O Brasil descobriu uma maneira aparentemente simples de melhorar a vida dos trabalhadores: diminuir a semana.
O Congresso aprovou o fim da escala
6x1. Menos horas de trabalho, dois dias de descanso e salário preservado.
Uma conquista para quem trabalha seis
dias e dispõe de apenas um para descansar, cuidar da família e, se sobrar
tempo, viver.
Tudo muito justo.
O problema é que, entre a justiça de
uma intenção e a realidade de sua execução, costuma aparecer uma personagem
inconveniente: a conta.
E essa jamais falta ao compromisso.
A aprovação veio às vésperas do
segundo turno das eleições. Uma coincidência de calendário que certamente não
passou despercebida aos políticos.
Afinal, em época eleitoral, poucas
coisas rendem tantos aplausos quanto anunciar benefícios cuja conta será
apresentada depois.
Não significa que a proposta seja
ruim. Apenas que uma boa ideia também pode ser um excelente cabo eleitoral.
E disso nossos parlamentares entendem.
Curiosamente, quando o assunto é conquistar votos, ninguém reclama de trabalhar aos domingos.
Há, entretanto, um detalhe que talvez
tenha escapado aos mais entusiasmados.
Quem estiver imaginando sábados e
domingos livres pode ir tirando o cavalinho da chuva.
Os restaurantes continuarão servindo
almoços aos domingos. Os hotéis receberão hóspedes. Os supermercados abrirão
suas portas. Os hospitais atenderão pacientes. Os aviões continuarão decolando.
E os condomínios?
Ninguém pretende fechar a portaria na
sexta-feira e reabri-la na segunda. Porteiros, vigilantes e equipes de
manutenção continuarão necessários.
Alguém terá de trabalhar enquanto os
outros descansam.
Afinal, até o direito ao lazer depende
de alguém que esteja trabalhando.
Para manter tudo funcionando com
jornadas menores, muitas empresas precisarão reorganizar escalas, contratar
funcionários ou aumentar a produtividade.
E tudo isso custa.
Uma grande empresa talvez consiga
absorver a mudança com tecnologia, automação e gestão eficiente.
Quem explicará ao seu Manoel, dono da
padaria da esquina, como fechar a conta sem fechar a padaria?
E o restaurante familiar? A pequena
farmácia? O condomínio que já faz malabarismos para fechar o orçamento?
Quando os custos aumentam, alguém
precisa pagar.
Pode ser o empresário, sacrificando
sua margem. Pode ser o consumidor, enfrentando preços maiores. Pode ser o
trabalhador, se as contratações diminuírem.
Ou todos, dividindo uma conta que
ninguém pediu para receber.
Experiências internacionais mostram
que jornadas menores podem trazer benefícios. Mas seus resultados dependem da
produtividade, da organização do trabalho e das condições econômicas de cada
país.
Não basta encurtar o calendário para
alongar a prosperidade.
O Brasil, entretanto, parece gostar de
começar a construção pelo telhado.
Primeiro anuncia a conquista. Depois
procura os meios de sustentá-la.
É preciso reconhecer que trabalhar
seis dias por semana pode significar pouco tempo para os filhos, para os
amigos, para o descanso e para a própria vida.
O ser humano não nasceu para passar a
existência inteira trabalhando.
Mas também não se cria prosperidade
por decreto.
A discussão deveria ir além de quantas
horas trabalhamos. Precisaria alcançar quanto produzimos, em que condições e
com quais recursos.
Produtividade não nasce de discursos,
emendas constitucionais ou palanques eleitorais.
Nasce de investimentos, conhecimento,
organização e eficiência.
Assuntos pouco atraentes para
campanhas, porque exigem planejamento, continuidade e resultados que nem sempre
chegam antes da próxima eleição.
O Congresso pode reduzir a jornada de
trabalho. Mas não pode reduzir, por decreto, as horas de funcionamento de uma
sociedade.
Muito menos garantir que a riqueza
produzida permanecerá a mesma.
O desafio não está em escolher entre o
descanso do trabalhador e a sobrevivência das empresas.
Está em tornar possível uma coisa sem
comprometer a outra.
No fim, a semana poderá ficar menor.
Resta saber se a conta também ficará.
Porque existe uma escala que parece
resistir a qualquer reforma no Brasil.
A de quem trabalha, produz, paga
impostos e sustenta a máquina pública.
Essa continua sendo 7x0.
Título e Texto: Marcelo Duarte Lins, Facebook, 16-10-2026, 4h01
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