quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Aborto: Quando a cultura devora aquilo que Deus chama fruto

Maria Helena Costa 

O Jardim do Éden e a Queda do Homem. Jan Brueghel o Velho e Pieter Paul Rubens, 1615, Wikipedia

Quando Deus criou o ser humano, disse:

“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.”
(Génesis 1:26)

Homem e mulher foram criados para reflectir a imagem e o carácter de Deus. Imediatamente a seguir, Deus ordena:

“Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a.”
(Génesis 1:28)

Deus, fonte de toda a vida, permite que criaturas feitas à Sua imagem participem da continuidade da vida, da reprodução da vida. A fecundidade humana não é um acidente biológico; é um mandado criacional.

Agora, compreende o grande conflito. Satanás não é Criador; é criatura. Ele não consegue gerar uma imagem concorrente à imagem de Deus. Por isso, corrompe. Tenta deformar nas criaturas aquilo que deveria reflectir o Criador, até que elas passem a reproduzir o princípio da sua própria rebelião. E qual é esse princípio? A criatura querendo ocupar o lugar de Deus.

É por isso que a primeira tentação registada em Génesis é tão reveladora. A serpente diz:

“Sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.”
(Génesis 3:5).

Existe uma ironia profunda aqui: eles já eram imagem e semelhança de Deus. Tinham sido criados para serem semelhantes a Ele no carácter, na justiça e na santidade. Satanás seduziu-os à rebelião. Deus diz:

“Reflecti quem Eu sou”.

A serpente diz:

“Não precisais de Deus para determinar o bem e o mal; sede a vossa própria autoridade.”

Essa é a mentira que atravessa toda a história humana.

Sabes o que acontece imediatamente depois da queda? Deus declara à serpente:

“Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a sua descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” 
(Génesis 3:15)

Aqui começa a ver-se um padrão claro: há uma guerra antiga contra a mulher, contra a sua descendência e, em última análise, contra a vida que carrega a imagem de Deus.

Esse padrão manifesta-se ao longo das Escrituras. Faraó, no Egipto, ordena a morte dos meninos hebreus (Êxodo 1:15-22). Herodes, na tentativa de impedir que o Messias cumprisse a Sua missão, manda matar todos os meninos de Belém e das suas redondezas, de dois anos para baixo (Mateus 2:16). Quando chegamos a Apocalipse 12, encontramos novamente uma mulher, um filho varão e um dragão vermelho, que

“se pôs diante da mulher que havia de dar à luz, para que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho”
(Apocalipse 12:4).

A Bíblia identifica o dragão sem ambiguidade:

“O grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo.” 
(Apocalipse 12:9)

Existe uma guerra antiga contra a vida e contra a descendência. Como cristã, não consigo olhar para o aborto apenas como uma questão política ou moderna, porque existe algo profundamente espiritual quando uma sociedade começa a discutir em que circunstâncias uma vida humana pode ser considerada descartável. Existe uma perversão ainda mais profunda: Deus concedeu ao corpo feminino a extraordinária capacidade de gestar uma nova vida humana — uma vida feita à Sua imagem — e a nossa cultura conseguiu convencer muitas mulheres de que essa vida pode ser inimiga da sua liberdade, um mero aglomerado de células, um parasita que a explora ou simplesmente algo que a vai atrapalhar. Não é curioso? Aquilo que Deus chamou de fruto, o mundo pode chamar problema. Aquilo que Deus conhece ainda no ventre (Salmo 139:13-16), o mundo reduz a algo descartável.

Jesus chamou a Satanás “homicida desde o princípio” (João 8:44), porque Satanás não cria; ele distorce aquilo que Deus criou. Ele é o pai da mentira e o assassino desde o início. Esta guerra não é apenas pelo teu comportamento; é por aquilo que tu reflectes. A criatura feita à imagem de Deus é o alvo.

Talvez agora compreendas que a guerra contra a vida não começou no movimento feminista, nem nos governantes, nem em qualquer tribunal; ela começou no Éden. E mesmo que possas não acreditar em Deus, que rejeites por completo o relato da criação e consideres a Bíblia um livro de mitos antigos, nada neste texto te obriga a mudar de opinião. O que ele faz é mostrar, com as próprias palavras das Escrituras, um padrão que atravessa a Bíblia, de Génesis a Apocalipse: uma hostilidade antiga e persistente contra a vida humana no ventre e contra a descendência. Depois de o leres, podes continuar a discordar e a defender o aborto. O que já não podes é dizer que nunca te foi apresentado o que a Bíblia e a sua visão da história afirmam sobre a origem da vida, sobre a imagem de Deus no ser humano e sobre o aborto. A ignorância deixou de ser uma opção.

Título e Texto: Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023), Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025) e Genocídio Silencioso (2026), ContraCultura, 15-10-2026

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