O Vasco da Gama se aproxima da conclusão da venda de 90% das ações da SAF para a empresa de Marcos Lamacchia
França Fernandes
Em Assembleia Geral Extraordinária (AGE) nesta sexta-feira (23), os sócios do Vasco aprovaram a venda de 90% das ações da SAF para a Almirante Participações e Empreendimentos S.A., empresa controlada por Marcos Lamacchia [foto]. Foram 4.675 votos a favor e 437 contra, além de 48 abstenções.
A votação ocorreu em duas
partes. Na primeira, foi avaliada a mudança de estatuto para a diminuição de
20% para 10% da manutenção das ações do clube associativo na SAF. Na segunda,
foi a votação pela proposta do grupo de Lamacchia.
Após o resultado, o presidente
do Vasco, Pedrinho, comemorou a negociação junto de Marcos Lamacchia.
– É um dia histórico pelo tipo
de investidor que está entrando na instituição. É uma correção do problema, com
um investidor que sabemos do potencial financeiro que tem. O mais importante é
a segurança institucional com todas as garantias e o desejo do investidor de
estar no Vasco. Isso foi importante para todos nós. Hoje é uma virada de página
— disse Pedrinho, lembrando do imbróglio que o clube passou com a 777, antiga
dona da SAF.
Próximos passos para a
conclusão da venda da SAF
A Assembleia é o último dos
ritos internos do clube para o repasse do futebol para a empresa. No dia 6 de
outubro, o Conselho Deliberativo do Vasco já havia aprovado a mudança
estatutária e venda à Almirante, decisões corroboradas pelos sócios.
Agora, clube e empresa entram em compasso de espera pelas análises dos órgãos responsáveis. A Anresf (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol) avalia mudanças societárias nas SAFs do Brasil e, no caso do Vasco, ainda investiga um possível conflito de interesses na negociação, uma vez que Marcos Lamacchia, filho de José Roberto Lamacchia, é enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras.
Apesar de Marcos Lamacchia ser
o principal investidor e responsável financeiro pelo projeto, a Almirante tem
como presidente Mário Junqueira Franco Junior, sócio da empresa ao lado de
Lamacchia.
Além disso, o Cade (Conselho
Administrativo de Defesa Econômica) instaurou um procedimento administrativo,
que tramita em sigilo, para apurar a negociação. A autarquia investiga uma
possível alteração de controle sem análise prévia, além de indícios de que o
grupo do empresário já teria interferido na SAF antes da autorização, em razão
dos empréstimos efetuados ao clube.
Em caso de sinal verde dos
órgãos, restarão apenas os ritos processuais e burocráticos relacionados à
arrematação e aos ativos a serem transferidos da antiga para a nova SAF.
– Ainda temos processos com
órgãos fiscalizadores, mas a gente está prestando todas as informações. Não é
um processo de vedação, é um processo de transparência, esclarecimento,
dúvidas, informações, contratos. E tudo o que está sendo solicitado, a gente
está apresentando. A gente tem certeza que vai passar, todo mundo está
entendendo. Eu vejo um espírito colaborativo mesmo dos órgãos fiscalizadores —
disse o presidente da Assembleia Geral, Alan Belaciano.
Como ocorreu a votação
A sexta-feira chuvosa no Rio
contribuiu para uma votação em massa pelo meio digital. Poucas pessoas
compareceram à Sede Náutica — que chegou a ficar alguns minutos sem luz —,
deixando o início do dia um tanto monótono no local. Até as 15h, somente 106 sócios
haviam comparecido para votar. Ainda assim, quem foi à sede fez questão de
comemorar os votos favoráveis à venda da SAF.
– Momento histórico. Tem que
comemorar — disse Fabio Espíndola, médico de 51 anos, que votou acompanhado dos
filhos Beatriz Lopes, de 15, e Pedro Espíndola, de 11, ambos estudantes.
Já na votação online, mais de
2,5 mil sócios haviam participado nas duas primeiras horas de Assembleia. Ao
todo, 7.195 estão aptos a votar.
Tanto entre os que foram à
Sede Náutica quanto entre os que participaram de casa, chamou a atenção o fato
de os sócios não terem recebido o contrato da negociação entre a Almirante e o
Vasco. A votação ocorreu, portanto, com base nas informações sobre o negócio
que haviam sido divulgadas publicamente.
– A gente não tem como abrir o
contrato para os sócios, porque o contrato tem muitas cláusulas de
confidencialidade, tem muitos pontos comerciais estratégicos, números do Vasco
que são muito importantes estrategicamente. Isso, indo para fora, pode prejudicar
o Vasco em futuras negociações, no mercado em geral. Então, obviamente, a gente
manteve resguardado — disse o presidente da Assembleia Geral, Alan Belaciano.
O dirigente, no entanto,
ressaltou que considera que os sócios têm informações suficientes para tomar a
decisão:
– O sócio está bem instruído
com isso (negociação) e hoje vai exercer o poder mais forte que ele tem, que é
a sua palavra. A palavra do sócio é a palavra que manda — completou.
A operação da venda da SAF
A operação foi estruturada por
meio da alienação judicial da chamada UPI Equity, mecanismo previsto no plano
de recuperação judicial apresentado pelo Vasco à Justiça para viabilizar a
transferência do controle acionário da Nova SAF. A Almirante venceu o processo
competitivo em setembro, após apresentar uma proposta vinculante de aquisição.
O negócio gira em torno de R$
4 bilhões, considerando os valores a serem pagos pela aquisição e os aportes
financeiros previstos para a SAF, além de outras obrigações assumidas pela
compradora, conforme as condições estabelecidas no processo judicial. Com a
aprovação dos sócios, a negociação avança para as etapas finais de formalização
e implementação, observados os procedimentos jurídicos aplicáveis.
O acordo prevê aporte mínimo
de R$ 500 milhões para o futebol em cinco anos, além de R$ 120 milhões para o
centro de treinamento profissional e R$ 30 milhões para a infraestrutura das
categorias de base. A compradora também assume compromissos relacionados ao
pagamento das dívidas e ao equilíbrio do caixa da nova SAF nos primeiros cinco
anos. Entre as garantias previstas está uma fiança bancária ou seguro-garantia
de R$ 324 milhões, além da garantia pessoal de Marcos Lamacchia e de uma
conta-reserva para determinadas obrigações.
Principais pontos da
proposta da Almirante Participações
·
R$ 500 milhões especificamente para o futebol
·
R$ 120 milhões para centros de treinamento, com
prazo máximo de dez anos para conclusão
·
R$ 30 milhões para as categorias de base, ao
longo de dois anos
·
Compromisso com o pagamento das dívidas já
acordadas e outras obtidas durante acordo
·
Manter caixa equilibrado por cinco anos
·
Garantias financeiras de R$ 324 milhões
Fonte: O Globo
Título e Texto: França
Fernandes, Diário do Rio, 24-10-2026

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