Marcia Cernawsky
Sou brasileira e como estou cansada de dizer, vivo em Portugal há
20 anos e, ao longo desse tempo, aprendi que viver num país diferente daquele
onde nascemos exige adaptação, respeito pelas leis, pelos costumes e pela
maneira como aquela sociedade funciona.
Ao acompanhar as notícias sobre as manifestações pela habitação em
Lisboa, especialmente a participação de uma brasileira como porta-voz de um
movimento que acabou com acampamentos desmontados, dezenas de detenções e atos
de vandalismo, confesso que fiquei bastante incomodada.
Não sou contra manifestações, muito menos contra o direito à
habitação. Sei que Portugal atravessa uma crise habitacional grave, que os
salários não acompanham o custo de vida e que muitas famílias enfrentam enormes
dificuldades. São problemas reais que precisam de soluções sérias.
Mas uma coisa é reivindicar melhores condições de vida, outra é
transformar um protesto numa situação de desordem. E quando vejo notícias de
vandalização de monumentos históricos, como aconteceu com a estátua de D. Pedro
IV, no Rossio, a minha indignação é ainda maior. Estamos a falar de património
histórico e cultural português, que pertence a todos e merece ser preservado.
Não consigo compreender como alguém pretende defender uma causa legítima
desrespeitando aquilo que faz parte da história de um país.
O que também me incomoda é ver uma imigrante brasileira assumir
uma posição de destaque num protesto com estas características. Não por ser
brasileira, porque eu também sou, mas porque acredito que, quando escolhemos
viver noutro país, precisamos de compreender e respeitar a sociedade que nos
acolhe. Isso não significa aceitar injustiças em silêncio, mas também não
significa querer fazer tudo à nossa maneira.
O Brasil vive há anos uma polarização política que, na minha opinião, se tornou insuportável. Ou se é de direita ou se é de esquerda, e parece que já não existe espaço para o bom senso. Tudo vira uma guerra ideológica. E sinceramente, não gostaria de ver essa mesma mentalidade transportada para Portugal. Saímos do Brasil, mas parece que, em alguns casos, o Brasil não sai de nós.
Nestes 20 anos, procurei adaptar-me à vida portuguesa sem deixar
de ser brasileira. Nunca senti necessidade de impor os meus costumes ou a minha
maneira de pensar. E tenho uma opinião que pode não agradar a todos: quem
decide emigrar precisa de estar preparado para enfrentar dificuldades. Se não
consegue manter-se ou não se identifica com a realidade do país que escolheu,
regressar ao país de origem também é uma opção. Não podemos esperar que o país
de acolhimento se transforme naquilo que gostaríamos que fosse.
Quanto à intervenção policial, se houve excessos, devem ser
investigados. Mas também não podemos assumir automaticamente que toda a ação da
polícia perante uma manifestação seja repressão, principalmente quando existem
situações de desobediência e danos ao património público.
Portugal tem os seus problemas, muitos deles graves, e precisa de
soluções. Mas não acredito que importar a radicalização e os confrontos
políticos que tanto desgastaram o Brasil seja o caminho.
Até alguns anos atrás, tinha orgulho de ser brasileira, mas acho
que o brasileiro de hoje deixa - e não é pouco - á desejar. Também tenho um
enorme respeito pelo país onde escolhi construir a minha vida. Para mim,
adaptar-me a Portugal nunca significou perder as minhas raízes, mas compreender
que viver aqui não é tentar transformar este país numa cópia daquele que deixei
para trás.
Reivindicar direitos é legítimo. Desrespeitar a história, as leis
e o patrimônio de um país não deveriam fazer parte de nenhuma reivindicação.
Ser Imigrante Também É Saber Respeitar O País Que Nos Acolhe
Título, Imagem e Texto: Marcia Cernawsky, Facebook, 21-10-2026, 14h19
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Nossa! Que resumo! 👏
"Os vagabundo sai daqui para ter moradia, de graça, em Lisboa!
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