Leah Levy Cohen Ligia
Tem lembrança que não envelhece. Pode
passar quase meio século, mudar o país, mudar o governo, mudar o corte de
cabelo da gente e mudar também a quantidade de paciência disponível para
acompanhar apuração eleitoral, que certas cenas continuam intactas na memória.
Ficam lá, muito bem guardadas, sem pagar aluguel e sem aceitar mudança de
endereço.
No fim dos anos 70 ou começo dos 80,
meu avô era sócio de uma metalúrgica no ABC. Eu era adolescente. Lembro de um
piquete na porta da fábrica, de Lula à frente da mobilização e de uma agressão
contra meu avô. Lembro principalmente do estado em que ele ficou: assustado,
abalado, quase em pânico. Essa é a minha lembrança, a marca que aquele episódio
deixou em mim. Não estou apresentando uma ata notarial da adolescência nem
esperando que alguém carimbe a minha memória com reconhecimento de firma. Estou
contando o que vivi e por que, para mim, política nunca foi só um gráfico
colorido na televisão.
Desde aquele dia, passei a olhar para
Lula com uma antipatia muito particular. É pessoal. Podem discordar, está tudo
bem. Cada um tem direito à sua opinião, e eu tenho direito à minha memória,
que, infelizmente, não aceita ser atualizada por aplicativo. Tem gente que
guarda foto de infância; eu guardo a lembrança do meu avô voltando daquele
episódio. Não é exatamente o tipo de recordação que a gente escolhe para
decorar a sala.
Lula trabalhou como metalúrgico por
alguns anos. Depois, afastou-se da Villares por licença sindical e passou a
fazer carreira no sindicato, onde trabalhava e recebia pela função. Para mim, o
torno mecânico foi uma fase; o microfone sindical acabou ficando com o papel
principal. E reza uma velha história, dessas que circulam há décadas, que ele
teria cortado o próprio dedo para se aposentar por invalidez. Nunca apareceu
prova disso, e as checagens dizem que o acidente foi de trabalho. Mas a lenda
continua firme. O dedo se foi; a história ganhou vida própria.
Também não entendo de política. Pelo menos é o que digo antes de passar horas lendo notícia, comparando números, desconfiando de gráficos e discutindo mentalmente com comentaristas que nem sabem que estou na sala. Não entendo de política, mas tenho uma especialização informal em acompanhar apuração de madrugada, adquirida à força e sem direito a certificado. Moro em Israel, fiquei acordada até quase três da manhã para esperar o resultado brasileiro e, no fim, ganhei uma eleição, uma olheira nova e a sensação de que meu travesseiro foi o único candidato que perdeu todos os votos.
Lula recebeu 10.376.694 votos a mais
no segundo turno do que no primeiro. Flávio também aumentou sua votação, em
3.721.538 votos. No primeiro turno, Flávio tinha terminado cerca de 2,2 milhões
de votos à frente. No segundo, Lula venceu por pouco mais de 4,4 milhões. São
números enormes. Eu fiquei tentando entender de onde veio tanta gente a mais
votando em Lula. Os ausentes voltaram? Os votos dos candidatos que ficaram pelo
caminho foram todos para ele? Uma parte mudou de lado? Olhando apenas o
resultado agregado, não dá para saber de onde veio cada voto. Eu não tenho
prova de fraude. Mas, diante de uma virada desse tamanho, é difícil não
perguntar como ela aconteceu. Para mim, tem algo que fede. Pode ser a apuração,
pode ser a minha desconfiança, pode ser o café que tomei às duas da manhã. Mas
o cheiro estava lá.
Talvez parte dessa impressão se deva à
canetada do ministro Cristiano Zanin, que autorizou a prorrogação da votação
até as 19h. Zanin tinha sido advogado de Lula e foi indicado por ele ao
Supremo. Isso não prova que a decisão tenha sido tomada para favorecer alguém,
mas também não é um detalhe que passe despercebido.
Outra pergunta que ficou no ar: por
que foi o Supremo Tribunal Federal a decidir sobre o horário da votação, e não
o Tribunal Superior Eleitoral, que é o tribunal máximo da Justiça Eleitoral?
Não existe uma hierarquia simples entre os dois para a administração das
eleições. O STF trata de questões constitucionais, e o TSE conduz a Justiça
Eleitoral. Justamente por isso, a entrada do Supremo numa decisão eleitoral tão
prática, em cima da hora, causou críticas dentro do próprio TSE.
A decisão saiu depois do horário
previsto para o fechamento das urnas e provocou confusão sobre quais seções
poderiam continuar recebendo votos. A orientação acabou sendo manter abertas
apenas as seções que ainda não tinham encerrado a votação. Eu não tenho prova
de que isso tenha mudado o resultado. Mas, entre o histórico profissional do
ministro, a indicação de Lula, a decisão de última hora e a dúvida sobre por
que o caso foi parar no STF, é difícil exigir que todo mundo simplesmente dê de
ombros. Para mim, ficou tudo muito estranho.
E Minas Gerais também me chamou
atenção. No primeiro turno, Flávio venceu no estado; Nikolas Ferreira foi o
deputado federal mais votado, com mais de três milhões de votos; e Cleitinho
foi eleito governador. No segundo turno, Lula virou por uma diferença pequena.
Eu fiquei olhando para aquilo como quem encara uma receita que diz “misture
tudo” e, depois de misturar, descobre que a panela está fazendo campanha para
outro partido.
Como é que um estado escolhe um
governador, uma bancada e um deputado com determinada orientação e, na eleição
presidencial, entrega o resultado para outro lado? A resposta provavelmente é
que as pessoas votam por motivos diferentes em cargos diferentes. Eu sei. Mas
deixem a minha perplexidade respirar um pouquinho antes de colocarem nela um
crachá de cientista política. Minas tem fama de ponderada; dessa vez, ponderou
tanto que conseguiu votar numa direção e depois fazer uma curva fechada sem dar
seta.
A gente fica com a impressão de que
essa eleição foi vencida na canetada. Impressão, ressalto, porque ninguém
apresentou provas de que a prorrogação tenha alterado o resultado. Ninguém sabe
exatamente o que aconteceu em cada lugar, e talvez nunca saibamos. Flávio pode
contestar o resultado, e esse assunto ainda pode se arrastar. Mas, na prática,
eu não consigo imaginar que uma contestação vá mudar o que já foi anunciado. O
resultado está posto. E, tal como acontece num país democrático, mesmo quando a
gente desconfia, estranha ou não se convence, vai ter de aceitar. Democracia
também é isso: aceitar o resultado enquanto a gente continua perguntando como
chegamos até ele. Uma definição que devia vir impressa junto com a urna, em
letras grandes e com um aviso: “pode causar insônia”.
O país está completamente dividido. O
Congresso ficou mais inclinado à direita, e o Centrão continua com poder para
decidir votações e alianças. O próximo governo vai precisar negociar cada
passo. Será uma gestão difícil, tentando governar com metade do país
desconfiada da outra metade e parlamentares que podem apoiar uma proposta na
segunda e pedir outro ministério na terça. Em Brasília, a coerência também deve
ter horário de atendimento.
E, no meio desse cenário, o que me
preocupa é o que vai respingar em nós, judeus, e em Israel. As duas embaixadas
seguem funcionando, mas nenhuma tem um embaixador titular: a de Israel em
Brasília é chefiada por uma encarregada de negócios, e a brasileira em Tel
Aviv, por um encarregado. As cadeiras de embaixador continuam vazias; pelo
menos, as equipes atendem e o telefone toca. Não é exatamente a diplomacia no
modo mais caloroso.
Quando discursos hostis a Israel e aos
judeus encontram espaço ou são tratados como se fossem apenas mais uma opinião
inofensiva, a preocupação deixa de ser abstrata. A gente percebe que o mundo
está disposto a discutir a nossa segurança com a mesma leveza com que discute a
previsão do tempo: “há chance de tempestade, leve um guarda-chuva e não exagere
na reação”. Para quem está dentro da tempestade, o guarda-chuva político
costuma vir furado.
Amanhã é a nossa vez de votar. Depois
de acompanhar a apuração brasileira de madrugada, espero que os israelenses
consigam escolher com a cabeça fria. Sei que pedir cabeça fria numa eleição é
quase como pedir silêncio numa festa de família: bonito no papel, mas ninguém
acredita muito. Ainda assim, vamos torcer para que o voto seja livre, que a
apuração seja transparente e que eu consiga dormir antes de descobrir o
resultado. Uma meta pessoal que, aparentemente, é mais difícil de alcançar do
que formar uma coalizão em Israel.
Não tenho prova de que houve
manipulação no Brasil. Tenho uma lembrança antiga, uma opinião pessoal, uma
madrugada mal dormida e muitas perguntas. Vou deixar cada coisa no lugar certo:
a lembrança é minha, a opinião também, e as acusações precisam de prova. Mas
não vou fingir que me convenci. Amanhã, no nosso quintal, cada um cuida do
próprio voto. Eu já fiz a minha parte pela democracia brasileira: perdi uma
noite de sono, discuti com a televisão e ainda acordei sem saber se o café vai
resolver. Se não resolver, ao menos não promete governar o país.
E você, também ficou com uma pulga
atrás da orelha com essa eleição? E o que espera da votação de amanhã em
Israel?
Se este texto conversa com alguma
lembrança ou dúvida sua, compartilhe. Vai que a gente descobre que não está
sozinha nessa insônia eleitoral.
Título, Imagem e Texto: Leah Levy
Cohen Ligia, Facebook,
26-10-2026, 11h03

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