quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Malandro


O presidente Lula resolveu acrescentar uma expressão ao vocabulário eleitoral brasileiro. Durante o debate presidencial, chamou seu adversário de “malandro carioca”.

Não parece ter sido um elogio.

O Rio de Janeiro conhece a malandragem há muito tempo. Fez dela personagem, samba, teatro e literatura.

O malandro de antigamente vestia terno branco, chapéu de palhinha e sapato bicolor. Frequentava a Lapa, cultivava a boemia e sobrevivia entre a esperteza e a necessidade.

Nem sempre respeitava as regras, mas também não tinha a pretensão de governar o país.

Chico Buarque compreendeu esse universo na Ópera do Malandro, onde a esperteza abandona as esquinas e atravessa todas as classes sociais.

Há o malandro que engana para sobreviver e aquele que transforma a esperteza em profissão.

O primeiro tenta escapar da pobreza. O segundo, das consequências.

Com o tempo, a malandragem mudou de endereço.

Abandonou a Lapa, dispensou o chapéu de palhinha e descobriu os gabinetes refrigerados dos palácios.

Trocou o samba pelo discurso, o jogo de cartas pelo jogo político e os pequenos expedientes pelos grandes negócios.

O malandro de ontem podia deixar uma conta pendurada no botequim. O de hoje pode deixar a conta para gerações inteiras de contribuintes.

E ainda pedir aplausos.

A malandragem também perdeu sua identidade regional. Nacionalizou-se.

Já não depende do sotaque, do gingado ou do local de nascimento. Pode usar gravata, ocupar cargos importantes, discursar solenemente sobre ética e transformar a promessa de abrir o próprio sigilo num espetáculo de bazófias.

É justamente aí que a expressão utilizada por Lula ganha uma ironia particular.

Ao chamar seu adversário de “malandro carioca”, o presidente entrou num terreno em que a política brasileira possui uma longa e pouco recomendável tradição.

E ele próprio conhece bem esse território.

Seu nome esteve no centro das controvérsias envolvendo o sítio de Atibaia e o triplex do Guarujá. Lula sempre negou ser proprietário dos imóveis e rejeitou as acusações de corrupção. As condenações relacionadas a esses processos foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.

Mas a memória política brasileira conservou um repertório de negativas que atravessou os anos.

— Eu não sabia.

— O sítio não é meu.

— O triplex não é meu.

E, nas provocações que circulam pelo universo político, até os vínculos familiares acabam entrando na roda:

— O filho não é meu.

São histórias distintas, que não devem ser confundidas nem transformadas em condenações. Revelam como a política brasileira aperfeiçoou a arte de negar, explicar, transferir responsabilidades e disputar versões.

Afinal, no mundo político, a responsabilidade é uma mercadoria que raramente encontra comprador.

Como diz a conhecida canção, se o malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem.

E a memória, quando conveniente, demonstra uma extraordinária capacidade de desaparecer.

Por isso, quando um candidato chama outro de malandro, convém perguntar de qual espécie está falando.

Do personagem folclórico que atravessava a Lapa ou daquele que atravessa os corredores do poder?

Do sujeito que enganava o dono do botequim ou daquele que consegue enganar milhões de eleitores?

O carioca não inventou a desonestidade. Apenas deu à malandragem um personagem que o Brasil inteiro aprendeu a cantar.

A corrupção, a mentira e o oportunismo dispensam endereço. Não possuem sotaque nem preferência partidária.

Seria injusto confundir a irreverência de um povo com os vícios daqueles que disputam o poder.

Lembrei-me, então, de um samba de Jorge Aragão, eternizado na voz de Elza Soares, que começa com uma interpelação:

“Malandro, eu ando querendo falar com você”.

Talvez seja exatamente isso que o eleitor brasileiro tenha a dizer no próximo domingo, dia 25.

Porque o carioca, que transformou a malandragem em samba, também conhece os limites da esperteza.

E tem uma expressão que deveria estar escrita na parede de todos os comitês eleitorais:

Malandro demais se atrapalha.

Quem pretende fazer o eleitor de otário pode acabar descobrindo, diante das urnas, que a malandragem mudou de lado.

E ouvir uma resposta bem carioca:

— Perdeu, mané!

Porque malandro é malandro.

E mané é mané!

Podes crer que é!

Título e Texto: Marcelo Duarte Lins, Facebook, 21-10-2026, 4h06

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