Paulo Hasse Paixão
A noite passada não foi bem dormida para milhões de
brasileiros
Quase todas as sondagens e
previsões até domingo à tarde davam Flávio Bolsonaro à frente; mas a contagem
final deu a vitória a Lula, com 51,77% contra 48,23%.
🇧🇷 Brasil update (95.3% counted): ◾️Luiz Inácio Lula da Silva (PT): 51.72% ◾️Flávio Bolsonaro (PL): 48.28% Lula leads by roughly 4.06 million votes. The margin has continued to grow as counting nears completion. Sources including Politicômetro (pulling live TSE data) and The Guardian confirm these figures.
— Brian McDonald B (@iamBrianBJ) October 26, 2026
A pedra de toque desta
reviravolta parece ter sido uma polémica decisão do Supremo Tribunal. O juiz
Cristiano Zanin, nomeado por Lula, alargou a votação a todo o país até às
19h00, hora de Brasília, após queixas de ambas as campanhas, e o Tribunal
Eleitoral, o TSE, suspendeu a contagem por cerca de duas horas.
Uma espécie de flashback.
Acontece que quando a contagem foi reatada, as tendências inverteram-se: Bolsonaro, que liderava o escrutínio passou num curto espaço de tempo para o vencido da noite. Este é um filme que já vimos acontecer, numa outra federação das Américas, em 2020.
Parlamentares da oposição, entre os quais membros do Partido Liberal (PL) de Bolsonaro, afirmam que Zanin atropelou a autoridade do TSE para beneficiar apenas Lula. O deputado Marcel van Hattem classificou a decisão do Supremo como “absurda” e uma tentativa de vencer “nos tribunais”, e disse que vai procurar a destituição dos ministros que abusaram do seu poder.
Nikolas Ferreira, deputado do
PL, disse que a prorrogação beneficiou “apenas um lado”, e Bia Kicis afirmou
que sentia “um cheiro a golpe do PT no ar”. Flávio Bolsonaro, após votar, disse
que o Brasil não aguentaria mais quatro anos como está agora; tendo depois
contestado a contagem publicamente e exigido um novo ato eleitoral.
*BOLSONARO TEAM ASKS COURT TO ANNUL RUNOFF OVER VOTING ISSUES
— zerohedge (@zerohedge) October 26, 2026
Por seu lado, a coligação de
Lula afirma que pediu mais tempo porque os autarcas reduziram as frotas de
autocarros na Bahia e em São Paulo, deixando os eleitores sem transporte. Lula
disse que aceitaria o resultado, independentemente de quem ganhasse.
Os aliados de Lula descrevem a
direita como estando a preparar uma contestação antecipadamente. Uma análise da
Goldman Sachs tinha alertado que uma margem inferior a um ponto percentual
poderia aumentar o risco de um resultado contestado.
Os juízes do tribunal
eleitoral terão considerado a ordem de Zanin uma invasão da sua jurisdição, ao
mesmo tempo que descartaram uma “terceira volta”. Uma no cravo e outra na
ferradura, portanto.
A senadora Tereza Cristina disse que o episódio vai deixar marcas no sistema eleitoral, enquanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, pediu a todos que aceitassem o resultado da votação.
Rumores e teorias.
Entretanto, circulam rumores
que a prorrogação do prazo visava preparar a anulação da segunda volta, na
perspectiva de que Bolsonaro a iria vencer. Sebastião Coelho, juiz jubilado,
afirmou num vídeo que “estamos perante a preparação para anular esta segunda
volta” e classificou a circunstância como “uma grande fraude”; apontando para o
momento do pedido de Lula e da ordem de Zanin, quando tudo indicava uma vitória
do seu adversário.
Há também quem alegue que as
máquinas electrónicas de voto podem ser manipuladas, porque não imprimem um
comprovativo para o eleitor verificar que o seu voto foi registado
correctamente.
Em causa está também a
supervisão dos fiscais eleitorais. Flávio incentivou os seus apoiantes a
dirigirem-se aos locais de voto depois das 17h00 para verificar se os chefes
das mesas registavam os votos dos eleitores ausentes; sendo que os apoiantes de
Lula consideraram este apelo uma receita para a intimidação.
À esquerda, acusa-se a campanha de Flávio Bolsonaro de estar a preparar a narrativa que justifique um golpe de Estado.
A eleição pode ser anulada?
Vários advogados eleitorais afirmaram que o ato de ontem pode ser anulado devido à
confusão em torno da decisão tardia de alargar o horário de votação. Todos os
quatro advogados entrevistados consideram a situação sem precedentes.
A advogada Priscilla Sodré
Pereira afirmou a este propósito:
“Esta é uma situação
extremamente grave e crítica. Até porque no momento do anúncio, algumas mesas
de voto já tinham fechado, as suas urnas electrónicas tinham sido desligadas e
não puderam reabrir.”
Fernando Neisser, professor de
direito eleitoral da Fundação Getúlio Vargas, um instituto de sondagens
brasileiro, afirmou que a eleição pode ser anulada se a margem for demasiado
estreita e se se provar que as mesas de voto se mantiveram abertas durante mais
tempo em zonas que favorecem fortemente um dos candidatos.
O TSE já declarou formalmente o vencedor, devendo ser apresentadas contestações aos tribunais eleitorais dentro dos prazos legais. O presidente eleito toma posse a 5 de Janeiro de 2027.
Título e Texto: Paulo
Hasse Paixão, ContraCultura,
26-10-2026
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