Não parece ter sido um elogio.
O Rio de Janeiro conhece a malandragem
há muito tempo. Fez dela personagem, samba, teatro e literatura.
O malandro de antigamente vestia terno
branco, chapéu de palhinha e sapato bicolor. Frequentava a Lapa, cultivava a
boemia e sobrevivia entre a esperteza e a necessidade.
Nem sempre respeitava as regras, mas
também não tinha a pretensão de governar o país.
Chico Buarque compreendeu esse
universo na Ópera do Malandro, onde a esperteza abandona as esquinas e
atravessa todas as classes sociais.
Há o malandro que engana para
sobreviver e aquele que transforma a esperteza em profissão.
O primeiro tenta escapar da pobreza. O
segundo, das consequências.
Com o tempo, a malandragem mudou de
endereço.
Abandonou a Lapa, dispensou o chapéu
de palhinha e descobriu os gabinetes refrigerados dos palácios.
Trocou o samba pelo discurso, o jogo de cartas pelo jogo político e os pequenos expedientes pelos grandes negócios.
O malandro de ontem podia deixar uma
conta pendurada no botequim. O de hoje pode deixar a conta para gerações
inteiras de contribuintes.
E ainda pedir aplausos.
A malandragem também perdeu sua
identidade regional. Nacionalizou-se.
Já não depende do sotaque, do gingado
ou do local de nascimento. Pode usar gravata, ocupar cargos importantes,
discursar solenemente sobre ética e transformar a promessa de abrir o próprio
sigilo num espetáculo de bazófias.
É justamente aí que a expressão
utilizada por Lula ganha uma ironia particular.
Ao chamar seu adversário de “malandro
carioca”, o presidente entrou num terreno em que a política brasileira possui
uma longa e pouco recomendável tradição.
E ele próprio conhece bem esse
território.
Seu nome esteve no centro das
controvérsias envolvendo o sítio de Atibaia e o triplex do Guarujá. Lula sempre
negou ser proprietário dos imóveis e rejeitou as acusações de corrupção. As
condenações relacionadas a esses processos foram posteriormente anuladas pelo
Supremo Tribunal Federal.
Mas a memória política brasileira
conservou um repertório de negativas que atravessou os anos.
— Eu não sabia.
— O sítio não é meu.
— O triplex não é meu.
E, nas provocações que circulam pelo
universo político, até os vínculos familiares acabam entrando na roda:
— O filho não é meu.
São histórias distintas, que não devem
ser confundidas nem transformadas em condenações. Revelam como a política
brasileira aperfeiçoou a arte de negar, explicar, transferir responsabilidades
e disputar versões.
Afinal, no mundo político, a
responsabilidade é uma mercadoria que raramente encontra comprador.
Como diz a conhecida canção, se o
malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem.
E a memória, quando conveniente,
demonstra uma extraordinária capacidade de desaparecer.
Por isso, quando um candidato chama
outro de malandro, convém perguntar de qual espécie está falando.
Do personagem folclórico que
atravessava a Lapa ou daquele que atravessa os corredores do poder?
Do sujeito que enganava o dono do
botequim ou daquele que consegue enganar milhões de eleitores?
O carioca não inventou a
desonestidade. Apenas deu à malandragem um personagem que o Brasil inteiro
aprendeu a cantar.
A corrupção, a mentira e o oportunismo
dispensam endereço. Não possuem sotaque nem preferência partidária.
Seria injusto confundir a irreverência
de um povo com os vícios daqueles que disputam o poder.
Lembrei-me, então, de um samba de
Jorge Aragão, eternizado na voz de Elza Soares, que começa com uma
interpelação:
“Malandro, eu ando querendo falar com
você”.
Talvez seja exatamente isso que o
eleitor brasileiro tenha a dizer no próximo domingo, dia 25.
Porque o carioca, que transformou a
malandragem em samba, também conhece os limites da esperteza.
E tem uma expressão que deveria estar
escrita na parede de todos os comitês eleitorais:
Malandro demais se atrapalha.
Quem pretende fazer o eleitor de
otário pode acabar descobrindo, diante das urnas, que a malandragem mudou de
lado.
E ouvir uma resposta bem carioca:
— Perdeu, mané!
Porque malandro é malandro.
E mané é mané!
Podes crer que é!
Título e Texto: Marcelo Duarte Lins,
Facebook,
21-10-2026, 4h06
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