Aparecido Raimundo de Souza
— Esse maldito é um ladrão —
sussurravam os mais antigos, com os olhos cheios de tristeza.
Outros, mais abrasados pelo ódio,
acrescentavam numa espécie de coro esfacelado sem se fazerem presentes as
entonações e os clamores das vozes ativas:
— É um pilantra, que aproveita da fé
de quem não tem outra saída. Mais atrás, ocupando os bancos derradeiros, as
senhoras abraçadas aos seus maridos, filhos e netos, emendavam, as vozes
embargadas para não serem reconhecidas. Sabiam, de antemão, se fossem descobertas,
os castigos lancinantes chegariam sem os contornos da piedade:
— E sempre sobra para nós, que
pagamos o pato, completavam aturdidos, outros irmãos como se as paredes
pudessem ouvir ou pior, denunciá-los.
Diziam que ele, o larápio, sabia de antemão como chegar ao coração dos mais simples e fracos, para depois lhes esvaziarem as prateleiras dos alimentos mais essenciais. E não eram apenas palavras jogadas ao vento. O homem já havia estado atrás das grades, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, não uma, mas duas outras vezes. Alardeavam que em outras congregações, o amaldiçoado afanou as poupanças de famílias que economizaram a vida inteira, extorquindo os que viviam com tão pouco, enquanto a sua presença satânica enchia a própria vida de excessos. Viajando pelo mundo afora com uma mulher de reputação duvidosa, uma prostituta de gestos refinados, ninguém ousava desmascarar a tal rameira e trazer à tona as suas estrepolias, por puro horror e pânico ensombrados numa estupefação sem precedentes.
Toda a igreja, sem tirar nem pôr,
alimentava essa certeza e sabia estar vivendo aos trancos e barrancos em meio
ao convívio de uma promíscua desqualifica e oportunista da pior qualidade.
Quando a igreja precisava ser "verificada". era ela, a maldita, quem,
segundo diziam, ajudava o falso missionário a meter as mãos nas ofertas e
direcionar os gastos e dar-lhes um paradeiro maquiado de gastos “maxambetados”
que os fiéis traziam para a casa do Senhor com enormes sacrifícios. Contam que
o falso bandido chegou ao ponto de vender um imóvel valoroso de um dos
responsáveis pela “Sala do Tesouro”, simplesmente porque o homem não cedeu aos
seus pedidos indevidos. Enquanto os bens desse ignominioso cresciam, em vista
das ostentações recheadas de carros novos, terras e propriedades à beira mar,
triplex, sítios e fazendas o templo junto, ou melhor dito, toda a comunidade em
peso sentia nos costados o cinto nos esqueletos apertando ainda mais forte.
Na rua, não havia mais sussurros. Na
padaria, quando ele entrava, o burburinho cessava e os olhares o seguiam com
desconfiança patente. Pelas costas, o chamavam de “ladrão e cachaceiro”,
obviamente não em voz alta. E quando dentro dos frontispícios do templo o viam
pregando o evangelho, os mais humildes e depauperados saiam de fininho, iam
embora, enquanto ele, o ilustre pastor, deixava o púlpito com os bolsos
abarrotados.
E ainda assim, todos, sem exceção,
voltavam no domingo seguinte. Uns por hábito, outros levados pelo medo tétrico
de serem apontados como rebeldes, muitos ainda porque a fé era maior que a
decepção. Havia uma oração sussurrada que ninguém fazia em voz alta: a de que
um dia a verdade sobressaísse e viesse à luz, não para destruir, mas para que a
justiça fosse feita e que a morada de Deus voltasse a ser um lugar onde os
pequenos e os necessitados se sentiriam acolhidos, e não explorados.
Enquanto isso, os seus “amiguinhos”
inseparáveis, aquelas figuras que deveriam vigiar, fechavam os olhos e se
acovardavam. Quem ousasse questionar as suas ordens, sumia rapidamente de cena,
silenciados ou posto de lado. O púlpito sagrado que requeria urgentemente ser
um lugar de retidão, onde deveria, acima de qualquer coisa, ser cultivada a
verdade, se transformara numa espécie de STF. A sua direção, um diabólico
pelintra macumbeiro que cultivava o diabo em rituais satânicos, se fazia
travestido de ministro sentado em seu trono particular, e não contente,
“canetava” os considerados infiéis ou aqueles que falavam demais. Os anos
passaram e o contraste maledicente só aumentava. De um lado, ele e os seus,
vestidos como nobres reis de um reino que não se fazia deste mundo, (mas que
por falta de mãos firmes e decisões íntegras, se agarravam de corpo e alma a
tudo que é enegrecido) e, por conta, uma galera cada vez mais atuante
prosperava “agigantadamente”.
Do outro ponto, o povinho alienado,
os tontos atormentados, os boçais pisoteados, machucados e largados ao Deus
dará, se viam enlameados entre os “sem vergonhas” atrelados aos ociosos que
lhes davam ouvidos e se misturavam aos que saíam das reuniões com seus corações
cheios de palavras bonitas, mas por traz de todos esses disfarces macabros,
milhares de vidas sucumbiam à mingua, se olvidavam cada vez mais ocas e
destituídas, necessitadas dos alimentos considerados prementes. Quando alguém
ousava perguntar para onde iam os dízimos e as ofertas, recebia como resposta
acusações de falta de fé ou advertências de que não se devia julgar os
escolhidos de Deus. Quando se avizinhava o tempo das renovações, ou o período
de escolher quem lhe sucederia nos caminhos do Pai Maior, não havia processo
transparente, nem consulta à comunidade.
Tudo já estava decidido em salas
fechadas. Candidatos ao cargo se prestavam escolhidos por ele mesmo, e aqueles
que se mostravam dispostos a continuar servindo aos seus interesses eram
agraciados com trocas de favores e pequenos poderes. Discursos grandiosos e
acalorados pululavam ensaiados, promessas de crescimento e bênçãos
multiplicadas se centuplicavam repetidas como mantras, mas ninguém falava de
justiça, de retidão, nem de partilha, tampouco de cuidar daqueles que mais
precisavam.
E assim, dessa forma, a roda de fogo
ardente parecia que jamais deixaria de aumentar. O poder continuava concentrado
nas mesmas mãos, os erros se repetiam disfarçados de sabedoria, e muitos,
cansados demais para lutarem, simplesmente se calavam, achando que era assim
que as coisas sempre deveriam ser.
Por conta disso, o silêncio pesado e
imorredouro passou a ser a única resposta segura. Quem antes ousava levantar a
voz, agora baixava o olhar e se calava. Os que insistiam em questionar
simplesmente criavam asas e desapareciam da noite para o dia, possivelmente com
passagem só de ida, como se nunca tivessem feito parte da comunidade. Outros
mais se viam igualmente levados para os braços das covas rasas, sob acusações
pesadas, tão graves essas infâmias, que assustavam até os que simplesmente
ouviam. E se um infeliz pedia provas, ou questionasse, sabia, de antemão, que
não havia nenhuma. Os processos se arrastavam, os nomes se quedavam manchados
para sempre, e as portas da verdade permaneciam fechadas, trancadas, enquanto
uma espécie de papuda se fazia sempre escancarada e pronta para receber os
desviados mais intrépidos e aguerridos.
Em paralelo, ele, o rei da cocada
preta, o rato intocável de esgoto e as sujidades que abocanhava das latrinas
seguiam sacrossantas e invioláveis. Havia quem sussurrasse que uma força
assustadiça o protegia, e que por conta disso, ninguém conseguia derrubá-lo
porque também, o “coisa ruim” não lutava apenas com armas terrenas. Caminhava
esse diabólico, entre os fiéis com um ar de quem nada teme, como se estivesse
acima de qualquer lei humana ou divina. Os rumores cresciam, se reduplicavam,
se expandiam, mas ele, sempre ele, não recuava, ao contrário, a cada nova
suspeita, a cada nova falcatrua, parecia que o maligno lhe acrescentava mais
forças, e o fartava de mais determinação, como via de exemplo, quanto mais
escuro ficava o dia ao seu redor, mais ele, a úlcera depravada, a chaga
bostela, a deformidade perversa, se sentia o dono e senhor da incomensurável e
indestrutível escuridão.
Título e Texto: Aparecido Raimundo
de Souza, de Brasília, Distrito Federal, 27-10-2026
Êxtase
Simplesmente Samária
Falta muito pouco para o verdadeiro “grito de liberdade” ecoar. Só depende de nós
Segue, firme e forte, essa eterna e imorredoura “Casa da mãe Joana”
Vexame
Talvez, lá no distante da curva...

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