seções poderiam continuar recebendo votos. A orientação acabou sendo manter abertas apenas as seções que ainda não tinham encerrado a votação. Eu não tenho prova de que isso tenha mudado o resultado. Mas, entre o histórico profissional do ministro, a indicação de Lula, a decisão de última hora e a dúvida sobre por que o caso foi parar no STF, é difícil exigir que todo mundo simplesmente dê de ombros. Para mim, ficou tudo muito estranho.

E Minas Gerais também me chamou atenção. No primeiro turno, Flávio venceu no estado; Nikolas Ferreira foi o deputado federal mais votado, com mais de três milhões de votos; e Cleitinho foi eleito governador. No segundo turno, Lula virou por uma diferença pequena. Eu fiquei olhando para aquilo como quem encara uma receita que diz “misture tudo” e, depois de misturar, descobre que a panela está fazendo campanha para outro partido.

Como é que um estado escolhe um governador, uma bancada e um deputado com determinada orientação e, na eleição presidencial, entrega o resultado para outro lado? A resposta provavelmente é que as pessoas votam por motivos diferentes em cargos diferentes. Eu sei. Mas deixem a minha perplexidade respirar um pouquinho antes de colocarem nela um crachá de cientista política. Minas tem fama de ponderada; dessa vez, ponderou tanto que conseguiu votar numa direção e depois fazer uma curva fechada sem dar seta.

A gente fica com a impressão de que essa eleição foi vencida na canetada. Impressão, ressalto, porque ninguém apresentou provas de que a prorrogação tenha alterado o resultado. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu em cada lugar, e talvez nunca saibamos. Flávio pode contestar o resultado, e esse assunto ainda pode se arrastar. Mas, na prática, eu não consigo imaginar que uma contestação vá mudar o que já foi anunciado. O resultado está posto. E, tal como acontece num país democrático, mesmo quando a gente desconfia, estranha ou não se convence, vai ter de aceitar. Democracia também é isso: aceitar o resultado enquanto a gente continua perguntando como chegamos até ele. Uma definição que devia vir impressa junto com a urna, em letras grandes e com um aviso: “pode causar insônia”.

O país está completamente dividido. O Congresso ficou mais inclinado à direita, e o Centrão continua com poder para decidir votações e alianças. O próximo governo vai precisar negociar cada passo. Será uma gestão difícil, tentando governar com metade do país desconfiada da outra metade e parlamentares que podem apoiar uma proposta na segunda e pedir outro ministério na terça. Em Brasília, a coerência também deve ter horário de atendimento.

E, no meio desse cenário, o que me preocupa é o que vai respingar em nós, judeus, e em Israel. As duas embaixadas seguem funcionando, mas nenhuma tem um embaixador titular: a de Israel em Brasília é chefiada por uma encarregada de negócios, e a brasileira em Tel Aviv, por um encarregado. As cadeiras de embaixador continuam vazias; pelo menos, as equipes atendem e o telefone toca. Não é exatamente a diplomacia no modo mais caloroso.

Quando discursos hostis a Israel e aos judeus encontram espaço ou são tratados como se fossem apenas mais uma opinião inofensiva, a preocupação deixa de ser abstrata. A gente percebe que o mundo está disposto a discutir a nossa segurança com a mesma leveza com que discute a previsão do tempo: “há chance de tempestade, leve um guarda-chuva e não exagere na reação”. Para quem está dentro da tempestade, o guarda-chuva político costuma vir furado.

Amanhã é a nossa vez de votar. Depois de acompanhar a apuração brasileira de madrugada, espero que os israelenses consigam escolher com a cabeça fria. Sei que pedir cabeça fria numa eleição é quase como pedir silêncio numa festa de família: bonito no papel, mas ninguém acredita muito. Ainda assim, vamos torcer para que o voto seja livre, que a apuração seja transparente e que eu consiga dormir antes de descobrir o resultado. Uma meta pessoal que, aparentemente, é mais difícil de alcançar do que formar uma coalizão em Israel.

Não tenho prova de que houve manipulação no Brasil. Tenho uma lembrança antiga, uma opinião pessoal, uma madrugada mal dormida e muitas perguntas. Vou deixar cada coisa no lugar certo: a lembrança é minha, a opinião também, e as acusações precisam de prova. Mas não vou fingir que me convenci. Amanhã, no nosso quintal, cada um cuida do próprio voto. Eu já fiz a minha parte pela democracia brasileira: perdi uma noite de sono, discuti com a televisão e ainda acordei sem saber se o café vai resolver. Se não resolver, ao menos não promete governar o país.

E você, também ficou com uma pulga atrás da orelha com essa eleição? E o que espera da votação de amanhã em Israel?

Se este texto conversa com alguma lembrança ou dúvida sua, compartilhe. Vai que a gente descobre que não está sozinha nessa insônia eleitoral.

Título, Imagem e Texto: Leah Levy Cohen Ligia, Facebook, 26-10-2026, 11h03

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